Ex-presidente da Famasul, secretário durante sete anos e eleito governador em sua primeira disputa eleitoral, Eduardo Riedel chega à campanha de 2026 defendendo uma gestão marcada pelo equilíbrio fiscal e pela atração de investimentos
Discreto, técnico e conhecido por evitar grandes embates públicos, Eduardo Corrêa Riedel construiu uma trajetória pouco comum na política brasileira. Ao contrário da maioria dos governadores, nunca foi vereador, prefeito ou deputado. Sua primeira disputa eleitoral foi justamente pelo cargo máximo do Executivo estadual.
Antes de entrar na política, consolidou sua carreira no agronegócio. Depois, passou mais de sete anos nos bastidores do Governo de Mato Grosso do Sul, coordenando o planejamento estratégico da administração estadual, até ser escolhido sucessor de Reinaldo Azambuja.
Em 2022 venceu sua primeira eleição e, quatro anos depois, chega à disputa pela reeleição defendendo a continuidade de um modelo de gestão baseado em planejamento, responsabilidade fiscal e atração de investimentos.
Esta reportagem integra uma série especial sobre os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul.
Nesta edição, o leitor conhece quem é Eduardo Riedel, sua trajetória, patrimônio, promessas de campanha, realizações, críticas à gestão e os desafios para um eventual segundo mandato.
As origens: a formação de um gestor no campo
Eduardo Corrêa Riedel nasceu em 4 de janeiro de 1969, no Rio de Janeiro.
Embora tenha nascido na capital fluminense, foi em Mato Grosso do Sul que construiu praticamente toda sua história profissional e política. Ainda jovem, acompanhou a atuação da família no setor agropecuário e passou a administrar propriedades rurais.
Foi nesse ambiente que desenvolveu sua visão sobre desenvolvimento econômico, infraestrutura, logística e produção agrícola, temas que mais tarde se tornariam marcas de sua atuação pública.
Da Biologia à administração rural
Riedel é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Apesar da graduação na área científica, nunca exerceu a profissão de biólogo.
Após concluir o curso superior, voltou suas atividades para a gestão das propriedades da família, aprofundando conhecimentos em administração do agronegócio, planejamento estratégico e gestão empresarial.
Ao longo dos anos participou de cursos voltados à liderança e administração pública, consolidando um perfil técnico que mais tarde seria utilizado na administração estadual.
A ascensão no agronegócio
Nas décadas de 1990 e 2000, Eduardo Riedel tornou-se uma das principais lideranças do setor agropecuário sul-mato-grossense.
Sua atuação o levou a ocupar cargos em entidades representativas até chegar à presidência da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), função exercida entre 2012 e 2016.
Durante esse período defendeu pautas como:
- melhoria da infraestrutura logística;
- segurança jurídica para o produtor rural;
- expansão do crédito agrícola;
- modernização da produção.
A presidência da Famasul ampliou sua projeção estadual e chamou a atenção do então governador Reinaldo Azambuja.
O ingresso no governo
Em 2015, Eduardo Riedel foi convidado para integrar o primeiro escalão do Governo de Mato Grosso do Sul.
Sem experiência política eleitoral, assumiu a Secretaria de Governo e Gestão Estratégica.
Sua missão era coordenar o planejamento administrativo do Estado.
Durante sete anos tornou-se responsável por:
- elaboração de metas;
- monitoramento de indicadores;
- coordenação do planejamento estratégico;
- articulação entre Estado e municípios;
- acompanhamento das principais políticas públicas.
Nos bastidores, ganhou fama de gestor técnico, organizado e pouco afeito ao protagonismo político.
O sucessor de Reinaldo Azambuja
Enquanto Reinaldo Azambuja comandava politicamente o governo, Eduardo Riedel tornou-se o principal articulador administrativo da gestão.
Ao final do segundo mandato de Azambuja, seu nome foi escolhido pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), para representar a continuidade do grupo político que administrava Mato Grosso do Sul desde 2015.
Era uma aposta considerada ousada, pois Riedel nunca havia disputado uma eleição.
A primeira campanha
Em 2022, Eduardo Riedel enfrentou seu maior desafio até então. Precisava transformar um gestor conhecido nos bastidores em um candidato competitivo diante do eleitorado.
Sua campanha defendeu principalmente a continuidade do modelo administrativo implantado por Reinaldo Azambuja.
Depois de um primeiro turno equilibrado, venceu Capitão Contar no segundo turno com aproximadamente 56,9% dos votos válidos, tornando-se governador de Mato Grosso do Sul.
