Carregando…

Compartilhe

Presidente reagiu a fala sobre acidente de trabalho, enquanto candidatos divergiram sobre economia, saúde pública e políticas sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) trocaram acusações, defenderam propostas e protagonizaram momentos de tensão no último debate presidencial transmitido pela TV Globo, na noite desta sexta-feira (23). A disputa ocorreu a dois dias do segundo turno, marcado para domingo (25), e teve como temas o endividamento das famílias, os programas sociais, a saúde pública, a infraestrutura e a segurança.

Um dos episódios mais tensos começou quando Flávio afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com nove dedos”, em referência à perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente em um acidente de trabalho, em 1964, quando ele tinha 17 anos e trabalhava como torneiro mecânico.

Lula reagiu à declaração e exigiu um pedido de desculpas. “Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu”, afirmou.

O presidente também criticou o que classificou como desrespeito aos trabalhadores que sofrem acidentes durante o exercício da profissão. “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos, não vou permitir! Você vai ter que pedir desculpa”, declarou.

Na sequência, Flávio pediu desculpas ao adversário. “Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender. Peço desculpa de verdade”, disse o senador.

O candidato do PL, porém, aproveitou a ocasião para cobrar do presidente explicações sobre o aumento da população em situação de rua e as dificuldades enfrentadas por famílias de baixa renda. Lula, por sua vez, manteve as críticas à condução da campanha adversária e às declarações do senador sobre políticas sociais.

Licença-maternidade e Bolsa Família

As políticas sociais também estiveram entre os principais pontos de divergência. Lula questionou Flávio sobre o voto contrário à ampliação da licença-maternidade quando o senador era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Flávio reconheceu a posição e afirmou que mudou de opinião. Segundo ele, na época, acreditava que a ampliação do período de afastamento poderia dificultar a contratação de mulheres.

“Eu votei acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego, eu estava errado”, admitiu. O senador acrescentou que, depois de se casar e ter duas filhas, passou a compreender melhor a importância da permanência da mãe com o bebê.

“Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca, eu sei da importância da mãe estar perto do filho, por até mais de 180 dias se possível”, afirmou.

Lula criticou a justificativa e questionou a mudança de posicionamento do adversário. O presidente também trouxe à discussão publicações antigas de Flávio nas redes sociais nas quais o senador teria chamado o Bolsa Família de “bolsa-farelo”.

“É a falta de respeito com o povo pobre desse país”, rebateu o petista.

Flávio afirmou que pretende manter e ampliar os benefícios sociais, incluindo o Bolsa Família. O senador também defendeu medidas que permitam a continuidade temporária do recebimento do auxílio por pessoas que consigam emprego formal ou abram um negócio, como forma de estimular a busca por renda própria.

Endividamento e juros

A situação financeira das famílias brasileiras foi outro eixo do confronto. Flávio atribuiu o endividamento ao aumento dos gastos públicos, aos juros elevados e ao custo de vida. O senador também mencionou a dívida pública, citando o valor de R$ 11 trilhões.

“Lula, por que que você está deixando as famílias brasileiras tão endividadas? Já que uma vez que a dívida governo cresce, a dívida das famílias cresce junto”, questionou.

O candidato do PL prometeu utilizar a Caixa Econômica Federal para comprar dívidas de pessoas físicas e jurídicas e renegociá-las em condições mais favoráveis. A proposta prevê, segundo as declarações apresentadas no debate, carência de seis meses para pessoas físicas e de um ano para empresas.

Lula respondeu que a renegociação de débitos já fazia parte das iniciativas de seu governo e afirmou que uma proposta semelhante havia sido encaminhada ao Senado. “Ele tá copiando uma coisa que eu já mandei pro Senado”, declarou o presidente.

O petista também mencionou medidas de renegociação de dívidas adotadas pela atual gestão e citou uma operação de R$ 15 bilhões envolvendo 4,5 milhões de pessoas.

A discussão evidenciou estratégias distintas para enfrentar o problema. Enquanto Flávio associou as dificuldades financeiras das famílias ao cenário fiscal e aos juros, Lula defendeu as medidas de renegociação de débitos e o crescimento econômico como instrumentos para melhorar a renda e reduzir o endividamento.

SUS e financiamento da saúde

A saúde pública também provocou divergências. Lula questionou o adversário sobre declarações atribuídas a integrantes de sua equipe econômica a respeito dos investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) e criticou a gestão da pandemia de covid-19 durante o governo de Jair Bolsonaro.

