EUA representam menos de 16% das exportações brasileiras de etanol; especialistas avaliam que setor pode buscar novos mercados para reduzir impactos
A nova tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos ao etanol brasileiro deve afetar principalmente empresas exportadoras, mas o impacto sobre o conjunto da economia brasileira tende a ser limitado. Especialistas avaliam que a medida tem forte componente político e ocorre em um cenário de menor dependência do mercado norte-americano.
De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), os Estados Unidos responderam por menos de 16% do volume de etanol exportado pelo Brasil e por cerca de 17,5% da receita obtida com as vendas externas do biocombustível.
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, o equivalente a quase US$ 1 bilhão em receita. Desse total, os embarques para o mercado norte-americano somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, com faturamento de US$ 163 milhões.
Na prática, mais de 84% do volume exportado pelo país teve outros destinos internacionais, o que reduz a exposição do setor brasileiro à nova barreira comercial.
Para o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras já vinha diminuindo antes da adoção da tarifa. “A participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha diminuindo há anos. Antes mesmo do tarifaço, esse peso já era relativamente pequeno”, afirmou.
Segundo o especialista, a medida representa uma dificuldade para alguns segmentos, mas não deve provocar grandes impactos na economia brasileira. “Claro que é algo ruim, em especial para alguns setores específicos. Mas, verdade seja dita, não representa nenhuma tragédia para a economia do país”, disse.
Na avaliação de Prado, o caminho para o Brasil é ampliar a busca por novos mercados para o etanol produzido no país, especialmente diante das incertezas nas políticas comerciais adotadas pelos Estados Unidos.
“Claro que ninguém gosta de perder um mercado como o dos Estados Unidos, mas, nas circunstâncias atuais, pelo menos durante a atual administração estadunidense, esse mercado se tornou muito problemático porque não oferece previsibilidade nem racionalidade”, afirmou.
O professor avalia ainda que investimentos voltados exclusivamente para atender ao mercado norte-americano passaram a envolver mais riscos. “Não há garantias de que seja possível estabelecer políticas comerciais bilaterais minimamente previsíveis com os EUA porque o que move o tarifaço não são ganhos de natureza comercial, mas a agenda política do governo deles para a América Latina”, acrescentou.
Competitividade brasileira
Apesar da nova barreira comercial, pesquisadores apontam que o Brasil mantém vantagens competitivas no setor de biocombustíveis, principalmente pelo menor custo de produção, produtividade agrícola e diversificação das matérias-primas.
O professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), Luis Augusto Barbosa Cortez, explica que o modelo brasileiro tem características diferentes do norte-americano.
Enquanto os Estados Unidos concentram a produção de etanol no milho, o Brasil utiliza principalmente a cana-de-açúcar e vem ampliando a participação do milho na fabricação do biocombustível.
Atualmente, cerca de 75% do etanol produzido no Brasil tem origem na cana-de-açúcar, enquanto os outros 25% são produzidos a partir do milho. A expectativa é que a participação do milho alcance aproximadamente 30% da produção nacional até 2030.
Segundo Cortez, uma das vantagens do Brasil é a possibilidade de realizar duas safras em uma mesma área agrícola. “O produtor brasileiro pode colher soja até o mês de maio e, na sequência, plantar milho para colheita em outubro. Dessa forma, uma mesma área pode produzir duas safras por ano”, explicou.
O pesquisador também destaca a integração entre a produção de etanol de milho e a pecuária, já que o farelo resultante pode ser utilizado na alimentação animal.
Além disso, ele aponta que as usinas brasileiras conseguem reduzir custos ao utilizar a própria biomassa do processo produtivo como fonte de energia. “Nos Estados Unidos, eles precisam comprar energia para parte do processo de produção do etanol. No Brasil, resolvemos isso dentro da própria usina. Por isso o custo deles é maior”, afirmou.
Na produção a partir da cana-de-açúcar, o Brasil também apresenta vantagem de produtividade. O país produz aproximadamente 7 mil litros de etanol por hectare de cana plantada, enquanto nos Estados Unidos o índice chega, no máximo, a 5 mil litros.
Disputa comercial
O professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Niels Soendergaard, avalia que as medidas adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros possuem caráter político.
“A administração Trump, diante da guinada para governos de extrema direita na América Latina, deixou de tratar a questão tarifária de forma técnica, como havia sido a abordagem do governo brasileiro, e embarcou em uma postura de tentar manipular os desdobramentos políticos no Brasil por meio de pressão econômica externa”, argumentou.
Segundo ele, a justificativa apresentada pelos Estados Unidos não se sustenta do ponto de vista técnico. “O Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), e a queda das importações de etanol dos EUA deve-se ao aumento da produção de etanol baseado em milho no Brasil”, afirmou.
Os Estados Unidos justificam a tarifa adicional de 25% com base em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), segundo a qual determinadas práticas adotadas pelo Brasil seriam discriminatórias ou prejudicariam a economia norte-americana.
Entre os pontos questionados estão o acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras relacionadas ao comércio digital e aos sistemas de pagamento eletrônico, questões de propriedade intelectual, medidas anticorrupção e o desmatamento ilegal.
O governo brasileiro rejeita as alegações e afirma que a investigação não tem respaldo nas normas multilaterais do comércio internacional.
Entidades criticam tarifa
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirmou que a política brasileira para o etanol está alinhada às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que não existe tratamento discriminatório contra produtos norte-americanos.
A entidade também destacou que a redução das exportações de etanol dos Estados Unidos para o Brasil ocorreu principalmente pelo crescimento da produção nacional, especialmente do etanol de milho.
A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) apresentou posicionamento semelhante e afirmou que, apesar do impacto direto limitado nas exportações brasileiras, a decisão preocupa pelos precedentes que pode criar.
“Embora a aplicação da tarifa tenha impacto direto limitado sobre as exportações brasileiras de etanol, uma vez que os EUA não constituem atualmente um mercado prioritário para o produto brasileiro, a decisão preocupa pelos precedentes que pode estabelecer”, informou a entidade.
As organizações defenderam que eventuais divergências comerciais sejam resolvidas por meio do diálogo entre os dois países e pelo respeito às regras do comércio internacional.
*Com informações e imagem da Agência Brasil





















