Carregando…

Compartilhe

Modelos climáticos indicam aquecimento histórico do Oceano Pacífico; fenômeno pode alterar regime de chuvas, afetar o agronegócio, elevar risco de queimadas e impactar a saúde pública

Uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) acendeu o alerta para a possibilidade de um Super El Niño no fim de 2026. Projeções divulgadas por centros internacionais de monitoramento climático indicam que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial pode atingir níveis históricos nos próximos meses, com potencial para provocar mudanças significativas no clima do Brasil e reflexos diretos na economia, na produção agropecuária, nos recursos hídricos e na saúde pública.

Segundo os modelos analisados pelo Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da UFMS, o fenômeno poderá alcançar seu pico entre novembro e dezembro deste ano, com anomalias de temperatura entre 3°C e 4°C na região conhecida como Niño 3.4, no Pacífico Equatorial Centro-Leste.

Caso as projeções se confirmem, o episódio poderá figurar entre os mais intensos já registrados desde o início das medições modernas, superando eventos históricos como os de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

Apesar dos indicativos, os pesquisadores destacam que ainda é cedo para confirmar a intensidade definitiva do fenômeno.

Segundo o pesquisador Thiago Rangel Rodrigues, do Laboratório de Ciências Atmosféricas da UFMS, os sinais observados pelos modelos são consistentes, mas ainda dependem da evolução das condições oceânicas e atmosféricas nos próximos meses.

“Os modelos climáticos mostram, de forma bastante consistente, que o aquecimento do Pacífico continuará aumentando durante o segundo semestre. Entretanto, ainda não podemos afirmar que teremos um Super El Niño recorde. Estamos analisando cenários probabilísticos, e somente o monitoramento contínuo permitirá confirmar a intensidade que o fenômeno realmente alcançará”, afirma.

Aquecimento preocupa cientistas

As projeções do Climate Forecast System (CFS), desenvolvido pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), têm chamado atenção da comunidade científica.

Algumas simulações recentes indicam anomalias próximas de 4,8°C na superfície do mar da região Niño 3.4, enquanto a média das projeções permanece acima de 4°C para o final de 2026.

Mesmo metodologias consideradas mais conservadoras apontam aquecimentos entre 3,3°C e 3,5°C, valores compatíveis com episódios classificados como extremamente fortes.

De acordo com Thiago Rangel Rodrigues, um Super El Niño é caracterizado quando as temperaturas do oceano permanecem cerca de 2°C acima da média durante vários meses consecutivos.

Ainda assim, ele ressalta que existe uma limitação conhecida pelos climatologistas como “barreira de previsibilidade da primavera”, período em que os modelos apresentam maior dificuldade para estimar com precisão a intensidade futura do fenômeno.

O que é o El Niño

O El Niño faz parte do sistema climático chamado El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial permanecem mais quentes do que a média por um período prolongado.

Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e modifica o transporte de calor e umidade em diferentes regiões do planeta.

“O aquecimento anômalo do Pacífico equatorial altera a circulação atmosférica em escala global, provocando mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperatura em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil”, explica o pesquisador.

Quando o fenômeno atinge níveis extremos, os impactos tendem a ser mais intensos, aumentando a ocorrência de secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos climáticos severos.

Mato Grosso do Sul pode sentir efeitos distintos

Em Mato Grosso do Sul, os efeitos costumam variar de acordo com a região.

Historicamente, episódios de El Niño favorecem o aumento das chuvas na região sul do estado devido à maior atuação de frentes frias e sistemas de baixa pressão sobre o centro-sul da América do Sul.

Já as regiões norte e oeste podem apresentar comportamento mais variável, dependendo da intensidade do fenômeno e da interação com outros sistemas atmosféricos.

Os dois principais biomas sul-mato-grossenses também podem ser impactados.

No Pantanal, alterações no regime de chuvas podem modificar o ciclo natural de cheias e vazantes, afetando a biodiversidade, a navegação, a pesca, o turismo e a pecuária.

No Cerrado, a irregularidade das precipitações representa um dos principais desafios para a agricultura.

Os pesquisadores alertam ainda para o aumento do risco de incêndios florestais caso as mudanças climáticas coincidam com períodos de calor intenso e baixa umidade.

Agronegócio entre os setores mais vulneráveis

A pesquisa aponta que a agricultura e a pecuária estão entre os setores mais sensíveis aos efeitos do El Niño.

O principal problema não está apenas na quantidade total de chuva, mas na distribuição das precipitações ao longo das diferentes fases das culturas agrícolas.

“O desafio não está apenas na quantidade total de chuva, mas também na forma como ela se distribui ao longo da estação de cultivo. A irregularidade das precipitações pode comprometer significativamente a produtividade agrícola”, destaca Thiago.

Culturas como soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar podem sofrer perdas tanto por excesso quanto por falta de água.

Na pecuária, temperaturas elevadas e aumento da umidade podem provocar estresse térmico nos animais, reduzir a produtividade e favorecer a disseminação de doenças.

Os impactos podem se estender para toda a cadeia produtiva, influenciando armazenamento, transporte, exportações e preços dos alimentos.

Reflexos também podem atingir a saúde pública

Os efeitos de um eventual Super El Niño não se limitam ao campo.

A pesquisa da UFMS aponta que períodos mais quentes e úmidos favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti, aumentando o risco de dengue, chikungunya e zika.

Chuvas intensas também podem ampliar a incidência de doenças relacionadas à contaminação da água, enquanto episódios de fumaça provocados por queimadas tendem a agravar problemas respiratórios.

Além disso, mudanças na distribuição das chuvas afetam diretamente a disponibilidade de água para abastecimento humano, irrigação e geração de energia elétrica.

Planejamento pode reduzir prejuízos

Apesar do cenário de atenção, os pesquisadores destacam que o El Niño possui uma vantagem importante: sua evolução pode ser monitorada com meses de antecedência.

Isso permite que produtores rurais, gestores públicos e empresas adotem medidas preventivas para reduzir prejuízos.

Entre as recomendações estão o acompanhamento constante das previsões climáticas, o planejamento do calendário agrícola, o uso de cultivares mais adaptadas, a adoção de sistemas de irrigação e o fortalecimento de mecanismos de monitoramento e alerta.

Segundo Thiago Rangel Rodrigues, o conhecimento científico precisa ser incorporado cada vez mais ao planejamento estratégico.

“O monitoramento contínuo permite que governos, produtores rurais e a sociedade se preparem com antecedência. Planejamento agrícola, gestão dos recursos hídricos, fortalecimento da infraestrutura e sistemas de alerta são ferramentas essenciais para aumentar a resiliência diante dos eventos climáticos extremos”.

O pesquisador conclui que, embora a confirmação de um Super El Niño ainda dependa da evolução das condições atmosféricas e oceânicas nos próximos meses, os sinais atuais justificam atenção redobrada.

“Mais do que reagir aos eventos extremos, precisamos desenvolver uma cultura de prevenção baseada na ciência. Quanto mais cedo produtores, gestores públicos e a sociedade incorporarem as previsões climáticas ao planejamento, maiores serão as chances de reduzir prejuízos e aproveitar melhor as oportunidades de cada safra e de cada estação”.

Com informações e imagem da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Os comentários a seguir não representam a opinião do Portal Total News

Deixe um comentário

Total News MS

AD BLOCKER DETECTED

Indicamos desabilitar qualquer tipo de AdBlocker

Please disable it to continue reading Total News MS.