“Como é que você quer melhorar a saúde desse país negando o plano de saúde mais importante que tem em qualquer país com mais de 100 milhões de habitantes?”, perguntou o presidente.

Lula atribuiu ao SUS um papel importante no atendimento à população durante a pandemia e voltou a criticar a atuação do governo anterior diante da crise sanitária.

Flávio negou a intenção de reduzir os investimentos no sistema público e afirmou que pretende ampliar os recursos destinados à saúde. Ao mesmo tempo, criticou as filas de atendimento, o financiamento dos serviços e a situação financeira das Santas Casas.

“O tesouraço vai ser na corrupção do atual governo, o tesouraço vai ser na burocracia, o tesouraço vai ser nos impostos que você deu, foram mais de 30 que você criou ou aumentou”, afirmou o senador.

Flávio prometeu renegociar dívidas das Santas Casas, ampliar o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e atualizar a tabela de procedimentos pagos pelo SUS. Lula, por sua vez, questionou como o adversário pretende conciliar a promessa de ampliar os investimentos com a proposta de redução de gastos públicos.

Custo de vida e salário mínimo

O preço dos alimentos e o poder de compra dos brasileiros também entraram no debate. Flávio criticou a situação econômica e afirmou que a população enfrenta dificuldades para pagar despesas básicas.

Em outro momento, o senador voltou a questionar os resultados das políticas econômicas do governo e defendeu medidas para reduzir o peso dos impostos e ampliar o acesso ao crédito.

Lula rebateu as críticas destacando ações de seus governos para combater a fome e valorizar a renda dos trabalhadores. O presidente também defendeu a política de reajuste do salário mínimo acima da inflação.

Flávio prometeu manter aumentos reais para o salário mínimo e para as aposentadorias, além de ampliar o crédito destinado a pequenos empreendedores, especialmente nas periferias.

As propostas, no entanto, vieram acompanhadas de questionamentos sobre a capacidade de financiar os compromissos assumidos. Lula cobrou explicações sobre os cortes de gastos defendidos pelo adversário, enquanto Flávio sustentou que pretende concentrar a redução de despesas no combate à corrupção e à burocracia.

Infraestrutura e propostas para o país

Além dos embates pessoais e econômicos, os candidatos apresentaram propostas para diferentes regiões e áreas da administração federal.

Lula defendeu a continuidade de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), incluindo projetos de infraestrutura e a transposição do rio São Francisco. Também voltou a mencionar a Ferrovia Transnordestina e a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana.

Na educação, o presidente destacou investimentos em escolas de tempo integral e institutos federais. Também defendeu a ampliação do programa Pé-de-Meia, voltado a estudantes, com a intenção de alcançar mais alunos do ensino médio e estender a iniciativa às universidades públicas.

Flávio, por sua vez, prometeu ampliar a malha ferroviária, concluir obras de infraestrutura e estimular concessões de rodovias. Entre as propostas, citou a isenção de pedágio para motociclistas em novas rodovias.

Na educação, o senador defendeu ensino integral, formação técnica no contraturno escolar e auxílio-creche. Na segurança pública, propôs maior integração entre os governos estaduais e federal no combate ao crime organizado, além da redução da maioridade penal para 14 anos e do aumento das penas para crimes como roubo de celulares.

Na saúde, além das medidas relacionadas ao SUS, Flávio prometeu investimentos no Inca e apoio financeiro às Santas Casas. O candidato também afirmou que pretende ampliar o saneamento básico e incentivar investimentos em tecnologia.

Último confronto antes da votação

O debate da Globo foi o último confronto televisivo entre os candidatos antes do segundo turno deste domingo (25). O encontro reuniu propostas para áreas centrais da administração pública, mas também foi marcado por ataques pessoais e cobranças sobre decisões tomadas ao longo da trajetória política dos dois candidatos.

A disputa colocou em evidência temas que atravessam a campanha, como o custo de vida, o endividamento, a manutenção dos programas sociais, o financiamento da saúde e o papel do Estado na economia.

Com a votação se aproximando, Lula buscou defender os resultados de seus governos e questionar as posições anteriores de Flávio, enquanto o senador procurou associar a atual gestão às dificuldades econômicas e apresentar promessas de redução de despesas, ampliação do crédito e endurecimento das políticas de segurança.

Com informações e imagem da Agência Brasil

Os comentários a seguir não representam a opinião do Portal Total News

Deixe um comentário