Tive o privilégio de assistir presencialmente ao futurista Rishad Tobaccowala no Universo TOTVS deste ano. Sua palestra, somada aos ensinamentos do livro A Reinvenção do Trabalho, foi um choque de realidade. Um despertar de pensamentos sobre as transformações que já estão acontecendo e sobre a nossa disposição, como empresários e líderes, para compreender o que elas exigem de nós.
Essa experiência me levou a olhar com mais atenção para uma pergunta que atravessa empresas de diferentes setores. Por que está tão difícil contratar e manter pessoas? Quando uma vaga permanece aberta ou um bom profissional decide sair, é natural procurar explicações no mercado. Mas também precisamos examinar o trabalho que estamos oferecendo e a maneira como conduzimos nossas equipes.
O chamado apagão de mão de obra tem fundamento. A Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, aponta que 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldade para encontrar os profissionais de que precisam, acima da média mundial de 72%. O dado revela um desafio que precisa entrar no planejamento estratégico das empresas. Afinal, nenhum projeto de crescimento se sustenta sem pessoas capazes de transformar intenção em entrega.
Ao mesmo tempo, considero insuficiente encerrar essa conversa com a afirmação de que ninguém mais quer trabalhar. O Brasil registrou, em 2025, uma média recorde de 38,9 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado, segundo o IBGE. A expansão do emprego formal e a dificuldade de contratação coexistem. Precisamos compreender essa realidade antes de atribuir suas causas à falta de vontade ou de compromisso das pessoas.
Tobaccowala ajuda a ampliar esse olhar ao identificar forças interligadas que estão transformando o trabalho. Entre elas estão as mudanças demográficas e geracionais, a evolução tecnológica, as plataformas que aproximam profissionais de oportunidades, os novos formatos de atuação e os efeitos duradouros da pandemia. Na análise do autor, essas forças alteram tanto as possibilidades de trabalhar quanto as expectativas sobre o lugar do trabalho na vida.
Para mim, esse é um dos ensinamentos mais relevantes do livro. Estamos diante de mudanças que exigem revisão de práticas, estruturas e comportamentos. A dificuldade começa quando esperamos que as pessoas se adaptem a tudo, enquanto preservamos modelos de gestão que nunca nos dispusemos a questionar.
O profissional avalia o salário, mas também considera o deslocamento, a jornada, o comportamento da liderança e suas possibilidades de crescimento. Pensa no que terá de abrir mão para aceitar aquela oportunidade. Uma vaga pode parecer atraente na entrevista e se tornar insustentável na rotina.
Imagine alguém contratado para uma função que, poucas semanas depois, recebe responsabilidades que nunca foram combinadas. As prioridades mudam constantemente, faltam orientações e qualquer tentativa de conversar é interpretada como resistência. Quando essa pessoa decide sair, classificá-la como pouco comprometida impede a empresa de investigar a própria participação no problema.
Também considero superficial colocar toda essa transformação na conta da geração Z. Profissionais em diferentes momentos da vida podem desejar respeito, remuneração adequada, reconhecimento e condições para preservar a saúde. As expectativas variam, assim como as necessidades. Cabe à liderança aprender a lidar com essa diversidade sem transformar diferenças em julgamentos.
A busca por autonomia merece o mesmo cuidado. Empreender, atuar por projetos ou trabalhar por aplicativos pode representar uma escolha desejada ou uma alternativa diante de oportunidades pouco atraentes. Essas trajetórias também envolvem insegurança, custos e jornadas extensas. O que precisamos compreender é por que determinada pessoa considera essa relação mais interessante do que aquela que nossa empresa oferece.
No livro, Tobaccowala aborda as diferentes razões pelas quais as pessoas trabalham, incluindo renda, identidade, pertencimento e significado pessoal. Essa reflexão me faz pensar na importância de construir uma proposta coerente. O salário continua essencial. Falar em propósito perde credibilidade quando a remuneração não acompanha as exigências ou quando os acordos deixam de ser cumpridos.
