Projeto desenvolvido pela Faculdade de Computação em parceria com startup prevê uso de sensores, rastreabilidade e sistema de recompensas para ampliar descarte correto e transformar resíduo em matéria-prima para biodiesel
O descarte inadequado de óleo de cozinha pode provocar impactos ambientais que vão muito além da pia de casa. O resíduo pode atingir redes de esgoto e cursos d’água e, ao mesmo tempo, deixar de ser aproveitado como matéria-prima para a produção de biocombustíveis.
Em Campo Grande, uma tecnologia desenvolvida pela Faculdade de Computação (Facom) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em parceria com a startup Óleoponto busca enfrentar o problema com inteligência artificial, sensores, computação em nuvem e rastreabilidade.
A proposta é transformar a coleta residencial em uma operação mais previsível e eficiente. Para isso, o sistema utiliza dados dos pontos de descarte para estimar a quantidade de óleo que será acumulada e definir o melhor momento para a retirada do material.
O projeto foi desenvolvido pelo professor da Facom Dionísio Machado Leite Filho em parceria com o fundador e CEO da Óleoponto, Zadrik José Pereira Mendonça, e conquistou o terceiro lugar no Desafio Inovação Pantanal Tech 2026.
Inteligência artificial prevê quantidade de óleo
O principal componente de inteligência artificial da plataforma é o ÓleoBot, desenvolvido pela equipe da Facom.
O sistema tem duas funções centrais: prever quanto óleo será gerado em cada ponto de coleta nos 30 dias seguintes e calcular as rotas mais eficientes para os veículos responsáveis pelo recolhimento.
A ideia é substituir um modelo baseado apenas na coleta quando os recipientes estão próximos da capacidade por uma operação planejada a partir de dados.
“Não existe uma infraestrutura eficiente e escalável voltada para a coleta residencial. Os sistemas tradicionais dependem de postos de entrega voluntária sem tecnologia, sem rastreabilidade e sem incentivo ao cidadão”, afirma Dionísio.
Segundo o professor, a proposta é fazer com que a coleta deixe de ser apenas uma operação de retirada de resíduos e passe a funcionar como uma infraestrutura digital e logística integrada.
“O desafio que pretendemos resolver, portanto, não é apenas coletar óleo. É criar a infraestrutura digital e operacional que torne a coleta residencial viável, rastreável e escalável, transformando um passivo ambiental em matéria-prima para biodiesel e em dados para políticas públicas”, explica.
Como funciona o sistema
A tecnologia é formada por cinco componentes que conectam o momento do descarte ao destino final do óleo.
O primeiro é a estrutura física. Os totens inteligentes de coleta são instalados em locais de grande circulação, como supermercados. O usuário deposita o óleo usado no equipamento, que realiza a pesagem e registra a operação.
Os totens contam com sensores e uma tela LCD que também funciona como canal de comunicação com o cidadão.
A segunda camada é a plataforma digital em nuvem. Ela reúne e processa informações sobre os descartes e permite acompanhar o material ao longo da operação.
Após realizar o descarte, o usuário recebe uma mensagem pelo WhatsApp com acesso ao seu painel pessoal. Não é necessário instalar um aplicativo.
Nesse espaço, é possível consultar o histórico de descartes, os pontos acumulados, indicadores ambientais e locais parceiros onde as recompensas podem ser utilizadas.
A terceira camada é o próprio ÓleoBot, responsável pelas previsões e pela otimização das rotas.
A quarta envolve o sistema de recompensas. O cidadão acumula pontos de acordo com a quantidade de óleo entregue e pode trocá-los por benefícios oferecidos por empresas parceiras. Na operação atual, uma das possibilidades é trocar os pontos por óleo de soja novo.
A quinta camada é formada pela inteligência de dados. Cada descarte gera informações sobre origem, volume, data, usuário e destino do material.
Óleo ganha rastreabilidade até o destino final
A plataforma também utiliza um mecanismo chamado Passaporte Digital do Óleo, que acompanha o resíduo desde o momento do descarte até seu destino.
Segundo a equipe do projeto, a ferramenta foi estruturada para atender requisitos relacionados à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e à Política Nacional de Biocombustíveis, o RenovaBio.
A operação física e a comercialização do óleo são realizadas por parceiros licenciados. Em Campo Grande, a coleta inicial é feita pela Katu Oil, empresa que, segundo os responsáveis pelo projeto, possui as licenças ambientais necessárias.
A Óleoponto, por sua vez, atua como empresa de tecnologia e rastreabilidade.
“Enquanto os ecopontos tradicionais não registram quem descartou, quanto descartou nem para onde o material foi, a plataforma Óleoponto gera um registro auditável de cada transação”, afirma Zadrik.
Um litro de óleo pode contaminar milhares de litros de água
O problema que a tecnologia tenta enfrentar tem dimensão ambiental relevante.
Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), um litro de óleo descartado de maneira incorreta pode contaminar até 25 mil litros de água.
Além da contaminação, o despejo do material pode contribuir para problemas na rede de esgoto e dificultar o tratamento da água.
