Projeção aponta mais de 90% de chance de um evento muito forte entre a primavera e o verão; fenômeno pode provocar seca em algumas regiões, excesso de chuva em outras e aumentar o risco de calor e queimadas
O El Niño que está se formando em 2026 pode entrar para a história como o mais intenso já registrado desde 1950. Uma nova projeção do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (CPC/NOAA), divulgada nesta quinta-feira (10), aponta 75% de probabilidade de que o fenômeno alcance esse patamar.
A previsão também indica mais de 90% de chance de ocorrência de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul. O fenômeno já foi confirmado em junho deste ano e, segundo os modelos climáticos, deve persistir pelo menos até o início de 2027.
O cenário preocupa porque o El Niño altera a circulação da atmosfera e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do Brasil. Os efeitos, no entanto, não serão iguais em todo o território.
O que é o El Niño?
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, acompanhado de mudanças na circulação atmosférica.
Esse aquecimento interfere na distribuição de calor e umidade pelo planeta e pode alterar o comportamento das chuvas e das temperaturas em diferentes continentes.
Em 2026, o aquecimento do Pacífico ganhou força ao longo do primeiro semestre. Em junho, a NOAA confirmou a configuração do fenômeno. Os modelos passaram então a indicar a possibilidade de um episódio de intensidade forte ou muito forte nos meses seguintes.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) considera como El Niño muito forte aquele em que as anomalias da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial ultrapassam 2°C.
Brasil pode ter cenários completamente diferentes
Um dos principais efeitos do fenômeno será a mudança na distribuição das chuvas.
Para o trimestre setembro, outubro e novembro, as previsões indicam maior probabilidade de chuvas acima da média na Região Sul e em parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Em contrapartida, são esperados períodos mais secos em áreas do Norte, Nordeste e em partes do Brasil Central e Sudeste. As temperaturas também tendem a permanecer acima da média em grande parte do país.
O padrão pode provocar situações opostas: enquanto algumas áreas enfrentarão excesso de chuva, outras poderão registrar déficit hídrico, rios mais baixos e maior risco de incêndios.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) explica que, historicamente, episódios de El Niño estão associados a aumento das chuvas no Sul do Brasil e redução das precipitações em partes do Norte e do Nordeste. Durante a primavera, também há possibilidade de condições mais secas em áreas do Sudeste e Centro-Oeste.
E Mato Grosso do Sul?
Para Mato Grosso do Sul, o cenário merece atenção porque o estado aparece entre as áreas com possibilidade de chuvas acima da média durante a primavera.
O boletim mais recente do Cemaden aponta maior probabilidade de precipitações acima da média em partes de Mato Grosso do Sul entre setembro e novembro.
Isso não significa, porém, que todo o estado terá chuva constante ou que não haverá períodos de calor e estiagem. O El Niño aumenta a irregularidade do comportamento atmosférico, e os efeitos podem variar bastante de uma região para outra.
No Centro-Oeste, as temperaturas acima da média também são uma preocupação. O aumento do calor pode elevar a evaporação, reduzir a umidade do solo e aumentar a pressão sobre pastagens e recursos hídricos.
Calor e queimadas também preocupam
Outro efeito associado ao fenômeno é o aumento do risco de ondas de calor e incêndios florestais.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima já alertou para a possibilidade de temperaturas acima da média em grande parte do país e aumento do perigo de incêndios entre agosto e outubro, especialmente na Amazônia, no Cerrado e em áreas do Brasil Central.
A combinação entre calor, baixa umidade e redução das chuvas pode deixar a vegetação mais seca e favorecer a propagação do fogo.
No Centro-Oeste, o cenário exige atenção especial porque períodos de temperaturas elevadas podem aumentar a deficiência hídrica justamente durante a transição para a próxima temporada agrícola.
Pesca e agricultura também podem sentir os efeitos
As alterações no regime de chuvas e na disponibilidade de água podem afetar diretamente atividades econômicas.
Na agricultura, o cenário varia conforme a cultura e a região. No Centro-Oeste, as condições podem favorecer algumas etapas da colheita do milho segunda safra, algodão e cana-de-açúcar, mas o calor elevado pode aumentar a pressão sobre pastagens e recursos hídricos.
Já no Sul, a previsão de mais chuva pode beneficiar culturas de inverno, embora o excesso de umidade também possa aumentar a ocorrência de doenças fúngicas e dificultar operações no campo.
A pesca e a aquicultura também podem ser afetadas. Mudanças nos níveis dos rios, na temperatura da água e no regime de chuvas podem alterar as condições de trabalho e produção.
No Norte e Nordeste, uma eventual redução das chuvas pode diminuir os níveis dos rios, afetando navegação, acesso a comunidades, pesca e abastecimento de água. No Sul, por outro lado, o excesso de chuva pode aumentar o risco de enchentes e danos à infraestrutura utilizada pelo setor.
Saúde entra no radar
Os impactos também podem chegar à saúde pública.
O Ministério da Saúde já apresentou aos gestores estaduais um plano de preparação para possíveis efeitos do El Niño 2026–2027. A pasta considera uma janela crítica entre outubro de 2026 e março de 2027, período em que os efeitos do fenômeno podem se intensificar.
Entre os riscos estão seca, estiagem e queimadas no Norte e Centro-Oeste, ondas de calor e temporais em diferentes áreas do país e chuvas intensas com risco de inundação no Sul.
Fenômeno não significa que todos os dias serão extremos
Apesar das projeções, especialistas ressaltam que o El Niño não determina sozinho o tempo de cada cidade.
O fenômeno funciona como um dos grandes fatores que influenciam o clima. Sistemas atmosféricos locais e regionais, frentes frias, áreas de baixa pressão e outros mecanismos podem provocar condições diferentes das tendências esperadas.
Por isso, os órgãos de monitoramento reforçam a necessidade de acompanhar as atualizações das previsões meteorológicas e climáticas.
A preocupação atual está principalmente na intensidade potencial do fenômeno. Com mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte e 75% de chance de alcançar o maior nível registrado desde 1950, o El Niño 2026–2027 entra no radar das autoridades brasileiras para os próximos meses.
A combinação entre calor acima da média, mudanças no regime de chuvas, risco de seca em algumas áreas e excesso de precipitação em outras pode marcar o clima brasileiro durante o fim de 2026 e o início de 2027.
Com informações e imagem da Agência Brasil




















