Uma emenda de redação aprovada no Senado transformou o parque de bioeletricidade sul-mato-grossense em ativo qualificado para a economia dos data centers. A janela tem prazo e será decidida na regulamentação.
As cinco maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos devem aplicar cerca de US$ 700 bilhões em ativos fixos apenas em 2026, a maior parte em data centers e no poder computacional que sustenta a inteligência artificial. O Brasil entrou nessa rota e lidera a América Latina, com mais de R$ 150 bilhões em anúncios nos últimos dois anos e projeção da Brasscom de aproximadamente US$ 11,4 bilhões até o fim deste ano, podendo alcançar cerca de US$ 33 bilhões até 2030. A disputa entre territórios por essa carga de investimento já começou, e ela não se decide por alíquota.
Decide-se por energia. Um data center dedicado à inteligência artificial consome até dez vezes mais eletricidade do que um data center tradicional de nuvem, porque o treinamento e a inferência de modelos exigem milhares de processadores gráficos operando de forma contínua. Carga contínua exige energia firme, despachável e disponível 24 horas por dia. É exatamente aqui que Mato Grosso do Sul entra na conversa, e entra em posição incomum.
O que o Senado aprovou, e a palavra que mudou tudo
Em 1º de setembro, o Plenário do Senado aprovou o Projeto de Lei nº 278/2026, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata, agora à espera de sanção presidencial. O regime suspende por cinco anos Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI sobre equipamentos destinados à instalação e à ampliação dessas estruturas. A renúncia estimada pela Receita Federal chega a R$ 7,25 bilhões até 2028, sendo R$ 5,2 bilhões já neste ano.
O ponto decisivo para o Centro-Oeste, porém, não está no capítulo tributário. Está em uma emenda de redação de autoria do senador Laércio Oliveira, acolhida no parecer do relator Cid Gomes, que substituiu a exigência de fontes “limpas ou renováveis” por “renováveis ou de baixa emissão”. O texto passou a definir baixa emissão como a geração de reduzido impacto ambiental e baixas emissões de gases de efeito estufa, na forma do regulamento. Com isso, abriu-se espaço para o gás natural, para a energia nuclear e, sobretudo, para a geração térmica a biomassa, biogás e biometano.
A Associação Brasileira do Biogás e do Biometano já se movimenta para que essas fontes sejam expressamente reconhecidas na regulamentação, com o argumento mais relevante do debate: são as rotas capazes de combinar atributo ambiental com geração firme e despachável, característica que fontes intermitentes não oferecem. O argumento vale integralmente para a bioeletricidade sucroenergética e para o licor negro.
A palavra trocada no Senado converteu o parque de bioeletricidade de Mato Grosso do Sul em infraestrutura elegível. O que era ativo do agronegócio passou a ser ativo da economia digital.
O ativo que Mato Grosso do Sul já construiu
O estado alcançou 9.843 MW de capacidade instalada de geração, com 94,1% provenientes de fontes renováveis, segundo a Coordenadoria de Transição Energética da Semadesc a partir do sistema de informações da Aneel. Cerca de 87% dessa potência é de energia firme, participação rara no país. A geração eólica não aparece nas estatísticas estaduais e a fotovoltaica responde por menos de 13% do parque. A matriz sul-mato-grossense é, por estrutura, uma matriz de energia despachável.
No segmento que o Redata acaba de tornar elegível, a posição é ainda mais expressiva:
| Geração centralizada com biomassa | Capacidade instalada | Posição nacional |
| São Paulo | 6.995 MW | 1º |
| Mato Grosso do Sul | 2.439 MW | 2º |
| Minas Gerais | 2.186 MW | 3º |
Dados da Aneel compilados pela Semadesc.
A composição desse parque diz muito sobre a diversidade da base. São 24 usinas gerando bioeletricidade a partir do bagaço e da palha da cana, segundo levantamento do próprio Governo do Estado, somadas à unidade da Suzano em Ribas do Rio Pardo, com 384 MW movidos a licor negro, e à térmica da Inpasa em Sidrolândia, com 53,1 MW a partir de resíduos florestais. A Arauco implanta em Inocência um projeto de 400 MW, metade destinada a consumo próprio e metade à rede. Não se trata de potencial. Trata-se de parque instalado, operando e, em boa medida, exportando energia para fora do estado.
Ivinhema como prova de conceito
O primeiro grande data center de Mato Grosso do Sul entrou em operação em Ivinhema, na unidade da Adecoagro, que tem a Tether como acionista controladora. São 10 megawatts iniciais e cerca de 1.280 máquinas, alimentados pela energia gerada a partir da biomassa da cana da própria agroindústria. O Governo do Estado atuou na atração do investimento e na agilidade do licenciamento ambiental e regulatório, e a operação foi apresentada em junho, no encontro Raízes do Futuro.
