Nesta quinta-feira, Campo Grande recebe o que talvez seja o experimento mais interessante de inovação social em curso no Brasil: o Evento Nacional Enactus Brasil 2026. Terei a honra de compor o corpo de jurados da Rodada de Abertura da Liga Principal, e a experiência renova uma convicção que carrego há anos acompanhando o ecossistema de CT&I e de economia de impacto no país. O problema do empreendedorismo social brasileiro nunca foi a falta de ideias. Foi a falta de canais que as levem a sério.

Entre 2023 e 2025 integrei a Enimpacto, a Estratégia Nacional de Economia de Impacto vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Foi um período de imersão direta nos eixos estratégicos que estruturam a política pública de negócios de impacto no Brasil, do fortalecimento do ambiente regulatório ao acesso a mercados e capital, e nas metas que orientam essa agenda até o final da década. Uma das lembranças mais marcantes desse período foi uma reunião com Muhammad Yunus, economista bengalês vencedor do Nobel da Paz e criador do microcrédito moderno através do Grameen Bank. Ouvir de Yunus, pessoalmente, sua leitura sobre negócios sociais e a diferença estrutural entre caridade e empreendedorismo com propósito ajudou a consolidar um critério que hoje aplico como jurado: impacto social só é sério quando vem acompanhado de sustentabilidade econômica comprovada.
É esse mesmo critério que encontro, em escala universitária, na Enactus. A organização opera em mais de 30 países e reúne, no Brasil, dezenas de núcleos que desenvolvem projetos de impacto social ancorados em metodologia de negócios. Não se trata de caridade organizada nem de ativismo sem métrica. É outra coisa: jovens de graduação aplicando ferramentas de viabilidade econômica, validação de mercado e mensuração de impacto a problemas concretos de suas comunidades. O tema desta edição, “O Mundo que Re:Construímos”, sintetiza bem o momento. Depois de anos de crises sobrepostas, sanitária, climática, econômica, a pergunta que resta não é se reconstruímos, mas quem terá assento na mesa de decisão sobre como isso será feito.
Minha função como jurado é avaliar rigor. E é justamente aí que a Enactus surpreende quem espera encontrar apenas boa vontade. Os critérios de julgamento cobram indicadores de impacto social, ambiental e econômico simultaneamente, com evidência de sustentabilidade financeira do projeto ao longo do tempo. Não basta o projeto funcionar uma vez. Precisa demonstrar capacidade de se manter, escalar e gerar valor mensurável para as pessoas que pretende beneficiar. São os mesmos princípios que vi debatidos, em nível de política pública nacional, nos eixos estratégicos da Enimpacto, agora aplicados por estudantes de graduação resolvendo problemas em suas próprias cidades.
Há um argumento estrutural por trás disso que merece atenção de quem pensa política de inovação no Brasil. O país tem um sistema robusto de fomento à pesquisa científica e tecnológica, com instrumentos como o FNDCT operados por Finep e CNPq. O que ainda falta consolidar é a ponte entre essa infraestrutura e a formação de uma cultura empreendedora que nasça já dentro da universidade, antes mesmo do primeiro projeto de pesquisa aplicada ou da primeira patente. A Enactus ocupa exatamente essa lacuna. Ela não compete com os instrumentos de fomento à inovação tecnológica nem com as metas de mercado e capital que orientam a economia de impacto em nível federal. Ela forma, anos antes, o tipo de empreendedor que futuramente saberá o que fazer com esses instrumentos.
Há também um dado que costuma escapar do debate público sobre juventude e trabalho no Brasil. Estudos internacionais sobre organizações estudantis de impacto mostram que a experiência de liderar projetos com métricas reais de resultado, ainda na graduação, tem correlação direta com trajetórias profissionais mais resilientes e com maior propensão a empreender depois de formado. Em outras palavras, o ENEB não premia apenas os melhores projetos do momento. Ele identifica, com dois ou três anos de antecedência, quem construirá as empresas e organizações de impacto da próxima década brasileira.
Por isso participar como jurado é mais do que uma tarde de avaliação técnica. É observar, em tempo real, a formação do capital humano que sustentará a próxima geração de inovação social no país, muito antes de esse capital aparecer em qualquer estatística de empreendedorismo ou relatório de fomento.
Amanhã, em Campo Grande, universitários de todo o Brasil vão defender projetos que já estão, hoje, mudando a vida de suas comunidades. Vale acompanhar de perto quem são. Alguns desses nomes provavelmente reaparecerão, daqui a alguns anos, em contextos bem maiores do que um evento universitário, talvez nos mesmos espaços de política pública onde hoje se debate o futuro da economia de impacto no Brasil.
















