Estruturas desse tipo usam perfis falsos e contas automatizadas para inflar interações e ampliar artificialmente o alcance de conteúdos
Os chamados “bots” são sistemas automatizados usados para gerar curtidas, comentários e compartilhamentos, simulando a atividade de pessoas reais para impulsionar o engajamento nas redes sociais. Quando reunidos em estruturas organizadas, podem formar as chamadas “fazendas de bots” ou “fazendas de cliques”.
Uma fazenda de bots pode administrar milhares de perfis falsos para influenciar debates nas plataformas, principalmente em períodos eleitorais. A estratégia busca criar a impressão de que determinado conteúdo, opinião ou candidato tem uma adesão maior do que a existente entre usuários reais.
O pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, Reynaldo Aragon, explicou que as fazendas de bots são estruturas de contas organizadas para simular uma mobilização social espontânea.
“Muitas dessas contas repetem uma expressão e impulsionam uma hashtag, compartilham o mesmo conteúdo e interage entre si em pouco espaço de tempo. Com isso, produzem artificialmente volume e velocidade nas redes sociais”, disse à Agência Brasil.
O doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB) Alexandre Arns Gonzales, membro do Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom), explicou que as fazendas de bots são usadas porque os ambientes digitais dão visibilidade aos conteúdos que têm mais engajamento.
“Essas fazendas de cliques são utilizadas para tentar alimentar artificialmente essas métricas de visualização e engajamento, servindo de instrumento para fazer ataques ou defesas coordenadas de determinada conta, tema, assunto ou candidato”, explicou.
Engajamento artificial
O uso de robôs não significa que todo o alcance de uma publicação venha de contas automatizadas. Segundo os especialistas, a estratégia pode servir como um impulso inicial para fazer determinado conteúdo chegar a pessoas reais.
Reynaldo Aragon citou como exemplo de impulsionamento por fazenda de bots a disseminação de uma notícia falsa que repercutiu na eleição de 2018 e alcançou 30 milhões de usuários, prejudicando um dos candidatos presidenciais daquele pleito.
“A operação tenta dar impulso inicial para que aquele conteúdo alcance pessoas reais e atravesse os limites de uma rede artificial. Muitos desses bots conseguem, inclusive, dialogar com pessoas reais”, acrescentou Reynaldo Aragon.
Um caso citado por Alexandre Arns Gonzales envolveu uma empresa na Tunísia que tentou influenciar diversas eleições em dez países africanos. Em junho de 2020, o Facebook derrubou mais de 900 páginas ou contas ligadas à companhia.
Segundo o Laboratório DFR, que estuda desinformação e segurança digital, aproximadamente 3,8 milhões de contas do Facebook seguiram uma ou mais dessas páginas. A operação também administrava quase 132 mil grupos e tinha mais de 171 mil seguidores no Instagram.
Custo e estrutura
A manutenção de uma fazenda de cliques exige grande quantidade de equipamentos e celulares, além de recursos financeiros e humanos para administrar as contas.
Segundo Gonzales, esse tipo de prática é registrado nos relatórios de segurança das grandes empresas de tecnologia.
“A Meta e o Google caracterizam essas práticas como redes de comportamento inautêntico coordenado”, disse Alexandre Gonzales.
O especialista avalia que os planos de conformidade que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a exigir das big techs podem ajudar a identificar e denunciar indícios de fazendas de bots.
“Se essas fazendas de bots atacarem a lisura do processo eleitoral, os sistemas de identificação de comportamentos inautênticos da Meta, do Google e do TikTok podem identificar e apresentar isso dentro do âmbito do plano de conformidade ou no âmbito do conselho que o TSE criou”, comentou Gonzales.
Reynaldo Aragon, especialista em guerra psicológica e plataformas digitais, avalia que o TSE não estaria tão preparado para enfrentar o problema. Ele acrescenta que é provável que existam diversas fazendas de cliques no Brasil.
“Para combater esse tipo de manipulação, seriam necessárias investigações policiais ou de atores da sociedade civil. Não podemos contar com as plataformas porque isso significa regulação da informação circulante e eles não querem essa regulação”, comentou.
*Com informações Agência Brasil




















