Em um período em que celulares e tablets disputam a atenção dos pequenos, especialistas alertam para a importância do brincar livre
As férias escolares chegaram e, para muitos pais, a cena se repete: poucos dias após o encerramento das aulas, crianças já estão entediadas, circulando pela casa com o celular nas mãos ou passando horas diante da televisão. Em meio à correria do trabalho e das responsabilidades diárias, as telas se tornam uma solução prática para ocupar o tempo livre dos filhos.
Mas especialistas alertam que o período de férias representa uma oportunidade valiosa para algo cada vez mais raro na infância moderna: brincar.
Mais do que entretenimento, o ato de brincar é considerado fundamental para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças. As experiências vividas longe das telas são justamente aquelas que tendem a permanecer na memória por toda a vida.
Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mostram que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos está associado a dificuldades de atenção, problemas de sono, sedentarismo, ansiedade e prejuízos na socialização. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças tenham contato limitado com telas e pratiquem atividades físicas, brincadeiras e interações presenciais diariamente.
Para a psicóloga e psicopedagoga Olívia Carromeu, as férias cumprem um papel importante no desenvolvimento infantil justamente porque permitem experiências diferentes da rotina escolar.
“As férias escolares não precisam ser preenchidas com atividades o tempo todo. Esse período é fundamental para que a criança descanse, recupere as energias e vivencie experiências diferentes da rotina escolar”, explica.
Segundo ela, o problema surge quando o período de descanso se transforma em isolamento social.
“O período de férias em que a criança fica longe da rotina escolar pode impactar no seu comportamento e em suas emoções a partir do momento que ela passar as férias longe de outras crianças, somente num ambiente adulto. A falta de convívio com os demais pares é essencial para a construção da personalidade e do desenvolvimento infantil”.
O cérebro aprende enquanto a criança brinca
Quem observa uma criança correndo, pulando amarelinha ou montando uma cabana improvisada na sala pode imaginar que se trata apenas de diversão. Mas, segundo especialistas, o cérebro está trabalhando intensamente durante essas atividades.
Olívia explica que praticamente toda brincadeira exige habilidades cognitivas e emocionais.
“Toda brincadeira acaba requisitando da criança uma habilidade cognitiva e emocional. Nas brincadeiras geralmente existem regras, faz de conta, resolução de problemas e diversas situações que contribuem para o desenvolvimento infantil”.
De acordo com a psicóloga, atividades aparentemente simples ajudam a desenvolver capacidades importantes para a vida adulta.
“As brincadeiras de planejamento estratégico, de raciocínio lógico, de padrões matemáticos e aquelas que desenvolvem habilidades socioemocionais estimulam diferentes áreas do cérebro”.
Para explicar a diferença entre brincar e consumir conteúdo digital, a especialista faz uma comparação que ajuda a entender os impactos das duas experiências.
“Somente as brincadeiras ao vivo, aquelas em que a criança cria, imagina, planeja e constrói estratégias, acrescentam novas habilidades cognitivas. É como se o celular fosse apenas uma via de uma estrada. Já as brincadeiras fora das telas são uma estrada com várias pistas, caminhos de ida e volta”.
O tédio também faz parte da infância
Uma das maiores preocupações dos pais durante as férias costuma ser evitar que os filhos fiquem sem atividades. Mas, segundo a psicopedagoga, não há problema algum em deixar que as crianças experimentem momentos de tédio.
Na verdade, eles podem ser importantes para estimular a criatividade. O tédio, bem como a frustração, deve ser algo que a criança precisa presenciar”, afirma Olívia.
Segundo ela, a ausência de estímulos constantes ensina algo valioso. “A partir do momento que a criança passa pelo tédio e pela frustração, ela vai se tornar um adulto não imediatista”.
Em outras palavras, é justamente quando a criança não encontra uma resposta pronta na tela que ela aprende a criar suas próprias formas de diversão.
A infância que a Fábrica do Brincar quer resgatar
Foi observando a crescente dependência das telas que Renato Reis decidiu criar a Fábrica do Brincar, projeto que promove atividades lúdicas em escolas, eventos, empresas e espaços públicos.
A iniciativa tem como objetivo resgatar brincadeiras tradicionais que marcaram gerações e mostrar que a diversão pode acontecer sem tecnologia.
