Até esta segunda-feira, às 18h, ainda é possível responder a uma pergunta que o Brasil nunca respondeu de forma completa: quantas empresas de base científica existem no país, em que estágio de maturidade estão e o que realmente as impede de crescer. É o prazo final do diagnóstico nacional lançado pelo Sebrae Startups, primeiro levantamento do tipo a mapear de forma sistemática o universo das deeptechs brasileiras, da origem da tecnologia ao relacionamento com universidades, passando por propriedade intelectual, acesso a capital e internacionalização.
O timing não é acidental. Ele revela algo mais profundo sobre o momento da inovação brasileira: sabemos que produzimos ciência em volume relevante, mas não sabemos, com precisão, o que fazemos com ela depois.
O que são deeptechs, afinal
O termo é usado com frequência crescente, mas raramente definido com rigor. Deeptechs não são apenas startups de tecnologia. São empresas construídas sobre avanço científico ou de engenharia substancial, com propriedade intelectual difícil de replicar, ciclos de pesquisa e desenvolvimento longos e necessidade de capital paciente. Diferem das startups digitais convencionais em um ponto essencial: o risco tecnológico chega antes do risco de mercado. Antes de descobrir se existe demanda, é preciso descobrir se a tecnologia funciona.
Essa característica muda tudo. Uma fintech pode testar um produto em semanas e ajustar a rota com rapidez. Uma empresa que desenvolve um novo material, um biofármaco ou um sistema de computação avançada pode levar anos apenas para validar o princípio técnico, antes de qualquer receita aparecer. É um investimento de outra natureza, com outro horizonte de retorno e outro tipo de risco.
Por que isso importa para o desenvolvimento de um país
Nações que concentram capacidade em deeptech não estão apenas criando empresas. Estão construindo a infraestrutura de conhecimento que sustenta décadas de competitividade industrial. Quando um país domina biotecnologia, novos materiais, computação quântica ou robótica cognitiva, ele deixa de depender exclusivamente de tecnologia importada para resolver seus próprios problemas, sejam eles agrícolas, energéticos ou de saúde pública.
O relatório europeu sobre deep tech de 2026 ilustra bem essa lógica em outra escala. O levantamento mapeou 20,3 bilhões de dólares em investimentos de capital de risco em tecnologia profunda na Europa, o equivalente a 32% de todo o investimento em startups do continente, o maior percentual já registrado. Computação quântica cresceu 115%, defesa e drones 125%, biologia computacional 88%. Não são números abstratos. Computação quântica resolve em minutos problemas de otimização que levariam anos em computadores convencionais. Biologia computacional reduz de décadas para meses o tempo de descoberta de novos medicamentos. Nenhum desses avanços permanecerá restrito a quem os desenvolveu primeiro. A pergunta que resta é quem estará preparado para absorvê-los, ou para desenvolver os seus próprios.
O paradoxo brasileiro
É aqui que o caso brasileiro se torna particularmente interessante para qualquer análise séria de política de inovação. Segundo a FAPESP, o Brasil concentra o maior número de startups deeptechs da América Latina, representando 72,3% das 1.316 empresas mapeadas na região. Em volume de empresas, o país lidera com folga.
O problema aparece quando se observa a capacidade de transformar essa base em capital. O Brasil aparece apenas em terceiro lugar em volume de investimentos privados, com 952 empresas do setor levantando 216 milhões de dólares no ano. Quase metade das empresas mapeadas, 47%, declarou não ter recebido nenhum tipo de investimento, e entre as que conseguiram, o número de beneficiadas com recursos públicos foi cinco vezes maior do que o das que atraíram capital privado.
A comparação regional expõe o mecanismo. Chile e Argentina também enfrentaram dificuldade generalizada de captação, mas se destacaram por um número restrito de startups que romperam essa barreira e obtiveram aportes extraordinários, a ponto de uma única empresa chilena ter levantado 466 milhões de dólares, equivalente a 75% de todo o investimento em deeptech do país. O Brasil produz quantidade. Ainda não produziu concentração de capital suficiente para criar seus próprios casos de escala global.
Esse é exatamente o tipo de lacuna que um mapeamento nacional serve para revelar. Sem dados sobre maturidade tecnológica, perfil de fundadores e gargalos de capital, políticas públicas e fundos de investimento continuam mirando um alvo que não conseguem ver com clareza.
De diagnóstico a negócio: o que já está em movimento
O interesse do Sebrae no tema não nasce de um levantamento isolado. Em março, a instituição lançou ao lado da Confederação Nacional da Indústria o programa Deep Tech Indústria, com uma lógica direta: aproximar deeptechs de empresas âncora que precisam resolver gargalos concretos de competitividade. O modelo prevê treze deep techs selecionadas por ciclo, totalizando quarenta negócios ao longo de dois anos, passando por três meses de mentoria intensa antes de proporem provas de conceito e projetos piloto às indústrias parceiras. É a tentativa de institucionalizar algo que hoje acontece de forma fragmentada: transformar conhecimento científico em contrato comercial.
A Belo Horizonte que sedia nesta semana o Fórum Brasileiro de Deep Techs oferece um exemplo do que essa institucionalização pode gerar em escala regional. O Global Tech Ecosystem Index de 2025, da Dealroom, posicionou a cidade como o quarto ecossistema de tecnologia que mais cresce no mundo e o primeiro da América Latina na categoria Rising Stars. Não é coincidência que o mesmo território combine ciência de excelência, produção de dados e uma cultura já consolidada de empreendedorismo tecnológico. Ecossistema forte é resultado de convergência sustentada entre universidade, capital e política pública, não de um único fator isolado.
O que está em jogo
O diagnóstico do Sebrae não vai, sozinho, resolver o descompasso entre volume de empresas e volume de capital. Mas é a peça que faltava para qualificar o debate. Antes de desenhar novos instrumentos de fomento, é preciso saber exatamente onde as deeptechs brasileiras travam: na validação técnica, no acesso a laboratórios especializados, na propriedade intelectual ou na conexão com investidores dispostos a esperar o tempo que a ciência exige.
Países que souberam converter potencial científico em vantagem competitiva duradoura fizeram isso de forma deliberada, com dados, capital paciente e coordenação entre Estado, universidade e mercado. O Brasil tem a primeira condição, a quantidade de ciência transformável em negócio. A pergunta que este mapeamento começa a responder é se o país finalmente vai construir as outras duas.














