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Relatório aponta risco de interferência nas eleições, enquanto os dois países ainda negociam tarifas e mantêm canais de diálogo

A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um dos períodos de maior tensão dos últimos anos. De um lado, os dois países mantêm negociações comerciais e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma ter uma boa relação pessoal com o presidente norte-americano Donald Trump. De outro, tarifas sobre produtos brasileiros, sanções, disputas diplomáticas e agora um alerta da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre possível interferência nas eleições aumentam a pressão entre os governos.

Um relatório reservado da Abin, encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, classificou como de “nível de criticidade” a possibilidade de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento também aponta uma tendência de escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil. A informação foi divulgada pela Folha de S.Paulo e confirmada pela TV Brasil.

Segundo a avaliação da agência, a política do governo Trump para a América Latina busca reduzir a influência de países considerados rivais dos Estados Unidos, principalmente a China, sobre ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas da região.

O alerta ocorre em meio a uma sequência de medidas adotadas pelo governo norte-americano que afetaram relações comerciais, diplomáticas e políticas com o Brasil.

Como a relação entre os dois países se deteriorou

A tensão ganhou força a partir de 2025, quando os Estados Unidos passaram a adotar tarifas sobre produtos importados de diversos países. Inicialmente, a medida tinha caráter predominantemente econômico, mas, posteriormente, questões políticas passaram a aparecer entre as justificativas apresentadas pelo governo Trump.

Em julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que elevou para 50% a tarifa sobre produtos brasileiros e classificou o Brasil como uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA”.

Entre os argumentos apresentados pelo governo norte-americano estavam decisões da Justiça brasileira relacionadas à atuação de plataformas digitais, incluindo a Rumble e o X, além do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por crimes relacionados à tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O governo Trump classificou a condenação como perseguição política, enquanto as autoridades brasileiras sustentaram a atuação independente das instituições do país.

A disputa também envolveu o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos e passou a defender publicamente medidas de pressão contra o governo brasileiro. Em junho de 2026, ele foi condenado pelo STF no caso relacionado ao chamado tarifaço e perdeu o mandato parlamentar por faltas às sessões da Câmara.

Sanções e pressão sobre autoridades brasileiras

A crise também chegou ao campo financeiro e diplomático.

O governo norte-americano aplicou a Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci Moraes. A legislação permite, entre outras medidas, o bloqueio de ativos e restrições a transações envolvendo os Estados Unidos.

Outros ministros do STF, como Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, também tiveram os vistos para entrada nos Estados Unidos cancelados.

Em dezembro de 2025, porém, Moraes e sua esposa tiveram os nomes retirados da lista de sancionados pela Lei Magnitsky.

A relação diplomática voltou a sofrer desgaste em agosto de 2026, quando os Estados Unidos anunciaram a revogação do visto da embaixadora brasileira no país, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Washington justificou a medida pela demora brasileira na concessão de aprovação diplomática ao indicado de Trump para a embaixada norte-americana no Brasil.

O governo brasileiro contestou a justificativa e afirmou que os Estados Unidos haviam desrespeitado a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas ao divulgar o nome do indicado antes da anuência brasileira.

Tarifaço ainda pesa nas negociações

Mesmo com as disputas políticas, Brasil e Estados Unidos mantêm negociações comerciais.

Em julho deste ano, os Estados Unidos anunciaram uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Depois, outra tarifa de 12,5% foi aplicada a mais produtos, sob a alegação de que o Brasil não teria mecanismos eficazes para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

As medidas foram contestadas pelo governo brasileiro, que classificou as tarifas como arbitrárias e injustificadas.

Atualmente, parte dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos pode ser submetida a tarifas de até 37,5%. As negociações entre os dois governos foram retomadas depois de uma conversa telefônica entre Lula e Trump em 21 de agosto. Os dois presidentes orientaram suas equipes a voltar à mesa de negociação.

Uma nova rodada de conversas está prevista para o encontro do G20, marcado para os dias 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, nos Estados Unidos.

Facções brasileiras entram na disputa

Outro ponto de atrito foi a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

O governo brasileiro tentou impedir a designação e apresentou medidas adotadas no combate ao crime organizado. A avaliação do governo era de que a classificação poderia abrir espaço para sanções mais severas e ampliar os efeitos da política norte-americana sobre o Brasil.

A questão também apareceu nas conversas entre Lula e Trump. No encontro realizado em Washington, em maio, o presidente brasileiro apresentou documentos para contestar a existência de práticas desleais na relação comercial e defendeu a continuidade das negociações.

Brasil e Estados Unidos também anunciaram, em abril, um acordo de cooperação para combater o tráfico internacional de armas e drogas.

Apesar da tensão, Lula e Trump mantêm diálogo

A relação entre Lula e Trump tem sido marcada por uma combinação de divergências políticas e manutenção de canais de diálogo.

Em setembro de 2025, os dois tiveram um breve encontro durante a Assembleia Geral da ONU. Na ocasião, Trump afirmou haver “química” entre eles. No mês seguinte, os presidentes voltaram a se encontrar durante a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur, na Malásia.

Em maio deste ano, Lula esteve em Washington para uma reunião que durou mais de três horas. Os dois presidentes discutiram as tarifas e outros temas da relação bilateral.

Em agosto, Lula tomou a iniciativa de telefonar para Trump. A conversa durou cerca de 1h20 e teve como objetivo retomar as negociações comerciais e discutir conflitos internacionais.

Apesar das críticas às medidas adotadas pelos Estados Unidos, Lula continua afirmando que mantém uma boa relação pessoal com Trump. Em junho, ao comentar a possibilidade de novas tarifas, o presidente brasileiro afirmou que Trump “fez uma coisa desaforada”.

Lula e Trump estarão na ONU nesta terça-feira

O novo capítulo da relação entre os dois países ocorre nesta semana, durante a 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

Lula fará o discurso de abertura do Debate Geral na terça-feira (22), tradição mantida pelo Brasil desde 1955. Na sequência, discursará Trump, como presidente do país-sede. A programação oficial da ONU prevê o Debate Geral entre 22 e 28 de setembro.

Apesar de os dois presidentes estarem no mesmo evento, não há encontro bilateral formal marcado entre eles. Lula, no entanto, deverá abordar temas relacionados à soberania brasileira e às eleições em meio ao alerta feito pela Abin.

O relatório da agência coloca a relação com os Estados Unidos em um novo contexto justamente às vésperas das eleições brasileiras. Para o governo brasileiro, a prioridade continua sendo manter o diálogo diplomático e comercial, enquanto o documento de inteligência chama atenção para os riscos de influência externa sobre o processo eleitoral.

Com informaçõesde Agência Brasil e imagem: Ricardo Stuckert / PR

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