Segundo Renato, uma das maiores preocupações dos pais durante as férias é encontrar equilíbrio entre trabalho e convivência familiar. “Muitos pais precisam trabalhar o dia todo e ficam preocupados porque os filhos acabam passando muito tempo no celular, na televisão ou sem saber o que fazer”.
Ele ressalta que a culpa não deve fazer parte desse processo. “É importante lembrar que a criança não precisa de pais disponíveis o dia inteiro. Ela precisa de momentos de qualidade”.
Para Renato, o principal ingrediente da infância continua sendo o mesmo de décadas atrás: a presença. “A grande mágica na construção da identidade de uma criança é o tempo de qualidade. Quando um adulto está 100% presente, a criança aprende, cria vínculos, se sente importante e leva essas experiências para a vida toda”.
A psicopedagoga confirma a relevância do tempo de qualidade. “O que importa não é a quantidade de horas que esse pai passa longe do filho, e sim a qualidade de tempo que ele fica com ele”.
Mesmo alguns minutos de atenção exclusiva podem gerar impactos positivos. “Quando o pai deixa um tempo de qualidade com seu filho, as crianças sentem com muito carinho, sentem que são acolhidas. Isso é extremamente importante para o desenvolvimento infantil”, afirma Olívia.
Brincadeiras antigas continuam encantando
Embora muitas crianças tenham nascido em uma realidade dominada por smartphones, Renato garante que as brincadeiras tradicionais continuam despertando entusiasmo.
“Na Fábrica do Brincar vemos isso acontecer em todos os eventos. Quando a brincadeira é apresentada de forma divertida, a criança participa com entusiasmo, mesmo que nunca tenha brincado antes”.
Segundo ele, existe algo universal no ato de brincar. “O brincar não envelhece. O que muda é a oportunidade que a criança tem de conhecer essas experiências”.
Entre as atividades que costumam fazer mais sucesso estão aquelas que estimulam a imaginação. “A caça ao tesouro sempre encanta porque desperta a curiosidade. As cabanas também fazem muito sucesso porque permitem que a criança use a imaginação”.
As brincadeiras coletivas também têm lugar garantido. “A mímica e o telefone sem fio rendem muitas risadas quando toda a família participa. No fim das contas, a melhor brincadeira é aquela que reúne as pessoas”.
Ideias para tirar as crianças das telas nas férias
Renato destaca que não é preciso gastar dinheiro para criar momentos marcantes. “As melhores brincadeiras quase nunca dependem de dinheiro”, afirma.
Entre as atividades sugeridas por ele estão:
- Caça ao tesouro pela casa ou quintal;
- Construção de cabanas com lençóis e almofadas;
- Mímica em família;
- Telefone sem fio;
- Esconde-esconde;
- Pega-pega;
- Amarelinha;
- Corridas de obstáculos usando objetos da casa;
- Bolhas de sabão;
- Oficinas de desenho e pintura;
- Jogos de adivinhação;
- Teatro de fantoches improvisado;
- Desafios com caixas de papelão;
- Gincanas familiares;
- Jogos de bola em parques e praças;
- Contação de histórias;
- Piqueniques ao ar livre.
Segundo ele, a simplicidade costuma ser justamente o segredo. “O que faz a diferença não é o brinquedo mais caro. É a presença de um adulto disposto a brincar junto”.
As memórias que ficam
Enquanto vídeos são esquecidos após alguns minutos e tendências digitais mudam rapidamente, as lembranças da infância costumam permanecer por décadas.
Renato acredita que esse é o verdadeiro valor das férias. “Na Fábrica do Brincar, acreditamos que os dias são lentos, mas os anos são rápidos. A infância passa depressa, e o que fica para sempre são as memórias construídas em família”.
Para ele, o maior presente que os pais podem oferecer não está nas lojas. “Os filhos não vão lembrar dos presentes ou das coisas que tiveram. Vão lembrar das brincadeiras, das risadas e do tempo de qualidade ao lado dos pais, irmãos e amigos”.
E conclui. “Cada momento de brincar é uma experiência que ajuda a formar crianças mais criativas, comunicativas, seguras e felizes. Afinal, o melhor presente que um pai e mãe pode dar a um filho é a sua presença”.
Em tempos de notificações, vídeos curtos e telas por todos os lados, talvez a melhor programação para estas férias seja justamente a mais simples: desligar o celular, sentar no chão e brincar. Afinal, a infância passa rápido, e as melhores lembranças quase nunca cabem em uma tela.



