A finalidade inicial é mineração de ativos digitais, e é justamente por isso que o caso interessa como demonstração técnica. O que Ivinhema prova é o modelo de colocalização: a carga digital instalada no mesmo sítio da geração, sem custo de transmissão, sem perda de linha e com preço de energia contratado no longo prazo. Esse arranjo é o mesmo que operadores de data center buscam mundo afora e que poucos territórios conseguem oferecer. A questão que se coloca a partir de agora não é se o modelo funciona, e sim até onde ele escala e quão alto se pode subir na cadeia de valor a partir dele.
A cláusula regional a ser lida
O Redata traz ainda um mecanismo de incentivo ao desenvolvimento regional pouco explorado no noticiário. Empresas que se instalarem no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste têm flexibilização de 20% nas contrapartidas: a obrigação de investimento em pesquisa e desenvolvimento cai de 2% para 1,6% do valor dos equipamentos adquiridos, e a parcela de capacidade destinada ao mercado brasileiro cai de 10% para 8%. Mais relevante que isso, o texto determina que ao menos 40% de todos os recursos de P&D gerados pelo regime sejam aplicados nessas mesmas regiões. Considerando o volume de aquisições previsto, o parecer do relator projeta centenas de milhões de reais aportados anualmente em universidades e instituições científicas e tecnológicas.
Mato Grosso do Sul tem estrutura para receber esse recurso. O Instituto Senai de Inovação em Biomassa, em Três Lagoas, foi a primeira instituição do estado credenciada pela Embrapii e opera exatamente na fronteira entre energia de biomassa e aplicação industrial. UFMS, UEMS e UFGD dispõem de grupos em energia, materiais e computação. A fundação de amparo à pesquisa do estado (Fundect) tem instrumentos e experiência em chamadas com contrapartida empresarial. As peças estão na mesa.
Uma agenda de curto prazo
Primeiro, participar da regulamentação. A lei delegou ao regulamento a definição do que se considera fonte de baixa emissão. Garantir o enquadramento explícito da bioeletricidade sucroenergética, do licor negro, do biogás e do biometano vale, para Mato Grosso do Sul, mais do que qualquer incentivo estadual que se possa criar. É uma disputa técnica, com prazo curto, e o estado tem argumento e dado para sustentá-la.
Segundo, um protocolo estadual de sítios. Mapear e reservar áreas contíguas às usinas, com acesso a subestação e a troncos de fibra óptica, pré-licenciamento ambiental e prazo de resposta definido. Colocalização entre geração e carga é a vantagem competitiva sul-mato-grossense, e ela precisa estar pronta para ser mostrada, não construída depois que o investidor pergunta.
Terceiro, transmissão e conectividade. O Leilão de Transmissão nº 4/2026 da Aneel prevê cerca de R$ 8,9 bilhões em investimentos, 1.866 quilômetros de novas linhas e 13.564 MVA adicionais de capacidade de transformação, com empreendimentos em Mato Grosso do Sul. Há gargalos conhecidos de escoamento no estado, e a carga digital colocalizada é parte da solução, porque consome onde se gera em vez de disputar linha.
Quarto, converter a contrapartida de P&D em capacidade instalada. Um instrumento do estado em coexecução, com aporte empresarial obrigatório, orientado a eficiência energética, sistemas de resfriamento, aproveitamento de biogás e software de infraestrutura, transforma obrigação legal de terceiros em competência local. O piso regional de 40% existe. Cabe ao estado disputar dentro dele antes que outros o façam.
Quinto, tratar a eficiência hídrica como argumento comercial. O regime exige índice igual ou inferior a 0,05 litro por quilowatt-hora nos sistemas de resfriamento, além de relatórios de sustentabilidade. Para um estado que se apresenta ao mundo pelo Pantanal e se assenta sobre o Aquífero Guarani, medir, fiscalizar e publicar com rigor não é custo regulatório. É selo de procedência, e vale preço.
A janela
O Redata igualou o tratamento tributário entre todos os estados. Ninguém mais compete por isenção federal, porque ela é a mesma em qualquer lugar do país. A competição se deslocou para aquilo que é de fato escasso: energia firme de baixa emissão em escala, colocalização entre geração e carga, previsibilidade regulatória e instituições prontas para receber pesquisa aplicada. Mato Grosso do Sul reúne os quatro elementos em estágios distintos de maturidade, e reúne o primeiro deles em posição que poucos estados brasileiros conseguem reivindicar.
O regime vigora por cinco anos e sua regulamentação será escrita nos próximos meses. É nesse intervalo que uma vantagem energética se converte em política industrial, ou permanece apenas como estatística de capacidade instalada.














