Heitor Rodrigues Freire volta à presidência e Luiz Kanamura assume superintendência após Operação Antidotum atingir antiga direção; hospital é alvo de investigações e acumula problemas de atendimento e gestão
A Santa Casa de Campo Grande iniciou uma nova fase administrativa nesta quarta-feira (23), mas a mudança de comando ocorre em meio a uma das maiores crises recentes da instituição. Menos de duas semanas depois de a Operação Antidotum levar à prisão preventiva da então presidente Alir Terra Lima e de outros integrantes da administração, o hospital apresentou o médico Luiz Alberto Hiroki Kanamura como novo superintendente e anunciou o retorno de Heitor Rodrigues Freire à presidência.
A nova estrutura chega a uma instituição pressionada por problemas financeiros, falta de insumos, atrasos a profissionais e questionamentos sobre contratos e transparência na aplicação de recursos. Parte dessas dificuldades já vinha sendo acompanhada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) antes mesmo da operação policial.
Freire reassume oficialmente a presidência na próxima segunda-feira (28). Ele já havia comandado a Santa Casa entre 2020 e 2022, período marcado pela pandemia de covid-19, e retorna agora após uma sequência de mudanças na direção provocada pela crise.
Durante a apresentação, o dirigente afirmou que volta ao cargo em circunstâncias semelhantes às de sua primeira passagem pela presidência.
“Naquele momento, em plena pandemia, assumi a presidência diante da renúncia do então presidente. Superamos dificuldades e cumprimos o dever. Hoje, novamente em setembro, diante de uma sucessão de renúncias, a presidência se apresenta como uma necessidade imperativa. Mais uma vez, assumo com coragem e compromisso”, afirmou.
A declaração ocorre em um momento em que a instituição precisa, além de manter o atendimento, reorganizar sua estrutura administrativa e responder às consequências da investigação que atingiu antigos dirigentes.
Operação colocou cúpula da Santa Casa sob investigação
A Operação Antidotum foi deflagrada pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) em 11 de setembro.
Na ocasião, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia, em Goiás. Entre os presos estava Alir Terra Lima, então presidente da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande.
A investigação apura suspeitas de fraudes e desvios em contratos ligados à instituição.
Um dos núcleos investigados envolve um contrato para digitalização de prontuários médicos. O acordo previa pagamentos de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS, somente no primeiro ano teria ocorrido desvio de aproximadamente R$ 1,4 milhão, em razão de pagamentos sem a correspondente prestação dos serviços.
Outra frente envolve a operadora Santa Casa Saúde, controlada pela associação que mantém o hospital. De acordo com o Ministério Público, empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, cujo proprietário teria vínculos com integrantes da direção da instituição, receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões em 2025.
A apuração estima prejuízo de pelo menos R$ 3,5 milhões nesse conjunto de contratos. O MPMS também afirma ter identificado situações em que contratos, pagamentos e prestações de contas não eram apresentados aos órgãos de controle, incluindo o Conselho Fiscal da própria Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.
O valor total do possível prejuízo ainda está sendo apurado.
Alir Terra renuncia após prisão
Alir Terra deixou formalmente a presidência da Santa Casa após a prisão. A renúncia foi apresentada em caráter irrevogável.
Na carta, a ex-presidente afirmou que tomou a decisão para permitir a continuidade da administração e das decisões necessárias ao funcionamento do hospital. Ela também defendeu a necessidade de uma gestão capaz de conduzir a instituição sem entraves.
A saída do cargo, entretanto, não encerrou a situação judicial da ex-presidente. Em 23 de setembro, a Justiça manteve a prisão preventiva de Alir e negou pedido de prisão domiciliar. A decisão considerou que a idade, de 71 anos, isoladamente, não seria suficiente para substituir a prisão preventiva por domiciliar. A defesa também recorreu ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
A prisão preventiva é uma medida cautelar e não representa condenação.
Crise da Santa Casa é anterior à operação
A investigação policial não surgiu isoladamente. Antes da Operação Antidotum, o hospital já enfrentava dificuldades financeiras e assistenciais acompanhadas pelo Ministério Público.
Em novembro de 2025, o MPMS entrou com ação civil pública após identificar problemas como superlotação do pronto-socorro, falta de medicamentos e insumos, dificuldades no fornecimento de órteses, próteses e materiais especiais, problemas no setor de anestesiologia e risco de interrupção de serviços de média e alta complexidade.
Segundo informações apresentadas pelo Ministério Público em 2026, relatórios do Conselho Regional de Medicina apontaram superlotação superior a 500% da capacidade instalada. O órgão também citou falta de insumos e paralisações relacionadas ao não pagamento de profissionais.
A crise também levou a um acordo envolvendo a Santa Casa, o Governo de Mato Grosso do Sul e a Prefeitura de Campo Grande. O pacto previu recursos para pagamento de médicos e funcionários e medidas de auditoria sobre a administração da instituição.
Em agosto deste ano, diante do risco de interrupção de serviços essenciais, o MPMS promoveu reuniões emergenciais com representantes da Santa Casa, da Secretaria de Estado de Saúde e da Secretaria Municipal de Saúde. O objetivo era evitar problemas no fornecimento de medicamentos, gases medicinais, insumos e serviços laboratoriais.
Nova gestão terá de reorganizar contas
É nesse cenário que Kanamura assume a superintendência hospitalar. A função passa a concentrar a coordenação técnica, administrativa, financeira e assistencial do complexo.
O novo superintendente destacou durante a cerimônia a dimensão da responsabilidade de administrar o principal hospital de referência para casos de alta complexidade no estado.
“Assumo hoje a superintendência desta casa com um sentimento que mistura honra e responsabilidade. Honra, porque este é o único hospital quaternário de Mato Grosso do Sul. Responsabilidade, porque sei o que esse título significa para a população: quando todas as outras portas se fecham, é aqui que ela bate”, afirmou.
Segundo Kanamura, a Santa Casa possui cerca de 600 leitos e concentra serviços de alta complexidade, incluindo atendimento a politraumas, neurocirurgia e casos neurológicos graves.
Na prática, porém, a nova gestão terá de lidar simultaneamente com a assistência aos pacientes, o passivo financeiro e os desdobramentos das investigações.
A administração anunciou que pretende elaborar um planejamento orçamentário para separar as despesas emergenciais do passivo acumulado e definir medidas para manter o hospital em funcionamento. A previsão divulgada é de que esse levantamento seja concluído em cerca de 15 dias.
A Operação Antidotum segue em investigação, e os suspeitos têm direito à defesa e ao contraditório. O Ministério Público ainda apura a extensão dos prejuízos e a eventual responsabilidade individual de cada investigado.
Foto: Santa Casa


















