Enquanto Lula defende o fortalecimento do Brics e das relações com o Sul Global, Flávio Bolsonaro prioriza a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina
Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam estratégias diferentes para a política externa brasileira. Enquanto Lula defende ampliar as relações com países do Sul Global e fortalecer blocos como o Brics e o G20, Flávio propõe estreitar os laços com Estados Unidos, Israel e Argentina. As propostas também divergem sobre a exploração de minerais estratégicos, a defesa nacional e a inserção do Brasil na economia internacional.
A política externa ganhou espaço na campanha presidencial de 2026 e aparece em capítulos específicos dos documentos apresentados pelos candidatos. Lula dedica quase seis páginas ao tema, enquanto Flávio reserva cerca de três.
No plano petista, o cenário internacional é descrito como marcado por conflitos e violações do direito internacional. O documento afirma que o Brasil deve evitar alinhamentos automáticos e preservar sua autonomia nas relações com outras nações.
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica”, afirma o texto.
A proposta prevê uma política externa universalista, com relações comerciais e diplomáticas diversificadas. O objetivo é ampliar mercados para produtos e serviços brasileiros e aprofundar a cooperação com países da África, da América Latina e de outras regiões.
Já o plano de Flávio Bolsonaro critica a condução da política externa no governo Lula, sob o argumento de que interesses nacionais teriam sido subordinados a posições ideológicas. O documento defende a retomada de relações com países considerados parceiros tradicionais, especialmente Estados Unidos, Israel e Argentina.
“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais”, afirma o texto do candidato do PL, que promete conduzir a diplomacia com foco no interesse econômico brasileiro.
Apesar da prioridade dada aos Estados Unidos, o plano de Flávio também prevê negociações com China, União Europeia e mercados asiáticos. O documento afirma que as relações internacionais devem ser orientadas pelos interesses de produtores e trabalhadores brasileiros.
Brics e relações comerciais
A diferença entre as propostas aparece na importância atribuída aos blocos internacionais. Lula defende aprofundar a aproximação com o Brics, o G20 e os países do Sul Global, expressão usada para designar principalmente nações em desenvolvimento.
O plano petista também prevê fortalecer a integração sul-americana, ampliar a atuação do Mercosul e tratar a América do Sul e o Caribe como uma zona de paz. A aproximação com países africanos é apresentada como outra frente estratégica, em razão dos vínculos históricos e culturais com o Brasil.
A proposta busca diversificar parcerias comerciais em um cenário de disputas econômicas e restrições comerciais. O documento cita a necessidade de abrir novos mercados e enfrentar medidas que prejudiquem as exportações brasileiras.
O plano de Flávio, por sua vez, sustenta que a soberania nacional também depende da capacidade de abrir mercados, atrair investimentos e ampliar a competitividade do país. A proposta promete combater sanções comerciais impostas por Estados Unidos, China e Europa a produtos brasileiros.
A divergência também se relaciona à avaliação sobre as tarifas aplicadas pelo governo norte-americano a produtos do Brasil. Lula critica a política comercial de Donald Trump e associa as medidas a uma pressão sobre os interesses brasileiros. Flávio atribui parte do problema à orientação diplomática do atual governo e defende soluções negociadas.
Minerais estratégicos entram na disputa
A exploração de minerais críticos e terras raras é outro ponto de destaque nos programas. Esses recursos são utilizados em setores como tecnologia, defesa e transição energética e estão no centro da disputa comercial entre Estados Unidos e China.
O plano de Lula prevê a criação de uma estratégia para mapear, beneficiar e agregar valor aos minerais encontrados no país. A intenção é evitar que o Brasil se limite à exportação de matérias-primas e ampliar sua participação nas cadeias globais de produção.
“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, diz o documento.
Flávio Bolsonaro propõe atrair capital estrangeiro e tecnologia para desenvolver o setor. O plano prevê parcerias internacionais e transferência de conhecimento para o Brasil, sem restrições motivadas por diferenças ideológicas.
O candidato do PL também tem apresentado o potencial brasileiro em terras raras como uma oportunidade para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China. Segundo os dados citados pela Agência Brasil, o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas desses minerais, o equivalente a aproximadamente 23% das reservas conhecidas no mundo.
A diferença entre as propostas está no caminho para explorar esse potencial. Lula enfatiza o desenvolvimento de etapas produtivas no país e a agregação de valor aos recursos. Flávio prioriza a atração de investimentos e tecnologia estrangeira.
Defesa nacional e tecnologia militar
Os dois candidatos também relacionam a política externa à capacidade de defesa do Brasil, mas apresentam ênfases diferentes.
Lula defende fortalecer a indústria nacional de defesa e afirma que a autonomia internacional depende de capacidade militar própria. O plano cita investimentos realizados desde 2023, incluindo a produção de aeronaves, cargueiros, fragatas e veículos blindados.
Segundo o documento, foram executados R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos de defesa no período. O texto também destaca a produção do primeiro caça Gripen em território brasileiro.
Flávio Bolsonaro propõe ampliar o desenvolvimento de tecnologias militares, com atenção a drones e inteligência artificial. O plano afirma que os investimentos nas Forças Armadas devem ser compatíveis com a posição do Brasil nos diferentes blocos e fóruns internacionais.
Embora ambos defendam investimentos no setor, Lula destaca o fortalecimento da indústria nacional e a integração entre defesa e soberania. Flávio dá maior ênfase à inovação tecnológica e à cooperação internacional.
Flávio quer entrada do Brasil na OCDE
Outro ponto específico do plano do candidato do PL é a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fórum que reúne 38 países e produz estudos, estatísticas e recomendações de políticas públicas.
Flávio afirma que a entrada na organização exigiria a adequação de normas brasileiras a padrões internacionais, além de melhorias na governança de empresas estatais e no combate à corrupção.
O plano de Lula, por sua vez, dá maior destaque à articulação com o Brics, o G20 e os países em desenvolvimento, além da integração regional e da diversificação das relações comerciais.
As propostas mostram duas prioridades distintas para a atuação internacional do Brasil: de um lado, a ampliação das relações com diferentes regiões e o fortalecimento de blocos multilaterais; de outro, a aproximação com parceiros considerados estratégicos, a atração de investimentos e a adoção de padrões internacionais.
As diferenças não significam, porém, que os programas proponham relações exclusivas com determinados países. O plano de Lula prevê diálogo com todas as regiões do mundo, enquanto o de Flávio também menciona negociações com China, União Europeia e mercados asiáticos.
Foto: Agência de Trabalho

















