Carregando…
márcio pereira - atualizado certo

COMPARTILHE

O maior cemitério de bons negócios inovadores no Brasil não fica no mercado. Fica na fase de enquadramento, antes mesmo que alguém leia o mérito da proposta

Em uma década do outro lado do balcão, avaliando, desenhando e financiando projetos de inovação, aprendi a reconhecer um padrão que quase ninguém gosta de ouvir. A maioria das boas ideias que morrem no Brasil não morre por falta de mérito técnico, por ausência de mercado ou por concorrência estrangeira. Morre por desorganização na porta de entrada do financiamento.

Vi grandes negócios inovadores nascerem e serem esquecidos no tempo. Vi ideias que provocavam o clássico “por que não pensei nisso antes?” receberem fomento, prosperar e escalar. Testemunhei empresas que pivotaram, renasceram, aprenderam com o tempo e, ao final, descobriram que o seu negócio era outro. E vi, com uma frequência dolorosa, empreendedores brilhantes serem eliminados de editais na etapa mais burocrática e mais evitável de todas.

O cemitério fica antes da banca

Todo edital tem duas mortes possíveis. A primeira é o mérito, quando avaliadores concluem que a solução não convence. Essa morte é legítima, útil e formativa. A segunda é o enquadramento, quando a proposta sequer chega à banca porque a empresa não tinha o CNAE compatível, não estava adimplente, não comprovou o porte declarado, não apresentou o plano de aplicação na forma exigida, não observou o teto de itens financiáveis ou perdeu o prazo por um documento que levaria vinte minutos para obter.

Essa segunda morte é uma tragédia silenciosa. Ela não gera aprendizado, não gera feedback e não gera história. Ela apenas gera ressentimento contra o sistema de fomento e a sensação, quase sempre injusta, de que “o edital era direcionado”.

O enquadramento escancara o despreparo do proponente logo na largada. Quem não conhece as regras do jogo não está preparado para jogá-lo.

A verdade incômoda é que o Estado brasileiro construiu, nos últimos vinte anos, uma arquitetura jurídica de inovação razoavelmente sofisticada. A Lei de Inovação, o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Marco Legal das Startups e a nova Lei de Licitações abriram instrumentos que boa parte do ecossistema ainda não sabe operar. Não faltam portas. Falta gente que saiba ler a placa antes de bater.

Fomento não é dinheiro. É gramática.

O erro fundador de quase todo plano de captação é tratar recurso público como um bloco único, indistinto, ao qual se pede “apoio”. Fomento não é dinheiro solto. É gramática, com regras de concordância entre o estágio do negócio, o instrumento financeiro e a base legal que o sustenta.

Subvenção econômica é recurso não reembolsável para partilhar risco tecnológico em fases em que nenhum banco entraria. Crédito reembolsável pressupõe capacidade de pagamento e, portanto, receita. Equity pressupõe tese de crescimento acelerado e disposição real de dividir o controle. A encomenda tecnológica, prevista na Lei de Inovação, permite ao poder público contratar o desenvolvimento de uma solução que ainda não existe. O Contrato Público para Solução Inovadora, criado pelo Marco Legal das Startups, permite testar antes de comprar. A nova Lei de Licitações ampliou o espaço para compras públicas de inovação. São instrumentos diferentes, com riscos diferentes, para momentos diferentes.

Pedir o instrumento errado é o equivalente financeiro de pedir um antibiótico para uma fratura exposta. O remédio existe, é bom, e não serve para o que você tem.

O TRL é um ato de honestidade, não uma sigla

Para escolher a porta certa, é preciso saber em que nível de maturidade se está e, em startupês, qual o seu TRL. A escala vai da ideia à operação plena em ambiente real. O problema não é a escala. É a autoindulgência.

Empreendedor apaixonado declara TRL 6 quando está em TRL 3. Declara faturamento projetado como se fosse histórico. Chama slide de protótipo. E, ao fazê-lo, se candidata a instrumentos que exigem provas que ele ainda não tem, sendo eliminado por informação que ele mesmo forneceu. Honestidade sobre o estágio não é humildade, é estratégia.