O reaproveitamento, por outro lado, permite que o óleo usado seja encaminhado para processos industriais e utilizado como matéria-prima para a produção de biodiesel.
Em Mato Grosso do Sul, a preocupação ganha uma dimensão regional. Campo Grande está inserida em uma área cujas bacias hidrográficas têm relação com rios que abastecem o Pantanal.
Por isso, embora o descarte ocorra principalmente no ambiente urbano, seus efeitos podem ultrapassar os limites da cidade.
Campo Grande gera cerca de 250 mil litros por mês
De acordo com estimativa apresentada pela equipe do projeto, Campo Grande gera aproximadamente 250 mil litros de óleo de cozinha por mês.
A operação já realizada na capital permite dimensionar parte do potencial da tecnologia. Uma única máquina instalada na cidade coletou mais de 700 litros de óleo residencial.
Segundo os responsáveis pelo projeto, esse volume representa o equivalente à preservação de mais de 18 milhões de litros de água e à redução de mais de 1,3 tonelada de emissões de dióxido de carbono (CO₂).
A expectativa é ampliar os resultados com a expansão da rede de equipamentos.
Uma proposta em análise pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) prevê a instalação de 15 totens inteligentes em Campo Grande. A ampliação permitiria aumentar o volume de óleo coletado e encaminhado para a cadeia de produção de biodiesel.
Recompensas tentam transformar descarte em hábito
Além da tecnologia, o projeto aposta em um mecanismo de incentivo para aumentar a participação dos moradores.
A cada descarte, o usuário acumula pontos proporcionais ao volume entregue. Os créditos podem ser convertidos em benefícios disponibilizados por empresas parceiras.
A operação também busca eliminar uma barreira comum em programas de coleta: a necessidade de baixar aplicativos específicos.
O contato é feito pelo WhatsApp. Depois de cada descarte, o cidadão recebe uma mensagem com informações sobre a operação, os pontos acumulados e os indicadores ambientais relacionados à sua participação.
Segundo Dionísio, o modelo busca criar um ciclo contínuo de participação.
“Sem adesão residencial, não há volume. Sem volume, não há viabilidade logística. Sem viabilidade logística, não há matéria-prima para biodiesel”, afirma.
Na operação inicial em Campo Grande, aproximadamente 80% dos cupons emitidos foram convertidos em recompensas, segundo os responsáveis pela iniciativa.
Para Zadrik, o sistema transforma o descarte em uma atividade com retorno direto ao cidadão.
Dados podem ajudar gestão ambiental
A plataforma também foi concebida para produzir indicadores ambientais em tempo real.
Entre os dados acompanhados estão o volume de óleo coletado, a quantidade estimada de água preservada e as emissões de CO₂ evitadas.
Essas informações podem ser utilizadas em relatórios ambientais, programas de responsabilidade socioambiental e sistemas de gestão pública.
A proposta aproxima o projeto do conceito de cidade inteligente, ao utilizar dados gerados por uma atividade cotidiana para apoiar decisões de logística, saneamento e gestão ambiental.
Para os pesquisadores, a iniciativa também demonstra como a pesquisa acadêmica pode ser aplicada a problemas urbanos concretos.
A Facom participa do desenvolvimento e da validação dos algoritmos de inteligência artificial, além da arquitetura de dados utilizada pela plataforma.
Tecnologia acompanha novas exigências para biocombustíveis
A expansão do projeto também ocorre em um momento de mudanças regulatórias no setor de biocombustíveis.
Segundo a UFMS, uma portaria publicada em maio deste ano pelos ministérios de Minas e Energia e do Meio Ambiente estabelece a utilização mínima de óleo residual na produção de biocombustíveis a partir de 2028.
Para os responsáveis pelo projeto, a exigência aumenta a importância de uma cadeia capaz de garantir não apenas a coleta do resíduo, mas também sua origem, quantidade e destino.
É nesse ponto que a rastreabilidade se torna parte central da proposta. Ao registrar cada etapa, a tecnologia busca conectar o consumidor que descarta o óleo, o ponto de coleta, a empresa responsável pelo recolhimento e o destino industrial do material.
Projeto mira expansão para outras cidades
O terceiro lugar no Desafio Inovação Pantanal Tech 2026 marcou uma nova etapa para a equipe.
Entre os próximos passos estão o aprimoramento do ÓleoBot, a ampliação dos testes em Campo Grande e a busca por recursos para instalar novos pontos de coleta.
A proposta também prevê a possibilidade de expansão da plataforma para outros municípios brasileiros.
Além do mercado nacional, segundo os responsáveis pela iniciativa, existem negociações para o licenciamento da tecnologia em Portugal.
A intenção é transformar a solução criada em Mato Grosso do Sul em uma infraestrutura capaz de integrar coleta, inteligência artificial, logística reversa, rastreabilidade e participação do consumidor.
Na prática, a tecnologia tenta resolver um problema que começa dentro de casa: dar um destino adequado a um resíduo que, quando descartado no lugar errado, pode contaminar a água, mas que, quando recuperado, pode retornar à cadeia produtiva como matéria-prima para novos combustíveis.
Com informações e imagem da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul



















