Menores de 5 anos concentram mais da metade das internações pediátricas por queimaduras no país; fogueiras, fogos de artifício e alimentos quentes estão entre os principais riscos
As tradicionais festas juninas e julinas trazem música, comidas típicas e momentos de confraternização, mas também aumentam a exposição de crianças e adolescentes a situações que podem resultar em queimaduras. O alerta foi reforçado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que chama atenção para os riscos associados ao uso de fogueiras, fogos de artifício, churrasqueiras e recipientes com alimentos e bebidas quentes.
Segundo o presidente da entidade, Edson Liberal, as celebrações exigem cuidados extras por parte das famílias. “As festas fazem parte da cultura brasileira e são momentos de celebração para muitas famílias, mas também exigem atenção redobrada porque neste período há maior exposição a fogueiras, fogos de artifício, churrasqueiras, recipientes com alimentos e bebidas quentes e outros materiais inflamáveis”, afirmou à Agência Brasil.
Dados levantados pela SBP mostram que crianças menores de 5 anos concentraram 53,8% das internações por queimaduras registradas entre crianças e adolescentes no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2024 e 2025. No período, foram contabilizadas 13,8 mil hospitalizações por queimaduras e outros acidentes térmicos graves, sendo 6.965 casos em 2024 e 6.855 em 2025.
A entidade ressalta que o número de ocorrências tende a ser ainda maior, já que os dados consideram apenas os casos que exigiram internação hospitalar. “No entanto, sabemos que o número real de ocorrências é bastante superior ao registrado, já que muitos episódios leves e moderados são atendidos em unidades de pronto atendimento, consultórios ou mesmo tratados em casa, sem entrar nas estatísticas hospitalares”, destacou Liberal.
Na prática, isso significa que as internações representam apenas a parcela mais grave de um problema frequente no cotidiano das famílias.
Quase 20 internações por dia
Nos dois anos analisados, a média foi de quase 20 internações diárias de crianças e adolescentes por queimaduras e acidentes térmicos. Entre os pacientes hospitalizados, 20% tinham entre 5 e 9 anos de idade, o equivalente a 2.820 internações.
Na sequência aparecem crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, com 1.848 registros (13%), e jovens de 15 a 19 anos, com 1.721 casos (12%).
De acordo com a SBP, a maior parte dos acidentes está relacionada ao contato com fontes de calor e substâncias quentes, situação comum dentro de casa durante o preparo de alimentos ou no manuseio de líquidos aquecidos. Também aparecem com frequência casos envolvendo exposição à fumaça, fogo e chamas.
As notificações incluem ainda acidentes provocados por corrente elétrica, temperaturas extremas, agressões e outros eventos térmicos. Nas situações mais graves, os registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) apontam mais de 300 mortes de crianças e adolescentes por ano em 2023 e 2024.
Curiosidade infantil aumenta o risco
Segundo Edson Liberal, a curiosidade é uma característica natural da infância, mas pode aumentar a exposição a situações perigosas.
“O problema é que as crianças pequenas ainda não têm maturidade para reconhecer situações de perigo. Elas se interessam por objetos coloridos, brilhantes, que produzem calor, luz ou movimento, além de tudo aquilo que observam nos adultos.”
Entre os comportamentos mais comuns estão tentar alcançar objetos colocados em locais altos, puxar toalhas de mesa, abrir portas e reproduzir atitudes observadas dentro de casa. Por isso, a recomendação é manter supervisão constante e adaptar os ambientes para reduzir riscos.
“São medidas fundamentais para a prevenção de acidentes”, afirmou.
A entidade orienta que crianças não manuseiem fogos de artifício, fósforos, isqueiros ou qualquer material que envolva fogo ou explosão. Durante as festas, elas devem permanecer sempre acompanhadas por adultos e afastadas de fontes de calor.
Como prevenir acidentes
A maioria das queimaduras pode ser evitada com medidas simples de prevenção. Entre as principais orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria estão:
- Manter crianças afastadas de fogueiras, churrasqueiras e fogos de artifício;
- Não permitir o manuseio de fósforos, isqueiros ou artefatos explosivos;
- Evitar que crianças circulem próximas ao preparo de alimentos e bebidas quentes;
- Não deixar panelas, chaleiras e recipientes quentes ao alcance dos pequenos;
- Redobrar a supervisão durante festas e reuniões familiares;
- Armazenar produtos inflamáveis e produtos de limpeza em locais seguros.
Além das queimaduras causadas por líquidos quentes e fogo, a SBP alerta para outros agentes capazes de provocar lesões graves, como produtos químicos, tomadas desprotegidas, fios elétricos desencapados e substâncias inflamáveis, entre elas o álcool líquido e o álcool em gel.
“É importante lembrar que a pele das crianças é mais delicada e vulnerável, o que favorece queimaduras mais profundas e com maior risco de sequelas”, advertiu Liberal.
Dependendo da gravidade, as queimaduras podem exigir procedimentos cirúrgicos e longos períodos de recuperação.
O levantamento mostra que a Região Sudeste registrou o maior volume de internações pediátricas por queimaduras e acidentes térmicos nos dois anos analisados, com 2.203 casos em 2024 e 2.328 em 2025.
Em seguida aparecem o Nordeste, com 1.830 e 1.799 registros, respectivamente; o Sul, com 1.675 e 1.763; o Norte, com 724 e 692; e o Centro-Oeste, com 533 internações em 2024 e 525 em 2025.
Segundo a SBP, embora as festas juninas e julinas sejam um importante patrimônio cultural brasileiro, a combinação entre fogo, alimentos quentes e grande circulação de pessoas exige atenção dos responsáveis. Com supervisão adequada e medidas simples de prevenção, a maior parte dos acidentes pode ser evitada.
*Informações: Agência Barsil e Imagem: © PREFEITURA MUNICIPAL DE BAEPEND





















