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Há algum tempo, em uma conversa sobre um novo negócio, ouvi uma frase que parecia encerrar a discussão: “As pessoas estão pedindo isso”.

A princípio, é uma informação importante. Se o cliente pede, existe interesse. E, se existe interesse, pode existir uma oportunidade.

Mas fiquei pensando no que veio depois. Quantas dessas pessoas comprariam? Quanto estariam dispostas a pagar? O que deixariam de consumir para fazer essa escolha? E, principalmente, aquilo que estavam dizendo já aparecia de alguma maneira em seu comportamento?

Essa diferença me interessa. Trabalhando ao lado de empresários e executivos, percebo que uma das tarefas mais difíceis hoje não é conseguir informação sobre o mercado. Nunca tivemos tanta. O desafio está em distinguir opinião, intenção, comportamento e mudança.

Uma pessoa pode dizer que gostaria de determinado produto e nunca comprá-lo. Pode reclamar de um preço e continuar pagando. Pode afirmar que não mudaria um hábito e, meses depois, adotar silenciosamente outra forma de consumir.

O mercado fala. Mas nem sempre fala apenas com palavras.

Ele fala quando alguém compra. Quando deixa de comprar. Quando aceita pagar mais por conveniência. Quando troca posse por estar e pertencer. Quando prefere esperar uma entrega a se deslocar até uma loja. E também quando começa a considerar normal uma experiência que poucos anos antes parecia extraordinária.

É nesse ponto que observar o comportamento se torna importante para quem precisa tomar decisões.

Os números mostram o que já aconteceu. As pesquisas ajudam a entender o que as pessoas dizem. Mas algumas mudanças começam pequenas demais para aparecer com força em qualquer um dos dois.

Elas aparecem primeiro nos hábitos. E foi assim com muitas transformações que hoje parecem óbvias. Em algum momento, pedir comida pelo celular, entrar no carro de um desconhecido chamado por um aplicativo, alugar a casa de alguém para passar férias ou comprar sem experimentar deixaram de parecer comportamentos estranhos e passaram a fazer parte da rotina.

A mudança não aconteceu no dia em que a tecnologia apareceu. Aconteceu quando o comportamento mudou.

E é justamente aí que inovação deixa de ser apenas a busca por algo novo.

Para uma empresa, inovar também é conseguir perceber uma mudança enquanto ela ainda está acontecendo e entender o que aquilo pode significar para o negócio.

Isso exige outro tipo de atenção.

Não apenas perguntar ao cliente o que ele quer, mas observar o que ele já começou a fazer.

Não é apenas acompanhar o concorrente, mas perceber comportamentos que ainda nem parecem concorrência.

Não apenas olhar para aquilo que cresce, mas prestar atenção ao que começa a desaparecer.

Existe uma diferença importante entre tendência e sinal. A tendência já ganhou nome, números, apresentações e gente explicando por que ela importa. O sinal costuma ser menor, às vezes contraditório e fácil de ignorar.

Quando todo mundo consegue enxergar, boa parte da mudança já aconteceu.

É por isso que, quando olho para um negócio, uma das perguntas que mais me interessa não é apenas “o que o seu cliente está dizendo?”.

Quero saber o que ele começou a fazer diferente.

Porque entre aquilo que as pessoas dizem que fariam e aquilo pelo que efetivamente mudam seu comportamento existe uma distância. E, muitas vezes, é justamente nessa distância que começa a aparecer o futuro de um mercado.

O futuro de um negócio raramente chega anunciando que chegou. Primeiro, alguém começa a se comportar de outro jeito.

E alguém precisa estar olhando hoje, e não deixar só para o amanhã.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Leandra Costa

Leandra Costa

Foresight Strategist e criadora da Arquitetura da Viabilidade. Atua como C-Level as a Service na arquitetura de projetos complexos. Soma 30 anos de bagagem corporativa e inovação, com as certificações Future Leadership e Innovation Management (GIMI Boston). "Não construo volume. Construo direção". | @lecosta_ms