Em entrevista à Total News, Leonardo Rodrigues relembra a chegada da paternidade, a descoberta do autismo do filho e a busca por uma rede de apoio para pais
Ser pai, para Leonardo Rodrigues, também significou olhar para a própria história e decidir fazer diferente. Aos 22 anos, quando descobriu que seria pai de Joaquim, ele ainda estava na universidade e carregava a lembrança de uma relação difícil com o próprio pai no início da vida. A chegada do filho trouxe, então, uma responsabilidade inesperada, mas também o desejo de construir uma experiência diferente daquela que havia vivido.
Aos poucos, Leonardo percebeu que romper com padrões familiares não significa simplesmente evitar os erros de quem veio antes. A paternidade também exige reconhecer os próprios limites, rever comportamentos e aprender no cotidiano. “Spoiler! Às vezes a gente acaba repetindo algumas coisas”, brinca o psicólogo.
Naquele momento, ele conciliava a formação em psicologia com a chegada de um filho e precisava se adaptar rapidamente a uma responsabilidade que ainda era nova. “Era como um menino imaturo indo encarar uma responsabilidade que exigia de mim tornar um homem muito rápido”, conta.
A experiência mudou conforme Joaquim crescia. Poucos anos depois, com a chegada de Cecília, Leonardo passou novamente por diferentes etapas da criação dos filhos, mas agora com a compreensão de que cada criança se desenvolve de uma maneira e exige dos pais disponibilidade para observar, aprender e se adaptar.
Quando a paternidade ganhou novos caminhos
A chegada de Joaquim já havia transformado a vida de Leonardo antes mesmo de qualquer diagnóstico. Foi ao acompanhar o desenvolvimento de Joaquim que Leonardo começou a notar algumas diferenças. Como já estudava o autismo durante a pós-graduação, passou a observar esses sinais com mais atenção e a buscar entender melhor o desenvolvimento do filho.
Depois das avaliações, veio o diagnóstico. Para Leonardo, aquele momento não significou passar a enxergar o filho a partir de uma condição, mas compreender melhor algumas das características que faziam parte da maneira própria de Joaquim se desenvolver e se relacionar com o mundo.
“Essa parte foi muito difícil, porque é a realidade acontecendo, e aí você se dá conta que, dali pra frente, você já não é mais um pai normal. É um pai atípico”, conta.
A experiência também mostrou a Leonardo que o conhecimento profissional não elimina aquilo que existe de mais humano na paternidade: as dúvidas, os medos e a vontade de acertar.
“Não é porque eu sou psicólogo que eu não tenho inseguranças”, afirma.
O principal receio, segundo ele, não está em quem Joaquim é, mas na maneira como o mundo poderá recebê-lo. Leonardo teme que a falta de informação e de preparo das pessoas produza situações de exclusão e faça com que o filho precise enfrentar sozinho aquilo que poderia ser amenizado com compreensão.
É justamente por isso que a presença se tornou ainda mais importante para ele. Estar perto significa conhecer Joaquim para além de qualquer diagnóstico, acompanhar seu desenvolvimento, compreender sua forma de se comunicar e ajudá-lo a construir autonomia sem deixar que o medo determine a maneira como a família enxerga seu futuro.
A convivência com Cecília também reforçou essa percepção. A irmã cresceu ao lado de Joaquim e aprendeu, no cotidiano, a compreender algumas de suas particularidades. Para Leonardo, a relação entre os dois mostra que o contato e a convivência podem ensinar sobre diferenças de uma forma muito mais natural.
“Se a Cecília, convivendo, age como se fosse só outra criança e vai se adaptando às dificuldades que o Joaquim tem, acho que outras crianças que também conviverem e forem orientadas vão ter amor e carinho tanto quanto”, afirma.
Para ele, o caminho passa menos por afastar as diferenças e mais por criar condições para que elas sejam compreendidas.
“Os autistas não são incapazes de ter relações, eles só são mais difíceis. É preciso acolhimento”, diz.
É esse acolhimento que Leonardo procura levar também para a própria paternidade. Ele sabe que não poderá controlar tudo o que os filhos encontrarão pela frente, mas pode estar presente para acompanhá-los, ouvi-los e ajudá-los a enfrentar o que surgir.
“Se você é pai, você só consegue ser pai estando presente. Essa é a única maneira.”
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