Mato Grosso do Sul entre os dez estados mais competitivos do Brasil, e o que a edição 2026 do ranking do CLP revela sobre a arquitetura institucional construída na última década
Há uma diferença entre subir no ranking e melhorar os fundamentos. Um estado pode ganhar posições por movimentos alheios, por ajustes de metodologia ou pela oscilação de um único indicador. E pode melhorar de forma consistente naquilo que decide a competitividade de uma década sem que isso apareça de imediato na coluna da classificação geral. A leitura útil de um ranking nunca está na posição isolada. Está na composição.
A edição 2026 do Ranking de Competitividade dos Estados, produzida pelo Centro de Liderança Pública com desenvolvimento técnico da Tendências Consultoria, coloca Mato Grosso do Sul na 10ª posição entre as 27 unidades da federação, com nota 55,1. É a décima segunda edição consecutiva em que o estado figura entre os dez primeiros, uma sequência ininterrupta desde 2015 que apenas um punhado de unidades da federação sustenta. Mas o número que merece atenção não é esse.
Em Capital Humano, Mato Grosso do Sul é o segundo estado mais competitivo do Brasil, com nota 89,7, atrás apenas de Santa Catarina. À frente de Mato Grosso, Paraná, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Não é um resultado de ocasião: é a quarta edição seguida em que o estado ocupa o pódio nacional nesse pilar, depois de sair da 17ª posição em 2019. Poucos movimentos de política pública estadual no Brasil recente têm essa amplitude.
O que os dados mostram, pilar a pilar
A tabela abaixo compara a posição de Mato Grosso do Sul em cada um dos dez pilares do ranking entre as edições de 2025 e 2026.
| Pilar | 2025 | 2026 | Variação |
| Capital Humano | 2 | 2 | estável no pódio |
| Eficiência da Máquina Pública | 9 | 5 | +4 |
| Sustentabilidade Social | 8 | 8 | Estável |
| Sustentabilidade Ambiental | 9 | 9 | Estável |
| Solidez Fiscal | 16 | 10 | +6 (maior avanço do país) |
| Inovação | 14 | 12 | +2 |
| Infraestrutura | 10 | 14 | -4 |
| Segurança Pública | 19 | 16 | +3 |
| Educação | 13 | 18 | -5 |
| Potencial de Mercado | 23 | 25 | -2 |
Fonte: Ranking de Competitividade dos Estados, edição 2026, CLP e Tendências Consultoria. Elaboração a partir da base de dados oficial do estudo.
Seis dos dez pilares avançaram ou permaneceram estáveis. E, decisivamente, os avanços se concentram exatamente onde a competitividade é construída por dentro: gestão pública, capacidade fiscal, capital humano e inovação. As perdas se concentram em pilares de entrega e de escala, que exigem ciclos mais longos de investimento e, em parte, dependem de fatores demográficos que nenhum governo estadual altera por decreto.
A máquina pública mais eficiente do Centro-Oeste, depois de Goiás
Mato Grosso do Sul saltou da 9ª para a 5ª posição em Eficiência da Máquina Pública, com nota 73,6. É o melhor desempenho do estado nesse pilar em toda a série histórica. O pilar ganhou peso na metodologia, passando de 7,6% em 2017 para 10,5% em 2026, o que amplifica o efeito do resultado sobre a nota geral.
Dentro do pilar, um dado se destaca de forma isolada. Mato Grosso do Sul é o primeiro colocado nacional em Equilíbrio de Gênero no Emprego Público Estadual, com nota máxima e sem empate. O segundo colocado, Acre, marca 96,4. Trata-se de um indicador que mede composição real do serviço público estadual, não intenção declarada. O estado também aparece em 5º lugar em Prêmio Salarial Público-Privado, medida da distância entre remuneração pública e privada, e em 5º no Índice de Transparência, ainda que este último use dados de referência de 2020 e demande atualização.
Estados não se tornam competitivos por acumular recursos. Tornam-se competitivos por construir instituições capazes de convertê-los em resultado. A arquitetura de governança é o diferencial estrutural, não o volume.
O maior avanço fiscal do país
Em Solidez Fiscal, Mato Grosso do Sul registrou o maior avanço entre todas as unidades da federação nesta edição, ganhando seis posições e passando da 16ª para a 10ª colocação. O relatório técnico atribui o movimento a quatro indicadores: Resultado Primário, com ganho de nove posições, Poupança Corrente, com seis, Índice de Liquidez, com duas, e Sucesso do Planejamento Orçamentário, com uma.
O estado ocupa hoje a 8ª posição nacional em Taxa de Investimentos e a 10ª em Dependência Fiscal. Em um federalismo em que a maioria dos estados brasileiros opera com margem fiscal comprimida e capacidade de investimento própria quase nula, ter simultaneamente equilíbrio de contas e espaço para investir é uma posição rara. É também a base material de tudo o que vem a seguir.
Inovação: a estrutura existe e começa a aparecer
O pilar de Inovação avançou duas posições, da 14ª para a 12ª, com nota 56,6. O resultado ainda está aquém do potencial do estado, mas a composição interna do pilar é reveladora.
Mato Grosso do Sul é o 6º colocado nacional em Estrutura de Apoio à Inovação, indicador que mede o número de aceleradoras, incubadoras, parques tecnológicos e parques científicos associados à Anprotec por milhão de habitantes. É o retorno visível de uma década de construção institucional: ParkTec em Campo Grande, o Parque Tecnológico de Inovação em Ponta Porã, a rede de ambientes de inovação estruturados nos municípios do interior. O estado também aparece em 6º lugar em Empresas de Alto Crescimento e em 8º em Bolsas de Mestrado e Doutorado, indicador que capta a articulação entre CNPq, Capes e a fundação estadual de amparo à pesquisa.
