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Separar o lixo já é, sem dúvida, um avanço. Mas, com o tempo, fui percebendo que isso, por si só, não é suficiente. Existe uma ideia bastante difundida de que separar materiais resolve o problema do descarte, como se todos os itens pudessem seguir o mesmo caminho a partir desse gesto inicial. No cotidiano, isso se traduz em situações comuns: copos, garrafas e potes dividindo espaço com pratos, xícaras e fragmentos de porcelana ou cerâmica, quase sempre com a melhor das intenções. O problema é que nem tudo o que descartamos pode ser tratado da mesma forma, e é justamente aí que a sustentabilidade começa a exigir um pouco mais do que hábito, exige compreensão.

Materiais como porcelana e cerâmica possuem composições diferentes do vidro comum e não podem ser reciclados junto com ele. Quando misturados, comprometem o processo e podem inviabilizar o reaproveitamento de outros materiais. Aquilo que parecia um gesto correto acaba gerando o efeito contrário. Esse tipo de situação revela algo que vai além do aspecto técnico: mostra como a educação ambiental ainda enfrenta um desafio de base, que é transformar informação em cultura.

Há também um aspecto que nem sempre é considerado. O descarte inadequado não afeta apenas o funcionamento do sistema, mas impacta diretamente quem atua na coleta e na triagem dos resíduos. São pessoas que lidam diariamente com aquilo que descartamos, muitas vezes em condições difíceis, e que dependem desse trabalho para gerar renda.

Do ponto de vista jurídico, a sustentabilidade já não é mais uma escolha, mas um dever que se estrutura em diferentes níveis. A legislação brasileira estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, envolvendo poder público, setor privado e sociedade. Isso significa que o descarte correto não é apenas uma recomendação ambiental, mas parte de uma lógica mais ampla de organização social, em que cada agente assume uma parcela de responsabilidade pelo impacto que gera.

Talvez seja justamente nesse ponto que a sustentabilidade se revela com mais clareza. Não nas grandes formulações teóricas, mas nos detalhes. No ajuste fino das escolhas, na informação que orienta o comportamento e na construção de uma cultura que vai além da boa intenção. No caso da porcelana e da cerâmica, a orientação é simples: quando quebradas, devem ser embaladas de forma segura e destinadas ao lixo comum. Um gesto pequeno, mas que preserva o funcionamento do sistema e reduz riscos desnecessários.

No fim, reciclar continua sendo fundamental. Mas, cada vez mais, fica evidente que separar é apenas o começo. O que realmente faz diferença é compreender o destino de cada material e agir de forma consciente. Porque sustentabilidade, no cotidiano, não se constrói apenas com intenção, se constrói com conhecimento.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Veridyana Fantinato

Veridyana Fantinato

Advogada e contadora, mestranda em Direito Público pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e MBA em Agronegócio pela USP/Esalq. Possui especialização em Direito Público, Licitações e Contratos Administrativos e mais de 20 anos de experiência na área pública. Dedica-se ao estudo da sustentabilidade, da governança e das políticas públicas. | @veridyanafantinato

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