Estágio (TRL)Instrumento adequadoExemplosErro mais comum
TRL 1 a 3, ideia e prova de conceitoSubvenção econômica e bolsasCentelha, editais de FAPs, bolsas RHAEPedir crédito para financiar uma hipótese
TRL 4 a 6, protótipo e validaçãoSubvenção com contrapartida, capital sementeTecnova, PIPE, editais setoriais do FNDCTPrometer faturamento que ainda não existe
TRL 7 a 9, produto no mercadoCrédito, equity, compra públicaFinep, BNDES, agências de fomento, CPSIInsistir em subvenção quando já cabe crédito

Vale um alerta estrutural. Os recursos para os TRLs iniciais são cada vez mais escassos e concentram-se em programas públicos. O Programa Centelha, da Finep em parceria com o CONFAP e as fundações estaduais de amparo à pesquisa, foi desenhado exatamente para essa lacuna, e tive a oportunidade de participar de sua construção inicial em 2017, como integrante do CONFAP e presidente de FAP. O Tecnova, por sua vez, exige empresa constituída, faturamento e desenvolvimento mais avançado do produto ou serviço, e também tive a honra de contribuir para o seu aprimoramento. São programas irmãos, para filhos de idades diferentes.

Além do balcão público

Reduzir captação a edital público é a segunda maior limitação estratégica que observo. Há hoje um ecossistema bem mais amplo e, também por isso, bem mais difícil de navegar. Fundos filantrópicos, fundos patrimoniais, fundos setoriais, capital de risco corporativo, fundos climáticos e o financiamento crescente de negócios baseados na natureza compõem um mosaico de recursos que raramente chega a Mato Grosso do Sul, não por falta de ativos, mas por falta de projetos formatados na linguagem que esse capital fala.

Temos Pantanal, Cerrado, o maior polo de celulose do planeta em formação, minerais críticos, a Rota Bioceânica e uma base universitária que produz ciência de qualidade. Temos, em outras palavras, exatamente os ativos que o capital global de bioeconomia e de transição climática procura. O que nos falta é capacidade instalada de tradução, alguém capaz de converter ativo territorial em projeto elegível.

Não há escassez de recursos para inovação no Brasil. Há escassez de projetos enquadráveis. São problemas opostos, e nós insistimos em tratar o segundo como se fosse o primeiro.

O que fazer, concretamente

A solução não é individual, é institucional. Enquanto a captação de recursos for tratada como talento pessoal de alguns empreendedores mais organizados, continuaremos perdendo dinheiro que já está autorizado, orçado e disponível.

Primeiro, universidades e institutos precisam profissionalizar seus escritórios de projetos e núcleos de inovação, com equipes que dominem enquadramento, prestação de contas e arquitetura jurídica, e não apenas a redação científica. Governança universitária é o diferencial estrutural entre um ecossistema que capta e um que apenas se queixa.

Segundo, o ecossistema estadual, incluindo Fundação de Amparo à Pesquisa, Sistema S, parques tecnológicos e a agência de fomento, precisa de uma frente permanente de preparação para o enquadramento, com formação continuada, mentoria de edital e simulação de habilitação antes da submissão. Custa pouco e evita perdas milionárias.

Terceiro, o empreendedor precisa aceitar a parte que lhe cabe. Ler o edital inteiro, e não o resumo do post. Conhecer os marcos legais. Manter a empresa regular. Reconhecer o próprio estágio. Escolher uma porta e se preparar para ela, em vez de bater em todas ao mesmo tempo.

Nenhuma boa ideia sobrevive à desorganização

Captação de recursos não é sorte, não é padrinho e não é sorteio. É preparo, leitura, método e alinhamento entre o que você é e o que o instrumento exige. O sistema brasileiro de fomento tem defeitos evidentes, e eu os conheço melhor do que a maioria dos seus críticos. Mas ele funciona muito melhor para quem chega preparado do que a lenda sugere.

Se você quiser entrar nesse jogo e captar bons recursos para iniciar ou alavancar seu negócio, comece pelo que é gratuito e depende só de você: leitura atenta dos editais, domínio da arquitetura jurídica e honestidade brutal sobre o estágio em que está.

Sua ideia provavelmente não é ruim. Sua estratégia de captação, quase sempre, é.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

Total News MS

AD BLOCKER DETECTED

Indicamos desabilitar qualquer tipo de AdBlocker

Please disable it to continue reading Total News MS.