Tenho pensado muito sobre inteligência artificial. Não apenas sobre o que ela já é capaz de fazer, mas principalmente sobre aquilo que, por mais sofisticada que se torne, talvez nunca consiga substituir. Quanto mais a tecnologia avança, mais uma pergunta me inquieta, afinal, o que continua essencialmente humano na era da IA?
É justamente essa pergunta que levarei comigo para Santa Rita do Sapucaí neste sábado, 5 de setembro, quando realizaremos algo que tem um significado muito especial para mim, pela primeira vez, uma edição do Café com Negócios acontecerá dentro do HackTown. E não poderia existir tema mais conectado com aquilo que tenho observado, estudado e vivido nos últimos anos: “O que continua humano na era da IA?”
Escrevo este artigo antes desse encontro. Portanto, não tenho respostas prontas para compartilhar. Tenho perguntas. E talvez isso seja ainda melhor. Sempre acreditei que algumas das conversas mais transformadoras começam justamente quando temos coragem de admitir que ainda não conhecemos todas as respostas.
Estamos vivendo provavelmente uma das maiores transformações tecnológicas da história recente. A inteligência artificial já escreve, pesquisa, analisa dados, cria imagens, desenvolve códigos, organiza informações, automatiza processos e começa a participar de decisões que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente de pessoas. E tudo indica que estamos apenas no começo.
Mas existe um paradoxo interessante nisso tudo. Quanto mais poderosas ficam as máquinas, mais valiosas parecem se tornar algumas características profundamente humanas.
Confiança. Empatia. Criatividade. Repertório. Liderança. Intuição. Afeto. Comunidade. Amizade. Capacidade de escutar. E, principalmente, a capacidade de criar relações verdadeiras.
Talvez estejamos entrando em uma época em que saber utilizar tecnologia será condição básica, mas saber ser humano será um enorme diferencial.
Essa reflexão conversa profundamente com aquilo em que acredito e com boa parte daquilo que construí profissionalmente. Minha trajetória sempre esteve ligada a negócios, gestão, liderança, comunicação, tecnologia e desenvolvimento. Mas, olhando para trás, percebo que praticamente tudo de mais importante que aconteceu na minha vida começou com pessoas.
Uma conversa abriu uma oportunidade. Uma apresentação virou parceria. Um café virou amizade. Uma amizade virou projeto. Um projeto aproximou outras pessoas. E algumas dessas conexões acabaram criando coisas que jamais conseguiríamos construir individualmente.
Agora, quase uma década depois, levar essa essência para dentro do HackTown tem um simbolismo enorme para mim.
O HackTown talvez seja um dos lugares que melhor representam essa combinação aparentemente contraditória entre tecnologia e humanidade. Durante alguns dias, Santa Rita do Sapucaí se transforma. A inovação sai dos grandes centros de convenções e ocupa ruas, escolas, universidades, empresas, bares, restaurantes, praças e casarões. A cidade inteira passa a funcionar como um enorme ecossistema de conhecimento.
E existe algo extraordinariamente humano nisso.
Não acredito que o grande debate seja homem versus máquina. Essa disputa me parece pequena diante da oportunidade que temos. A questão mais interessante é descobrir o que acontece quando utilizamos máquinas extraordinariamente capazes para potencializar pessoas extraordinariamente humanas.
A IA provavelmente assumirá tarefas que hoje consomem boa parte do nosso tempo. E considero isso uma excelente notícia. Talvez ela nos devolva algo que há décadas reclamamos não possuir: tempo.
A pergunta será o que faremos com ele.
Vamos preencher cada minuto economizado com novas tarefas, novas telas, novas notificações e novas reuniões? Ou vamos utilizar parte desse tempo para pensar melhor, conversar melhor, liderar melhor, criar melhor e estar verdadeiramente presentes?
Essa, para mim, é uma discussão muito maior do que tecnologia.
É uma discussão sobre escolhas.
O futurista John Naisbitt escreveu, ainda no século passado, sobre a necessidade de equilibrarmos high tech e high touch: quanto mais tecnologia incorporamos às nossas vidas, maior tende a ser nossa necessidade de contato humano. Décadas depois, talvez estejamos chegando ao momento em que essa ideia se torna mais relevante do que nunca.
Eu sou um entusiasta da tecnologia. Utilizo, estudo, acompanho e incentivo sua adoção. Acredito profundamente no potencial da inteligência artificial para transformar empresas, educação, saúde, gestão e praticamente todos os setores da economia.
Mas também acredito que o futuro não pertencerá simplesmente a quem dominar melhor a IA.
Pertencerá a quem souber combinar inteligência artificial com inteligência emocional, conhecimento com curiosidade, dados com sensibilidade, eficiência com propósito e tecnologia com humanidade.
É exatamente por isso que estou tão feliz com esse encontro.
Em plena era da inteligência artificial, continuaremos fazendo uma das coisas mais antigas e poderosas da humanidade: reunir pessoas em torno de uma boa conversa.
No sábado pela manhã 05/09, na Casa do Pi, eu, Renato Grau, Dani Plesnik, Andre Noel, Aline Bak e Mario Gioto não estaremos tentando prever exatamente como será o futuro.
Estaremos tentando compreender algo talvez ainda mais importante: quem queremos continuar sendo dentro dele.
E tenho a sensação de que algumas das respostas não estarão nos algoritmos.
Estarão nas pessoas sentadas ao nosso lado.
Porque o futuro pode até ser artificialmente inteligente.
Mas espero, sinceramente, que continue profundamente humano.














