Perfil Socioeconômico 2026, divulgado pela Prefeitura, mostra crescimento populacional, expansão imobiliária, envelhecimento e desigualdades na ocupação do território
Campo Grande está cada vez mais perto de atingir a marca de 1 milhão de habitantes. A cidade chegou a 962.883 moradores em 2025, segundo estimativa apresentada no Perfil Socioeconômico de Campo Grande 2026, divulgado nesta quinta-feira (27) pela Prefeitura. Em três anos, foram incorporados quase 65 mil novos habitantes à população da capital.
O crescimento, porém, não conta sozinho a história de Campo Grande. Os números reunidos no levantamento mostram uma cidade que cresce em tamanho, envelhece, muda a distribuição de seus moradores pelo território e amplia sua estrutura imobiliária, mas também enfrenta problemas que acompanham a expansão urbana, como trânsito, habitação e planejamento territorial.
Elaborado pela Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb), o perfil reúne dados demográficos, econômicos, sociais, ambientais e de infraestrutura. A publicação, que celebra os 127 anos da capital, funciona como um retrato estatístico da cidade e permite comparar as transformações ocorridas ao longo das últimas décadas.
Produzido desde a década de 1980, o documento reúne informações de diferentes órgãos e instituições e é utilizado como instrumento de consulta e planejamento urbano.
Quase 1 milhão de moradores, mas crescimento mais lento
Campo Grande tinha 898.100 habitantes no Censo de 2022. Em 2024, a estimativa era de 954.537 moradores. No ano seguinte, chegou a 962.883.
A diferença entre 2022 e 2025 é de 64.783 pessoas, número equivalente à população de uma cidade de médio porte. O avanço, entretanto, ocorre em um ritmo bem inferior ao observado durante a fase de maior expansão da capital.
A série histórica do perfil mostra que a taxa média anual de crescimento chegou a 7,60% entre 1970 e 1980. Depois, caiu para 2,64% entre 1991 e 2000, 1,72% entre 2000 e 2010 e 1,11% entre 2010 e 2022.
Ou seja, Campo Grande continua crescendo, mas já não no ritmo acelerado que marcou sua expansão nas décadas passadas.
Em 1991, eram 526.126 habitantes. Em 2000, a população passou de 663 mil. Em 2010, chegou a 786.797. A estimativa mais recente coloca a cidade a pouco mais de 37 mil moradores da marca de 1 milhão.
O crescimento também aumentou a concentração populacional da capital em relação ao Estado. Em 1940, Campo Grande reunia 20,8% da população de Mato Grosso do Sul. Em 2022, essa participação chegou a 32,6%.
Mais mulheres e uma cidade que envelhece
A mudança demográfica não está apenas no tamanho da população.
Em 2022, Campo Grande tinha 36.362 mulheres a mais que homens. Eram 92,22 homens para cada 100 mulheres, proporção inferior aos 94,05 registrados em 2010.
A estrutura etária também está mudando. A parcela da população com 65 anos ou mais passou de 4,82% em 2000 para 6,70% em 2010. Enquanto isso, a participação de crianças de 0 a 14 anos caiu de 28,45% para 22,63% no mesmo período.
O retrato é de uma cidade que envelhece. Na prática, a mudança aumenta a demanda por políticas públicas voltadas à população idosa e altera a pressão sobre serviços de saúde, mobilidade, habitação e assistência social.
O crescimento não acontece por igual
Se a população aumentou, ela não se espalhou de maneira uniforme pela capital.
Os dados do perfil mostram diferenças importantes entre bairros. Enquanto algumas regiões ganharam moradores, outras registraram redução.
O Centro, por exemplo, passou de 11.509 habitantes em 2010 para 9.007 em 2022.
Em sentido contrário, o Caiobá saltou de 7.874 para 22.062 moradores. O Centro Oeste passou de 24.816 para 37.671. O Centenário cresceu de 16.750 para 22.304 habitantes.
O Aero Rancho, um dos bairros mais populosos da capital, teve pouca alteração no período: passou de 36.057 para 36.374 moradores.
A movimentação ajuda a explicar uma das principais transformações urbanas de Campo Grande: enquanto áreas tradicionais perdem moradores, regiões de expansão ganham população. O desafio passa a ser acompanhar esse deslocamento com infraestrutura, transporte, serviços públicos e equipamentos urbanos.
Uma cidade urbana com 76% do território agropecuário
A dimensão territorial também ajuda a entender as características da capital.
Embora Campo Grande seja um importante centro urbano, 76,4% do território municipal é destinado a atividades agropecuárias.
As pastagens ocupam 52,3% da área. A agricultura representa 11% e a silvicultura, 2,6%. A vegetação natural corresponde a 20,2% do território.
O dado revela uma característica pouco percebida no cotidiano de quem vive na área urbana: a capital possui uma extensa área rural e uma ocupação territorial que vai muito além da mancha urbana.
175 mil árvores ajudam a definir a identidade da cidade
Se o território rural é expressivo, a presença de áreas verdes também aparece como uma das marcas de Campo Grande.
A cidade possui aproximadamente 175 mil árvores de acompanhamento viário, número 14% superior ao registrado em 2010.