Em outras palavras, a infraestrutura de inovação de Mato Grosso do Sul já está entre as melhores do país em densidade relativa. O que ainda não acompanhou foi a conversão dessa estrutura em produção tecnológica proprietária.
Onde precisamos avançar, e onde vamos avançar
Um artigo honesto sobre bons resultados precisa nomear as frentes abertas. Elas são três, e todas têm solução conhecida.
Educação. É a prioridade inequívoca. O estado recuou cinco posições, da 13ª para a 18ª, o maior recuo nacional no pilar nesta edição. A queda foi puxada por Taxa de Frequência Líquida do Ensino Fundamental, com perda de nove posições, Taxa de Frequência Líquida do Ensino Médio, com seis, e Taxa de Atendimento do Ensino Infantil, com seis. São indicadores de acesso e permanência, não de qualidade da aprendizagem. Isso importa, porque acesso e permanência respondem mais rápido a política pública desenhada do que aprendizagem. Registre-se uma ressalva metodológica relevante: o indicador Avaliação da Educação, no qual o estado marca nota máxima, é compartilhado por 25 das 27 unidades da federação, e portanto não diferencia ninguém. A posição real de Mato Grosso do Sul em educação é a que os indicadores de frequência mostram.
Infraestrutura. O recuo de quatro posições convive com resultados de primeira linha. O estado é o 2º do Brasil em Qualidade das Rodovias, atrás apenas de São Paulo, o 3º em Custo de Combustíveis e o 5º tanto em Backhaul de Fibra Óptica quanto em Qualidade do Serviço de Telecomunicações. A conectividade digital de Mato Grosso do Sul, frequentemente subestimada no debate público, está entre as cinco melhores do país. As perdas se concentram em energia elétrica, com 23ª posição em custo e 18ª em qualidade, em custo de saneamento e em disponibilidade de voos diretos. São gargalos de infraestrutura pesada, com ciclos de maturação longos e agenda já em curso.
Potencial de Mercado. A 25ª posição precisa ser lida com cuidado, porque parte dela é estrutural e não corrigível. O pilar penaliza mercados pequenos, e Mato Grosso do Sul concentra 1,4% da população brasileira. Dentro do pilar, porém, o estado é o 4º do país em Volume de Crédito e o 6º em Taxa de Crescimento. O que pesa negativamente é o comprometimento de renda das famílias, na 26ª posição, e a qualidade do crédito à pessoa física, na 24ª. São questões de renda disponível e de custo de vida, não de dinamismo econômico.
A proposta: converter solidez fiscal em densidade tecnológica
Há um número na base de dados do ranking que sintetiza a oportunidade estratégica de Mato Grosso do Sul para os próximos anos. O estado é o 8º do Brasil em Taxa de Investimentos, sinal de capacidade fiscal real. E é o 11º em Investimentos Públicos em Pesquisa e Desenvolvimento, com nota normalizada de apenas 18,0 em uma escala de 0 a 100, medida como participação do dispêndio estadual em P&D no PIB estadual, segundo dados do MCTI.
A distância entre esses dois números é a agenda. Mato Grosso do Sul tem espaço fiscal, tem a segunda melhor base de capital humano do país, tem a sexta melhor estrutura de apoio à inovação por habitante e tem uma máquina pública que acabou de entrar no top 5 nacional em eficiência. O que falta é dirigir uma fração maior da capacidade de investimento conquistada para a produção de conhecimento aplicado.
A tradução institucional disso é conhecida e não exige invenção. Significa assegurar a execução integral dos recursos vinculados à fundação estadual de amparo à pesquisa, ampliar os instrumentos de subvenção econômica em parceria com a Finep e o FNDCT, estruturar programas plurianuais de encomenda tecnológica em torno das vocações produtivas do estado, e usar o poder de compra público como instrumento de política de inovação. São mecanismos que já existem no ordenamento jurídico brasileiro e que dependem de decisão de governança, não de nova legislação.
Mato Grosso do Sul construiu, em uma década, a capacidade fiscal e o capital humano. O próximo ciclo é o da conversão: transformar arrecadação equilibrada e gente qualificada em tecnologia proprietária, patente, empresa e produtividade.
O que o ranking realmente diz
Mato Grosso do Sul aparece na edição 2026 como um estado que melhorou onde é mais difícil melhorar e recuou onde os ciclos são mais longos. Está entre os dez primeiros do país há doze edições seguidas, é o segundo melhor do Brasil em capital humano, o quinto em eficiência da máquina pública, teve o maior avanço fiscal nacional do ano e mantém uma das estruturas de apoio à inovação mais densas da federação em relação à sua população.
Nada disso é acidente. É o resultado acumulado de escolhas institucionais feitas ao longo de mais de uma década, muitas delas anteriores ao governo atual e sustentadas por gestões sucessivas. Essa continuidade é, ela própria, o ativo mais valioso revelado pelos dados, porque é a única coisa que rankings de competitividade não conseguem comprar e que os estados que oscilam de ciclo em ciclo nunca conseguem construir.
O teste dos próximos anos não será manter a posição. Será a educação básica, onde o recuo desta edição precisa se converter em prioridade orçamentária e de gestão, e será a densidade tecnológica, onde a estrutura já existe e aguarda o volume de investimento correspondente. São dois problemas com solução. E um estado que tem simultaneamente equilíbrio fiscal, capital humano de ponta e máquina pública eficiente tem exatamente o que é preciso para resolvê-los.
Todos os dados citados foram extraídos da base oficial e do relatório técnico do Ranking de Competitividade dos Estados, edição 2026, CLP e Tendências Consultoria. Os anos de referência variam por indicador, conforme metodologia do estudo.














