Dias de jogos de futebol masculino têm sido associados ao aumento dos casos de violência contra a mulher no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em dias de partidas, os registros de ameaças e lesões corporais contra mulheres crescem mais de 23% nas grandes capitais brasileiras.
O cenário reacende o debate sobre violência de gênero e reforça a necessidade de campanhas de conscientização, ampliação da rede de apoio às vítimas e fortalecimento dos canais de denúncia.
Durante períodos de campeonatos como Libertadores, Brasileirão e Copa América, especialistas alertam que episódios de agressão doméstica tendem a aumentar, muitas vezes impulsionados pelo consumo excessivo de álcool, comportamento agressivo e tensões emocionais associadas às partidas.
Para a docente de direito penal da Wyden, Ielly Barros, o enfrentamento à violência exige mobilização coletiva e incentivo às denúncias.
“A defesa das mulheres vai além da existência da lei. Trata-se de um compromisso coletivo que envolve respeito, igualdade e responsabilidade social. Defender as mulheres é garantir que elas sejam ouvidas, acolhidas e protegidas, rompendo ciclos de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis”, afirma.
A especialista destaca ainda que diferentes formas de violência precisam ser reconhecidas e combatidas.
“É também combater todas as formas de agressão: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial, reconhecendo que nenhuma delas deve ser tolerada. A denúncia, nesse cenário, torna-se um instrumento essencial de transformação”, completa.
Segundo ela, canais oficiais como o Ligue 180 são fundamentais para que vítimas e testemunhas consigam buscar ajuda de forma segura e sigilosa.
Além do debate jurídico, especialistas da área da saúde alertam para os impactos físicos e emocionais causados pela violência doméstica.
A médica e professora do IDOMED, Vera Lúcia Fonseca, afirma que agressões podem provocar consequências graves e duradouras.
“A agressão física é um evento traumático agudo que produz consequências complexas e multifacetadas, impactando o corpo e a mente, com efeitos imediatos e de longo prazo. Como lesões somáticas podemos citar equimoses, escoriações, lacerações, ferimentos cortantes ou perfurantes, fraturas e traumas cranioencefálicos”, explica.
Ela acrescenta que muitas vítimas passam a conviver com dores crônicas e complicações físicas persistentes, como cefaleias, dores abdominais, fibromialgia e dores pélvicas.
Na área psicológica, os efeitos também são considerados profundos. Mulheres vítimas de violência apresentam maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, além de dificuldades de convivência social e queda na autoestima.
Para a psicóloga do IBMEC, Erica Vacilloto Fregonesi Domingues, o acolhimento psicológico é essencial para interromper o ciclo da violência.
“A violência não atinge apenas o corpo, ela desestrutura a saúde mental, gera insegurança constante e pode levar ao isolamento. O acesso ao acolhimento psicológico é fundamental para interromper esse ciclo e promover a recuperação dessas mulheres”, destaca.
Com foco na conscientização e orientação da população, instituições de ensino e organizações sociais têm ampliado campanhas de combate à violência de gênero. Entre elas está a iniciativa “Não Fique Calado”, que reúne informações sobre violência doméstica, canais de denúncia e formas de apoio às vítimas.
A campanha também busca envolver o público masculino no debate sobre prevenção da violência e igualdade de gênero.
Além da divulgação de informações, a iniciativa conta com apoio de núcleos de prática jurídica e serviços-escola de psicologia que oferecem orientação gratuita à população.
Especialistas reforçam que combater a violência contra a mulher depende não apenas da atuação das autoridades, mas também do engajamento da sociedade, da denúncia e da ampliação das redes de acolhimento e proteção às vítimas.
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