A cobertura vegetal chega a 41,29% do perímetro urbano. Em 2025, foram realizados 9.429 plantios de árvores.
A região do Segredo concentrou a maior quantidade, com 3.918 plantios. Depois aparecem Bandeira, com 1.794, e Anhanduizinho, com 981.
Em 2025, Campo Grande foi reconhecida como a capital mais arborizada do Brasil e integra, desde 2019, a lista Tree Cities of the World.
O dado ambiental contrasta com os desafios da expansão urbana: a mesma cidade que amplia áreas ocupadas precisa conciliar crescimento, preservação e manutenção de sua cobertura vegetal.
Quase 500 mil imóveis cadastrados
O avanço populacional também aparece no mercado imobiliário.
O Cadastro Imobiliário municipal chegou a 494.064 inscrições em 2025. Em 2016, eram 428.259.
Os imóveis residenciais passaram de 301.505 para 357.884 no período. Já os comerciais aumentaram de 17.909 para 21.958.
Apesar do crescimento do estoque imobiliário, o número de novos alvarás de construção caiu. Foram 832 em 2025, contra 1.130 em 2024.
No mesmo ano, foram emitidas 2.422 Cartas de Habite-se, correspondentes a mais de 824 mil metros quadrados.
Os números mostram uma cidade que continua se transformando fisicamente, mas em um cenário de oscilações na atividade da construção.
Trânsito: menos mortes, mas quase 400 mil infrações
Uma cidade maior também significa mais deslocamentos — e mais desafios para a mobilidade.
Em 2025, Campo Grande registrou 10.268 sinistros de trânsito, abaixo dos 12.099 registrados em 2024.
O número de mortes também caiu: foram 34 óbitos em 2025, contra 53 no ano anterior.
A melhora nos indicadores, porém, convive com um número elevado de infrações. Foram 390.748 ocorrências em 2025, das quais 101.844 eram classificadas como gravíssimas.
Os números apontam para uma contradição da expansão urbana: apesar da redução de mortes e sinistros, a quantidade de infrações ainda é alta e evidencia que o crescimento da circulação exige políticas permanentes de fiscalização, educação e segurança viária.
Construção e alimentos concentram mais de 26 mil empregos industriais
A economia da capital também aparece no levantamento.
A construção reunia, em 2025, 1.518 empresas industriais e 17.635 empregados. A fabricação de produtos alimentícios somava 302 empresas e 8.833 trabalhadores.
Somados, os dois segmentos empregavam 26.468 pessoas.
O perfil também destaca a posição estratégica de Campo Grande para a logística regional, especialmente diante da Rota Bioceânica e da integração entre rodovias e ferrovia.
A expectativa é que a conexão com os países vizinhos e com os portos do Pacífico amplie oportunidades de comércio, logística, turismo e investimentos.
Habitação mostra o outro lado do crescimento
O avanço da cidade também traz uma demanda que não pode ser ignorada: moradia.
Em 2025, a Agência Municipal de Habitação registrou 3.851 famílias cadastradas, enquanto outras 942 foram seladas e cadastradas para regularização fundiária. Houve ainda 833 contratos encaminhados para implantação.
O relatório contabilizou 35.238 registros de atendimentos e informações relacionados às atividades habitacionais.
O Censo de 2022 também identificou comunidades e favelas urbanas. Entre elas, a Homex aparece com 3.317 moradores distribuídos em 1.151 domicílios.
Os números ajudam a colocar em perspectiva o crescimento populacional: enquanto a cidade se aproxima de 1 milhão de habitantes e amplia seu estoque imobiliário, milhares de famílias ainda dependem de políticas de regularização e habitação.
O retrato de uma capital que mudou, e ainda precisa se preparar
O Perfil Socioeconômico 2026 mostra uma Campo Grande maior, mas também diferente.
A população cresceu e se aproxima de 1 milhão de habitantes. O ritmo de expansão diminuiu, mas novas áreas continuam recebendo moradores. A população envelhece, as mulheres são maioria e a distribuição dos habitantes pelo território se transforma.
Ao mesmo tempo, a cidade tem quase meio milhão de imóveis cadastrados, mantém uma extensa área destinada à agropecuária e reúne cerca de 175 mil árvores nas ruas.
Os números positivos, porém, convivem com questões que exigem planejamento. O deslocamento da população para novas regiões pressiona a infraestrutura. O envelhecimento modifica as necessidades dos serviços públicos. A expansão imobiliária convive com demandas habitacionais. E o trânsito, embora tenha registrado redução nas mortes e nos sinistros, ainda contabiliza centenas de milhares de infrações.
O retrato divulgado pela Prefeitura, portanto, vai além da marca de 962.883 habitantes. Ele mostra uma cidade em transição, que deixou de crescer no ritmo acelerado do passado, mas continua se expandindo e precisa decidir como acomodar os moradores que chegarão aos próximos anos.
A marca de 1 milhão de habitantes pode estar próxima. O desafio, mais do que alcançar o número, será garantir que o crescimento venha acompanhado de infraestrutura, serviços públicos, mobilidade, moradia e qualidade de vida.



















