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MIRIAM ABREU

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Sempre que se fala em educação, surge a famosa expressão: “a educação é a base”, e realmente é. Compreendo o termo “base” como sustentação, como alicerce sobre o qual se constrói algo de valor.

No entanto, em nosso país a educação sempre foi uma questão deixada em segundo plano, prova disso são os resultados, nas avaliações nacionais e, principalmente nas internacionais, onde é possível comparar o nível de aprendizagem dos estudantes brasileiros em relação aos países que, na prática, valorizam a educação de seus cidadãos.

No relatório mais recente, divulgado no final de 2023, nosso país apresentou desempenho abaixo da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). O Brasil permanece entre as últimas colocações em matemática, leitura e ciências, considerando os 81 países participantes.

Diante desse contexto, 2026 é considerado como o ano de consolidação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) estruturada em um documento robusto, com cerca de 600 páginas, no qual são estabelecidas dez competências gerais a serem desenvolvidas nas escolas de todo o país. Soma-se a isso uma nova exigência: a implementação obrigatória da BNCC da computação em todas as instituições de ensino, tanto públicas quanto privadas, ampliando-se assim os desafios e as responsabilidades do sistema educacional.

Certo é que um documento tão extenso como esse traz muitas questões genéricas, o que dificulta uma interpretação exata e prática de cada competência a ser executada. Somando-se a isso, estão as questões estruturais de cada escola, principalmente as públicas, como também a ausência de profissionais e de materiais necessários para o desenvolvimento de seus programas e projetos. A BNCC é a parte teórica que estabelece diretrizes, porém, os resultados reais virão somente a partir da prática efetiva em cada instituição de ensino em nossa nação.

O reflexo de tudo isso no meio empresarial e para o empreendedorismo brasileiro é evidente. Muitos empresários e empreendedores enfrentam dificuldades não apenas para encontrar mão de obra qualificada tecnicamente, mas, sobretudo, para formar equipes com capacidade de iniciativa, senso de responsabilidade ampliado e visão estratégica. Há uma lacuna que a cada ano se amplia entre “o saber fazer e o saber pensar sobre o fazer”. Essa lacuna tem um custo muito alto.  Empresas precisam de profissionais que não apenas executem tarefas, mas que compreendam processos, antecipem problemas, proponham soluções e assumam o protagonismo.

Esse descompasso entre a educação brasileira e a realidade profissional revela um ponto crítico: a escola e as universidades têm formado estudantes/profissionais para um mundo que já não existe. Em um contexto marcado por complexidades, inovações e pela necessidade de adaptação contínua, competências como liderança, pensamento crítico, tomada de decisões e visão estratégica deixaram de ser diferenciais, tornaram-se essenciais.

Sob a ótica do sociólogo francês Pierre Bourdieu, romper com esse ciclo implica em transformar o habitus familiar e escolar. Significa deslocar o foco da reprodução para a construção do conhecimento; da passividade para o protagonismo; da obediência cega para a responsabilidade consciente. Trata-se de uma mudança profunda, que envolve não apenas metodologias, mas concepções de ensino, de aprendizagem e de formação humana.

É importante destacar que essa transformação não é responsabilidade exclusiva da escola e das universidades. A família, como primeiro grupo social e responsável pela educação dos filhos, desempenha papel fundamental ao incentivar a autonomia, o senso crítico e a responsabilidade desde a infância. Da mesma forma, o próprio ambiente empresarial precisa assumir uma postura mais ativa na formação de seus colaboradores, investindo em desenvolvimento humano e não apenas em treinamento técnico.

O Brasil não carece de talentos. Carece de uma formação intencional e de qualidade para lideranças efetivas.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

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Miriam Abreu

É doutora e mestre em Educação pela (UFMS). Especialista em Orientação Educacional e Psicopedagogia pela (UFRRJ/CEP-EB). Pedagoga habilitada em Orientação Educacional (FUCMT)  e Supervisão Escolar (Faclepp). Consultora Educacional, palestrante e escritora. | @miriam_abreu65

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