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MIRIAM ABREU

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Numa certa quinta-feira, logo ao anoitecer, eu e meu esposo decidimos fazer uma curta caminhada. Para surpresa nossa observamos uma cena, nada agradável, no estacionamento de um supermercado relativamente grande em nossa cidade.

Um casal, uma criança que aparentava uns 7 a 8 anos e um adolescente de uns 16 anos entram no estacionamento. Como estávamos parados ali por alguns instantes, o modelo daquele carro branco nos chamou a atenção, por sinal muito bonito! Qual não foi a nossa surpresa quando o motorista se aproxima de uma vaga bem próxima a nós! Um jovem de aproximadamente 30 a 35 anos estava parado, olhando para o celular, na vaga onde o casal desejava estacionar. O motorista do carro disse a ele: “Ei, aí não é lugar pra você ficar parado, quero estacionar.”

O moço se irritou com o motorista e esbravejando foi até o seu carro que estava muito próximo, pegou uma arma e disse: “Eu vou atirar na sua cara!” e não cessava de fazer ameaças.

Imediatamente o adolescente desce do carro, vai até o moço e pede pelo amor de Deus que não faça isso. Em seguida sua mãe e sua irmãzinha faz o mesmo. Aquele pai de família permanece imóvel dentro do carro. A resistência daquele moço era visível, porém após alguns instantes entra furioso em seu carro e vai embora encarando a família.

Diante dessa cena rápida, porém extremamente assustadora, ficamos atônitos pedindo a Deus que livrasse aquela família. A partir de então, alguns questionamentos têm surgido à minha memória. E um deles é: como a nossa sociedade está doente! O desiquilíbrio é exposto todos os dias e de diversas formas. Nada é mais surpresa para nós brasileiros. São agressões físicas e psicológicas, assassinatos, abusos, corrupções, desvios, roubos, etc. Perdeu-se a noção de moralidade, ética, justiça e respeito ao outro em nossa sociedade.

Diante de cenários como este, torna-se evidente que o adoecimento da sociedade não é fruto de uma única causa, mas de uma combinação de fatores que se retroalimentam. A perda do sentido pela vida, o excesso de estímulos, a fragilidade nas relações, a crise na família e na educação, as muitas permissividades burlando as regras e as desigualdades estruturais compõem um quadro complexo que exige de todos nós e do poder público respostas igualmente profundas, se é que desejamos uma sociedade mais justa, saudável e equilibrada.

Esse fenômeno que jamais deve ser visto como algo isolado ou meramente individual, ao longo do tempo tem fragilizado vínculos, valores e a própria capacidade humana de atribuir sentido à vida. Independentemente de perspectivas religiosas, a ausência de sentido existencial, contribui para o vazio interior. Essa desconexão da espiritualidade e do propósito é algo a ser pensado.

O sociólogo Zygmunt Bauman descreve a contemporaneidade como uma “modernidade líquida”, caracterizada pela instabilidade nas relações, pela fluidez dos vínculos e pela ausência de estruturas duradouras. Compreendemos que esse adoecimento social reside na perda de referenciais sólidos que podem apontar sentido à vida. Nesse cenário tudo se torna supérfluo, transitório. Essa ausência de permanência gera insegurança existencial, ansiedade e a dificuldade de construção do pertencimento, elementos estes essenciais à saúde humana.

A educação, com certeza, ocupa um lugar central nesse processo. Quando a transmissão de conteúdo se desvincula da formação ética, moral, social e emocional, ela deixa lacunas na formação de nossas crianças, adolescentes e jovens. Quando a educação se omite em formar cidadãos críticos, responsáveis e autônomos, ela forma indivíduos passivos, dependentes e sem preparo para o enfrentamento das complexidades que a sociedade contemporânea nos impõe. O sociólogo francês Pierre Bourdieu nos auxilia na compreensão dessa análise quando ele afirma que a escola não apenas transmite conhecimento, mas também reproduz estruturas sociais e disposições culturais. Podemos compreender essas disposições como habitus.

Outro grupo essencial, e porque não dizer o principal é a família. Infelizmente esse primeiro grupo de socialização responsável pela educação dos filhos tem passado por uma fragilização nessas últimas décadas. Esse grupo, como espaço de formação de valores e princípios básicos tem impacto profundo na formação do ser humano. A ausência de limites claros e de disciplina, a superproteção e, em alguns casos, a negligência, dificultam o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade. Quando a família, como o primeiro espaço de construção de sentido torna-se um ambiente marcado pela ausência, seja ela física, emocional ou moral, faz com que todo o processo seja comprometido.

Diante desse cenário, podemos afirmar que o adoecimento da sociedade não é fruto de uma única causa, mas a combinação de muitos fatores que se retroalimentam. Mais do que tratar sintomas, é urgente e necessário reconstruir fundamentos a partir da família e da educação.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

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Miriam Abreu

É doutora e mestre em Educação pela (UFMS). Especialista em Orientação Educacional e Psicopedagogia pela (UFRRJ/CEP-EB). Pedagoga habilitada em Orientação Educacional (FUCMT)  e Supervisão Escolar (Faclepp). Consultora Educacional, palestrante e escritora. | @miriam_abreu65

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