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Ao acompanhar a conversa com executivos da LVMH durante a NRF 2026, tive a sensação de estar diante de uma das interpretações mais refinadas sobre o futuro da inteligência artificial. Em meio a tanto discurso técnico, dados e promessas de eficiência, o que mais me marcou foi a simplicidade de uma frase que carrega uma profundidade enorme, tecnologia em todo lugar, visível em lugar nenhum.

Essa ideia, à primeira vista, pode parecer apenas estética. Mas não é. Ela revela uma mudança estrutural sobre como a tecnologia deve se comportar dentro das marcas, principalmente aquelas que operam no território do desejo. No luxo, eficiência nunca foi o objetivo final. Eficiência é requisito. O que realmente importa é intimidade, confiança, experiência e significado. E isso muda completamente a forma como a IA deve ser aplicada.

Enquanto grande parte do mercado ainda discute como automatizar processos, reduzir custos e ganhar escala, o luxo faz uma pergunta diferente. Como a tecnologia pode tornar a relação mais humana. Não mais rápida. Mais humana. Isso inverte a lógica dominante. A IA não entra para substituir o toque humano. Ela entra para protegê-lo, ampliá-lo e qualificá-lo.

O conceito de concierge digital apresentado reforça exatamente isso. Não se trata de um chatbot sofisticado ou de uma recomendação baseada em histórico de compra. Trata-se de construir uma inteligência capaz de compreender contexto, estilo de vida, momento e até intenção emocional do cliente. É sair da lógica transacional e entrar na lógica relacional. O cliente deixa de ser um perfil de consumo e passa a ser um indivíduo interpretado em profundidade.

Isso me fez refletir sobre algo que vejo com frequência no mercado. Muitas empresas estão usando tecnologia para acelerar interações, mas não necessariamente para aprofundá-las. Respondem mais rápido, mas conhecem menos. Automatizam mais, mas se conectam menos. O luxo segue na direção oposta. Menos volume, mais significado. Menos pressa, mais presença.

Outro ponto que me chamou muita atenção foi a disciplina estratégica. Existe um filtro claro para adoção de tecnologia. Nem tudo que é possível deve ser feito. Só avança aquilo que melhora de forma real a experiência do cliente, que é prioridade dentro do negócio e que será efetivamente adotado. Em um cenário onde muitas empresas testam tudo e consolidam pouco, essa clareza se torna uma vantagem competitiva silenciosa.

Mas talvez o ponto mais sofisticado dessa conversa tenha sido a forma como a LVMH enxerga a inteligência artificial. Não como uma ferramenta operacional, mas como um ativo cultural. Isso muda tudo. Quando a tecnologia entra no campo da cultura, ela passa a ser guiada por valores, não apenas por métricas. Confiança deixa de ser consequência e passa a ser pré-condição.

Existe uma consciência clara de que qualquer avanço tecnológico precisa respeitar dois pilares fundamentais. A confiança do cliente e a confiança do colaborador. Sem isso, não há escala sustentável. Em um mundo onde a IA avança rapidamente, mas a confiança avança lentamente, esse posicionamento mostra maturidade e visão de longo prazo.

Outro aprendizado importante é sobre como medir sucesso. Enquanto grande parte das empresas ainda olha para eficiência, produtividade e redução de custo, o luxo adiciona uma nova métrica. Desejabilidade. A tecnologia só faz sentido se aumentar o valor percebido da marca, se fortalecer o vínculo emocional e se aprofundar a relação com o cliente. Caso contrário, ela se torna apenas ruído sofisticado.

Ao conectar essa visão com tudo o que venho acompanhando na NRF 2026, fica cada vez mais claro para mim que estamos entrando em uma nova fase da inteligência artificial. Uma fase menos sobre capacidade técnica e mais sobre intenção estratégica. Menos sobre o que a tecnologia pode fazer e mais sobre o que ela deve fazer.

E talvez esse seja o grande ponto de reflexão. A IA não precisa ser fria, impessoal ou distante. Ela se torna isso quando é mal orientada. Quando guiada por valores claros, por propósito e por uma leitura profunda do cliente, ela pode ser uma das ferramentas mais poderosas para amplificar o que temos de mais humano.

Saí dessa conversa com uma convicção muito clara. O futuro não será definido por quem tem mais tecnologia, mas por quem sabe escondê-la melhor. Porque, no fim do dia, o cliente não quer ver tecnologia. Ele quer sentir que foi compreendido.

E isso, nenhuma máquina faz sozinha.

Perguntas para reflexão

  1. A tecnologia na minha empresa é protagonista ou invisível?
  2. Estamos usando IA para gerar eficiência ou para criar desejo e confiança?
  3. Como equilibramos personalização e privacidade?
  4. Nossos times confiam na transformação digital que estamos promovendo?
  5. A tecnologia que adotamos aumenta ou diminui nossa humanidade?

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

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Dijan de Barros

Empreendedor, especialista em gestão e marketing, apresentador, palestrante, TEDxOrganizer, fundador do Café com Negócios | @dijanbarros

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