Casos de morte súbita em estádios impulsionaram leis sobre desfibriladores e ampliaram debate sobre atendimento rápido em paradas cardíacas
O futebol costuma ser lembrado pelos gols, títulos e rivalidades que mobilizam milhões de torcedores. Mas alguns dos momentos mais marcantes da história do esporte ficaram registrados por razões muito diferentes. Tragédias ocorridas dentro dos gramados transformaram o futebol em um importante agente de mudança para os protocolos de emergência e atendimento cardiovascular no Brasil.
A morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, durante uma partida contra o São Paulo, no estádio do Morumbi, em 2004, tornou-se um divisor de águas. Aos 30 anos, o atleta sofreu uma parada cardiorrespiratória em campo e morreu horas depois. O episódio expôs fragilidades nos sistemas de resposta a emergências médicas em eventos esportivos e desencadeou uma série de mudanças em legislações estaduais e municipais.
Nos anos seguintes, cidades e estados passaram a exigir a presença de desfibriladores externos automáticos (DEA) em locais com grande circulação de pessoas, além da capacitação de equipes para atendimento em situações de urgência. Entre os pioneiros estiveram São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Duas décadas depois, o tema voltou ao centro das atenções após o uruguaio Juan Izquierdo, do Nacional, sofrer um mal súbito durante uma partida da Copa Libertadores, em 2024. O caso reacendeu o debate sobre prevenção, diagnóstico precoce e rapidez na resposta a emergências cardiovasculares.
Mais recentemente, a morte de um torcedor português de 77 anos, vítima de parada cardíaca antes de um amistoso entre Portugal e Nigéria, reforçou que o risco não está restrito aos atletas. Estádios, ginásios e centros esportivos reúnem milhares de pessoas de diferentes faixas etárias e condições de saúde, tornando indispensável a existência de protocolos eficientes e equipamentos adequados.
Parada cardíaca pode atingir até atletas sem histórico conhecido
Segundo a médica Selma Guimarães Ferreira Medeiros, instrutora dos cursos de Suporte Avançado de Vida Cardiovascular (ACLS) da CoreHelp, a parada cardíaca súbita pode ocorrer inclusive em pessoas aparentemente saudáveis.
“Algumas doenças cardíacas, alterações genéticas e distúrbios elétricos do coração podem permanecer silenciosos durante muitos anos e não serem identificados em exames de rotina”, explica.
De acordo com a especialista, o esforço físico intenso pode funcionar como gatilho para arritmias graves em pessoas predispostas. Sintomas como desmaios, tonturas frequentes, palpitações, taquicardia, falta de ar excessiva ou dores no peito durante atividades físicas devem ser investigados.
“Muitos atletas interpretam esses sinais como resultado do treinamento intenso ou do estresse competitivo, quando, na verdade, podem representar um alerta importante para doenças cardiovasculares”, afirma.
Entre jovens atletas, as causas mais comuns estão associadas a cardiomiopatias hereditárias e síndromes genéticas relacionadas ao ritmo cardíaco. Após os 35 anos, a principal causa passa a ser a doença arterial coronariana.
Minutos decisivos podem salvar vidas
Especialistas são unânimes ao afirmar que o tempo é o principal fator para aumentar as chances de sobrevivência em uma parada cardíaca.
Quando um atleta ou qualquer pessoa perde a consciência de forma repentina e não responde a estímulos, a suspeita de parada cardíaca deve ser considerada imediatamente. Nesse momento, a rápida ativação dos serviços de emergência e o início das manobras de ressuscitação cardiopulmonar fazem toda a diferença.
“A cada minuto sem reanimação cardiopulmonar e desfibrilação precoce, as chances de sobrevivência diminuem significativamente”, destaca Selma.
O DEA, equipamento que se tornou obrigatório em diversos espaços públicos, analisa automaticamente o ritmo cardíaco e indica se há necessidade de aplicar um choque elétrico. O aparelho fornece comandos por voz e foi desenvolvido para ser utilizado até mesmo por pessoas sem formação médica, desde que treinadas.
Legislação avançou, mas ainda há desafios
Em Mato Grosso do Sul, a legislação determina a presença de desfibriladores em locais como estádios, ginásios esportivos, shopping centers, aeroportos, rodoviárias, academias, clubes e instituições de ensino superior.
Apesar dos avanços regionais, o Brasil ainda não possui uma legislação federal unificada que estabeleça regras padronizadas para a disponibilização desses equipamentos em espaços públicos e privados de grande circulação.
Para especialistas, além da aquisição dos aparelhos, a capacitação das equipes continua sendo um dos principais desafios.
Cursos de Suporte Básico de Vida e de Suporte Avançado de Vida em Cardiologia treinam profissionais de saúde, socorristas e até leigos para reconhecer situações de emergência, iniciar manobras de ressuscitação e utilizar corretamente o desfibrilador.
“Na prática, isso significa atendimento mais rápido, decisões mais eficientes e maiores chances de sobrevivência para a vítima”, afirma a médica.
O que fazer diante de uma parada cardíaca
A orientação para quem presencia uma parada cardíaca é agir imediatamente.
O primeiro passo é acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192. Em seguida, deve-se iniciar compressões fortes e rápidas no centro do peito da vítima até a chegada do socorro especializado. Se houver um desfibrilador disponível, ele deve ser utilizado o mais rápido possível.
“Não tenha medo de agir. Em uma parada cardíaca, cada minuto conta. Uma pessoa comum pode ser decisiva para manter a vítima viva até a chegada da equipe médica”, orienta Selma.





















