Na última semana, o Brasil comemorou o “Dia do Professor”. Com certeza, em um dia como esse, todos os professores receberam abraços, felicitações e até presentes; nas instituições públicas e privadas, com certeza, ouviram-se discursos inflamados sobre o valor desse profissional e a necessidade de sua valorização; nas redes sociais, observamos postagens, podcasts, entrevistas etc.
Porém, a realidade vivida por esses profissionais vai além de discursos e promessas eleitoreiras em um dia especial dedicado a eles. A sociedade brasileira, como sempre, não tem se atentado para um problema que, há tempos, pesquisas vêm apontando: o apagão dessa profissão em nosso país. Exatamente no dia 15 de outubro de 2026, a CNN Brasil fez a seguinte publicação: “Estudos do Instituto Semesp apontam para o risco de déficit de até 235 mil professores na educação básica no país nos próximos 14 anos”.
A questão é: se a educação hoje em nosso país já se encontra em situação precária em termos de qualidade, o que está reservado para as próximas décadas?
O mais revoltante para esses profissionais é que o resultado das avaliações nacionais e internacionais em relação à educação brasileira recai somente sobre os ombros dos professores e gestores escolares. Enquanto a sociedade cobra resultados, a grande maioria de nossos docentes enfrenta salários incompatíveis com suas responsabilidades, estruturas escolares precárias, falta de materiais pedagógicos, salas superlotadas, calor intenso em sala de aula, excesso de tarefas burocráticas, falta de suporte psicológico e social tanto para eles quanto para os estudantes etc.
Outra questão a se pensar: como exigir excelência do trabalho docente quando as condições básicas para a sua execução não existem?
Todas essas questões refletem fisica e emocionalmente na vida desse profissional. Antônio Nóvoa, pesquisador português, afirma que “É impossível separar o pessoal do profissional” quando ele se refere à profissão docente, pois essa profissão exige muito empenho porque está intimamente ligada a aspectos relacionais.
O professor, quando entra na sala de aula, carrega muito mais do que livros, plano de aula, caderno e avaliações. Leva consigo noites mal dormidas por excesso de trabalho, preocupações com a vida pessoal e familiar e, muitas vezes, o peso de uma rotina que ultrapassa os limites do razoável. Mesmo assim, precisa ensinar, orientar, acolher os seus alunos em suas necessidades, mantendo o equilíbrio.
Em 2023, a pesquisa “Saúde mental, adoecimento e trabalho docente”, publicada no Portal SiELO já nos revelava os seguintes resultados: “72,7% (somados às vezes e raramente) dos professores sentem pouca valorização; 47,8% se percebem em esgotamento emocional, 71,5% apontam estresse no ambiente de trabalho e 48,6% estão insatisfeitos na profissão. Por esta e tantas outras pesquisas, podemos afirmar que o sistema educacional brasileiro já está vivenciando uma crise sem precedentes em que os professores estão lutando por condições dignas de trabalho e respeito.
Somado a isso, existe algo mais profundo: o desrespeito. Há décadas, a autoridade do professor em sala de aula vem sendo capturada e, nos últimos anos, a indisciplina e o desrespeito por parte dos estudantes têm produzido ansiedade, medo e frustração em muitos profissionais da educação. Não podemos generalizar, porém esta situação é constante na maioria das escolas brasileiras, principalmente públicas. A violência verbal, as humilhações, as ameaças e até a efetivação delas, a pressão psicológica e a desautorização diante dos alunos têm corroído a saúde emocional dos docentes brasileiros.
Nós, brasileiros, principalmente nossos gestores públicos, precisamos compreender que um país sem uma educação de qualidade não evolui em nenhum aspecto de forma sustentável. E que, discursos inflamados sobre a importância da educação e do profissional professor, homenagens, “festinhas”, postagens em redes sociais não tem nada a ver com valorização docente. Essa valorização tem a ver com remuneração digna, formação continuada, infraestrutura adequada, material didático necessário, segurança, respeito, condições de trabalho e políticas efetivas de proteção à saúde física e emocional de todos os docentes antes que o apagão dessa profissão se efetive em nosso país.
Se desejamos uma educação de qualidade, precisamos começar a reconhecer e cobrar mais dignidade para aqueles que a constroem todos os dias: o professor.
Eu me solidarizo com todos os professores de todo o Brasil porque eu também sou professora e já vivenciei essa realidade no campo educacional. Professor(a), você é importante e essencial nesta nação.



