O patrimônio declarado
Ao registrar sua candidatura ao Governo de Mato Grosso do Sul em 2022, Eduardo Riedel declarou patrimônio aproximado de R$ 20,7 milhões, o maior entre os candidatos ao Executivo estadual naquele pleito.
Os bens declarados em 2022 incluíam:
- imóveis rurais;
- imóveis urbanos;
- participações societárias;
- aplicações financeiras;
- veículos;
- outros bens ligados principalmente ao agronegócio.
Na declaração apresentada à Justiça Eleitoral, nesta terça-feira (4), para as Eleições de 2026, o patrimônio informado por Riedel passou para R$ 16.147.849,34, uma redução de aproximadamente R$ 4,55 milhões (cerca de 22%) em relação ao montante declarado quatro anos antes.
Os bens declarados em 2026 incluem:
- bens relacionados ao exercício da atividade rural, avaliados em R$ 12.250.222,42;
- rebanho de 521 cabeças de bovinos, declarado em R$ 2.084.000,00;
- depósitos em conta corrente, poupança e investimentos bancários no valor de R$ 439.724,68;
- crédito a receber de R$ 624.344,36;
- veículos, entre eles uma Ford Ranger 2024 (R$ 321.890,00), um Ford Edge 2011 (R$ 96 mil), uma BMW 2026 (R$ 113.900,00), uma motocicleta Honda 2019 (R$ 15.800,00) e uma Yamaha 2017 (R$ 18 mil);
- quotas de capital em cooperativas e sociedades ligadas ao agronegócio, como Sicredi União MS/TO, Sicredi Centro Sul MS/BA, Coamo, Cooperativa Agrícola Mista de Adamantina, Cooperativa dos Plantadores de Cana de São Paulo, Cooperativa Agrícola Mista Serra de Maracaju, Cooperativa Agrícola Sul-Mato-Grossense e APE Participações.
Embora o patrimônio de Eduardo Riedel continue fortemente concentrado na atividade agropecuária, a declaração de 2026 apresenta mudanças relevantes em relação à de 2022. O valor total dos bens caiu de aproximadamente R$ 20,7 milhões para R$ 16,15 milhões, uma redução de cerca de 22%.
A documentação disponibilizada pela Justiça Eleitoral, contudo, não informa os motivos da redução patrimonial, que podem estar relacionados à venda de bens, reavaliações patrimoniais, alterações societárias ou outras movimentações financeiras realizadas entre os dois pleitos.
Um governo marcado pelo perfil técnico
Desde que assumiu o governo em janeiro de 2023, Riedel procurou manter o estilo que marcou sua atuação como secretário.
Entre as prioridades da gestão estão:
- planejamento estratégico;
- responsabilidade fiscal;
- atração de investimentos;
- diálogo institucional com prefeitos;
- continuidade administrativa.
A gestão concentrou investimentos em infraestrutura, expansão da indústria da celulose, logística, pavimentação, saneamento e regionalização da saúde.
Ao mesmo tempo, passou a enfrentar críticas relacionadas principalmente à demora em consultas, exames e cirurgias no Sistema Único de Saúde, além das reivindicações de servidores públicos e da avaliação de que sua comunicação com a população é excessivamente técnica.
A mudança partidária
Em 2025, Eduardo Riedel promoveu uma das maiores mudanças políticas de sua carreira.
Após mais de uma década no PSDB, legenda pela qual foi eleito governador, deixou o partido e filiou-se ao Progressistas (PP).
A decisão ocorreu em meio ao enfraquecimento nacional do PSDB e aproximou ainda mais o governador da senadora Tereza Cristina, principal liderança do Progressistas em Mato Grosso do Sul.
Mesmo com a troca de legenda, praticamente toda sua base política permaneceu ao seu lado.
Já no PP, Riedel reuniu uma das maiores alianças partidárias do estado. Sua candidatura à reeleição, oficializada neste sábado (1), passou a contar com apoio de partidos como PP, União Brasil, MDB, Republicanos, PSD, PSDB, Cidadania, Avante e outras legendas da base governista.
O objetivo foi ampliar sua presença política nos 79 municípios sul-mato-grossenses.
As promessas de 2022: o que foi entregue
Ao registrar seu plano de governo, Eduardo Riedel apresentou 31 compromissos, cumprindo completamente apenas cinco deles.
Levantamentos independentes mostram que parte dessas metas foi concluída e outra parcela permanece em andamento.
