Quadro ocorre quando a resposta do organismo a uma infecção provoca disfunção de órgãos e exige diagnóstico e tratamento rápidos
Uma infecção que começa no pulmão, no trato urinário, no abdome ou até na pele pode evoluir para um quadro grave quando a reação do organismo passa a comprometer o funcionamento dos órgãos. É a sepse, condição que exige reconhecimento e atendimento médico rápidos.
Estimativas divulgadas pelo Ministério da Saúde apontam que cerca de 400 mil adultos e 42 mil crianças desenvolvem sepse por ano no Brasil.
Apesar de ser frequentemente associada a pacientes internados, a sepse pode começar fora do ambiente hospitalar. Uma pneumonia adquirida em casa ou uma infecção urinária, por exemplo, também pode desencadear o quadro.
Segundo a médica infectologista e especialista em Medicina Intensiva Karina Ramalho, que atua nas áreas de Controle de Infecções, Vigilância Epidemiológica e Segurança do Paciente no Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS/HU Brasil), é importante diferenciar a presença de uma infecção da evolução para sepse.
“A infecção é o ponto de partida. Sepse é quando a resposta do organismo à infecção é exagerada e passa a ameaçar a própria vida, provocando disfunção de vários órgãos”.
A médica explica que o problema não ocorre simplesmente porque o microrganismo se espalhou pelo corpo. A própria resposta do sistema imunológico pode provocar alterações capazes de comprometer órgãos.
Sepse não é sinônimo de “infecção generalizada”
A expressão “infecção generalizada” é comum no cotidiano, mas não descreve de forma precisa o que acontece na sepse.
A infecção pode permanecer localizada em uma determinada região, como pulmão, trato urinário ou abdome, e ainda assim desencadear uma reação sistêmica que provoque alterações em órgãos que não estão diretamente infectados.
“A sepse não exige que a infecção esteja espalhada pelo corpo ou que haja bactéria circulando no sangue. Uma infecção pode estar localizada, por exemplo, no pulmão, no trato urinário ou no abdome, e ainda assim desencadear uma resposta sistêmica desregulada capaz de comprometer órgãos à distância”, afirma Karina.
Por isso, a identificação do quadro depende não apenas de saber onde está a infecção, mas também de observar se o paciente começou a apresentar sinais de comprometimento do organismo.
Quais infecções podem causar sepse
Praticamente qualquer infecção pode evoluir para sepse. Entre as origens mais frequentes estão:
- Pneumonia
- Infecção urinária
- Infecções abdominais
- Infecções de pele
- Meningite
O quadro também pode estar relacionado a determinadas infecções virais.
A sepse pode surgir em diferentes ambientes. “Uma pneumonia adquirida em casa, uma infecção urinária, uma infecção abdominal ou até determinadas infecções virais podem evoluir para sepse”, explica a especialista.
No ambiente hospitalar, existe ainda a possibilidade de infecções relacionadas à assistência à saúde, que podem ser reduzidas com medidas de prevenção e controle de infecções.
Quem tem maior risco
Qualquer pessoa pode desenvolver sepse, mas alguns grupos apresentam maior probabilidade de evolução para formas graves.
Entre eles estão:
- idosos;
- crianças pequenas;
- pessoas com câncer;
- pessoas com baixa imunidade;
- pacientes com doenças crônicas;
- pessoas que passaram recentemente por cirurgias ou internações.
Ter um desses fatores, porém, não é uma condição necessária para desenvolver sepse.
“Idade avançada, imunossupressão e doenças crônicas aumentam o risco, mas não são pré-requisitos para desenvolver sepse”, afirma Karina.
Segundo ela, diante de uma infecção, a atenção deve estar voltada principalmente para possíveis sinais de que algum órgão esteja começando a apresentar alteração.
Sinais que exigem atenção
Algumas mudanças no estado de saúde podem indicar que uma infecção está evoluindo para um quadro mais grave. Entre os sinais que merecem atenção estão:
- febre persistente ou que volta depois de um período de melhora;
- calafrios;
- piora do estado geral;
- prostração intensa;
- confusão mental;
- sonolência;
- falta de ar;
- aumento da frequência respiratória;
- aumento da frequência cardíaca;
- queda da pressão arterial;
- redução do volume de urina;
- alterações na coloração da pele.
A presença de febre, isoladamente, não significa que uma pessoa esteja com sepse. Da mesma forma, não ter febre não elimina a possibilidade de um quadro grave.
Nas fases iniciais, algumas alterações podem ser discretas e só são identificadas durante a avaliação médica ou por exames laboratoriais.
Por isso, diante de uma infecção acompanhada de piora do estado geral ou alterações como falta de ar, confusão, queda de pressão ou redução da urina, é necessário procurar atendimento médico.
Por que o tempo é importante
A sepse pode apresentar diferentes níveis de gravidade, e a evolução do paciente está relacionada à rapidez com que o problema é identificado e tratado.
O reconhecimento precoce permite que a equipe de saúde avalie o funcionamento dos órgãos e inicie as medidas necessárias de tratamento.
“Na sepse, cada minuto conta. O reconhecimento precoce, com a instituição precoce das medidas mundialmente estudadas, e aceitas como essenciais para o tratamento, salva vidas”, destaca a médica.
Isso significa que não é necessário esperar que todos os sintomas apareçam ou que o quadro se torne grave para buscar avaliação.
Prevenção também faz parte do combate à sepse
Além do atendimento rápido, a prevenção das infecções é uma das estratégias para reduzir casos de sepse.
Entre as medidas estão a vacinação, a higiene das mãos, a prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde, o uso adequado de dispositivos invasivos, o diagnóstico e tratamento oportunos das infecções e o uso responsável de antimicrobianos.
Karina destaca que a prevenção precisa ocorrer antes que uma infecção evolua para um quadro grave.
“Precisamos atuar em duas frentes: impedir que as infecções aconteçam quando elas são evitáveis e reconhecer rapidamente quando uma infecção começa a ameaçar a vida”, afirma.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), segundo a especialista, incluiu a prevenção das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) e o enfrentamento da resistência aos antimicrobianos entre as prioridades do programa nacional para 2026–2030.
Quando procurar atendimento
Uma infecção nem sempre evolui para sepse, mas uma piora inesperada do estado geral durante uma infecção merece avaliação profissional.
Febre persistente, dificuldade para respirar, confusão ou sonolência fora do habitual, queda da pressão, redução importante da urina e alterações na pele são alguns dos sinais que exigem atenção.
A orientação é procurar atendimento de saúde diante de sinais de agravamento, especialmente em pessoas que pertencem aos grupos de maior risco. O diagnóstico de sepse é médico e depende da avaliação do quadro clínico e, quando necessário, de exames.
A principal recomendação é não esperar que a situação se agrave para buscar ajuda. Em casos de sepse, reconhecer rapidamente a mudança no estado do paciente pode fazer diferença na evolução do quadro.
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