Propósito ganha consistência quando a pessoa entende a importância de sua contribuição e encontra coerência nas decisões da organização. Ele aparece no respeito ao cliente, na qualidade da entrega e na forma como um problema é resolvido. A cultura se revela especialmente quando a pressão aumenta e precisamos escolher como tratar quem está ao nosso lado.
Outro ensinamento do autor que considero fundamental é a necessidade de uma liderança orientada ao crescimento, à adaptação e ao aprendizado. Para nossa realidade empresarial, vejo aí um convite para repensar quanto tempo dedicamos a desenvolver pessoas e quanto consumimos conferindo cada movimento delas.
Quando todas as decisões dependem do chefe, a equipe aprende a esperar autorização. Quando o erro recebe humilhação, as pessoas passam a esconder dificuldades. Depois, a organização reclama da falta de iniciativa. Precisamos perceber como nossos próprios comportamentos podem produzir aquilo que tanto nos incomoda nos outros.
Autonomia exige preparação, objetivos claros e limites conhecidos. A cobrança continua necessária, assim como a responsabilidade pelas entregas. O papel do líder é criar condições para que o profissional saiba o que se espera dele, tenha recursos para agir e receba orientação para evoluir.
A flexibilidade também precisa ser discutida a partir da realidade de cada atividade. Uma obra, um restaurante e um hospital possuem exigências próprias. Ainda assim, é possível avaliar escalas, reduzir mudanças de última hora e organizar melhor a distribuição das tarefas. Conseguir planejar a própria vida faz diferença para quem trabalha.
Se faltam determinadas competências, formar pessoas precisa entrar na estratégia. A parte prática de A Reinvenção do Trabalho contempla a requalificação dos profissionais e a revisão das estruturas organizacionais. Esse ponto reforça uma responsabilidade que considero urgente. Precisamos preparar as equipes para acompanhar a transformação das atividades, inclusive aquelas impactadas pela inteligência artificial.
Esperar indefinidamente pelo candidato pronto tem um custo. Uma integração bem conduzida, acompanhamento nos primeiros meses e oportunidades de aprendizagem podem ampliar as possibilidades de contratação e melhorar as entregas. Isso exige tempo e investimento, mas também exige disposição para ensinar.
Precisamos, ainda, ouvir quem permanece. A conversa sobre dificuldades não deveria acontecer apenas quando alguém pede demissão. Perguntar o que atrapalha o trabalho e quais mudanças ajudariam a equipe pode revelar problemas que a liderança deixou de enxergar. A confiança cresce quando essa escuta produz respostas e decisões concretas.
Sei que empresários enfrentam margens apertadas, custos elevados e pressões diárias. Justamente por isso, precisamos observar o custo da desorganização. Cada saída pode levar conhecimento, sobrecarregar colegas e comprometer a experiência do cliente. A qualidade da gestão de pessoas aparece no resultado, mesmo quando não recebe uma linha específica no relatório.
Não acredito que uma boa liderança, sozinha, resolva toda a escassez. Qualificação, localização das vagas, transporte e condições econômicas influenciam esse cenário. Mas reconhecer fatores externos também precisa vir acompanhado da responsabilidade sobre aquilo que podemos transformar dentro da empresa.
Saí daquela palestra com pensamentos que continuam me acompanhando. Quanto da nossa dificuldade está nas mudanças do mercado e quanto está na demora para rever nossas próprias certezas? Que práticas seguimos repetindo apenas porque um dia funcionaram?
Acredito que reinventar o trabalho começa com essa disposição para aprender, inclusive quando o aprendizado questiona nossa maneira de liderar. Antes de publicar a próxima vaga, talvez seja importante olhar para dentro e perguntar se estamos construindo uma empresa em que as pessoas encontram condições para contribuir, crescer e permanecer.
Se eu estivesse procurando uma oportunidade hoje, escolheria trabalhar na empresa que estou ajudando a construir?
Seguimos aprendendo, conectando e transformando.