Entre as principais entregas apontadas estão:
- atração de investimentos privados;
- manutenção do equilíbrio fiscal;
- ampliação dos serviços públicos digitais;
- obras de infraestrutura, incluindo pavimentação, rodovias, pontes, saneamento e aeroportos.
O crescimento da indústria da celulose e a chegada de novos investimentos são apontados entre os principais resultados econômicos do governo.
O que ainda falta cumprir
Apesar dos avanços apontados pela administração estadual, algumas promessas permanecem parcialmente executadas ou pendentes.
Na saúde, o governo ampliou investimentos e fortaleceu hospitais regionais, mas ainda enfrenta dificuldades para reduzir filas por consultas, exames e cirurgias.
Na educação, houve expansão da rede de ensino integral, embora sem atingir toda a demanda prevista.
Na habitação, novas unidades foram entregues, mas o déficit habitacional permanece.
Na área social, programas como o Mais Social foram ampliados, porém persistem bolsões de vulnerabilidade em diferentes regiões do Estado.
As principais críticas
Mesmo mantendo índices positivos de aprovação, a gestão de Eduardo Riedel recebe críticas em diferentes áreas.
As principais cobranças concentram-se em:
- demora no atendimento da saúde pública;
- necessidade de ampliar especialistas no interior;
- comunicação considerada distante da população;
- dependência da economia estadual do agronegócio e da celulose;
- reivindicações de servidores por reajustes e concursos públicos.
Os pontos fortes da gestão
Entre os aspectos mais elogiados estão:
- responsabilidade fiscal;
- atração de investimentos;
- crescimento industrial;
- obras de infraestrutura;
- relação institucional com prefeitos;
- continuidade administrativa.
Quanto custou a campanha que o levou ao governo
Na eleição de 2022, Eduardo Riedel declarou ao Tribunal Superior Eleitoral R$ 9,6 milhões em despesas eleitorais.
Os recursos vieram do Fundo Eleitoral, do partido, de doações de pessoas físicas e também de recursos próprios.
O governador investiu R$ 620 mil do próprio patrimônio na campanha.
Entre as maiores despesas estiveram publicidade, produção para rádio e televisão, material gráfico, estrutura de campanha e impulsionamento digital.
Somente em anúncios nas redes sociais foram investidos aproximadamente R$ 990 mil.
Com cerca de 808 mil votos no segundo turno, o custo médio da campanha foi de aproximadamente R$ 11,88 por voto.
O que promete para um novo mandato
Ao disputar a reeleição em 2026, Eduardo Riedel afirma que pretende aprofundar políticas iniciadas no primeiro mandato.
Entre os compromissos anunciados estão:
- concluir a regionalização da saúde;
- reduzir filas do SUS;
- ampliar hospitais regionais;
- concluir obras de infraestrutura;
- fortalecer a Rota Bioceânica;
- atrair novas indústrias;
- ampliar a bioeconomia;
- fortalecer o ensino técnico;
- ampliar escolas em tempo integral;
- reforçar investimentos em segurança pública;
- expandir programas habitacionais e sociais.
O desafio do segundo mandato
Quatro anos após assumir o Governo de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel chega à eleição de 2026 em uma posição diferente daquela de sua primeira disputa. Se em 2022 o desafio era conquistar a confiança do eleitorado, agora o governador busca a reeleição tendo sua própria gestão como principal cartão de visitas.
As pesquisas divulgadas ao longo de 2026 colocam Riedel na liderança da disputa. Levantamento do Instituto Ranking Brasil Inteligência, realizado entre 18 e 23 de julho, apontou o governador com 46,4% das intenções de voto no principal cenário estimulado e 24% na pesquisa espontânea. Na avaliação da administração, o mesmo instituto registrou 72,4% de aprovação, enquanto 53% dos entrevistados classificaram o governo como ótimo ou bom, os melhores índices desde o início do mandato.
Nas urnas de 2026, Riedel terá pela frente cinco adversários, oficializados até o momento, na disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul: Fábio Trad (PT), João Henrique Catan (Novo), Renato Teixeira, o Economista Renato (DC), Jeferson Bezerra (Agir) e Lucien Rezende (PSOL).
Até o início da campanha, eram cinco os candidatos colocados na disputa, com Riedel buscando a reeleição diante de um cenário mais enxuto do que o de 2022, quando oito candidatos concorreram ao Executivo estadual.



















