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Especialista alerta para riscos das apostas e defende que prevenção também considere dificuldades financeiras e busca por ganhos rápidos

A proibição das plataformas de apostas no Brasil ampliou o debate sobre os impactos das bets na saúde mental e a necessidade de educação financeira. Para o especialista em educação do comportamento financeiro Reinaldo Domingos, a restrição é uma resposta a um problema que afeta milhões de brasileiros, mas precisa ser acompanhada de ações de prevenção e conscientização sobre a relação com o dinheiro.

A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no país, incluindo apostas esportivas e jogos online. As plataformas autorizadas devem sair do ar a partir de 6 de outubro.

Domingos, que é presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) e da DSOP Educação Financeira, avalia que a discussão não deve se limitar à dependência em jogos. Segundo ele, também é necessário compreender por que tantas pessoas recorrem às apostas na expectativa de conseguir dinheiro rapidamente.

“O problema das bets é sério e precisa ser tratado como tal. A ludopatia existe, precisa ser reconhecida, diagnosticada e tratada. Mas precisamos também olhar para o que levou milhões de brasileiros a colocar dinheiro nas apostas. Não podemos analisar apenas quem desenvolveu uma doença relacionada ao jogo. Existe também uma questão de comportamento financeiro, de expectativa e de educação”, afirma.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa de 2023. Desse total, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático.

O transtorno do jogo pode estar associado a ansiedade, depressão, alterações no sono e no humor, conflitos familiares, isolamento social e prejuízos financeiros e profissionais.

Dependência e expectativa de ganho rápido

A ludopatia, caracterizada pela perda de controle sobre o comportamento de apostar, é reconhecida como um problema de saúde. O Ministério da Saúde destaca que o jogo problemático pode provocar sofrimento emocional ou estar relacionado a dificuldades psicológicas preexistentes.

Para Domingos, porém, nem todas as pessoas começam a apostar em razão de uma dependência instalada. A expectativa de melhorar de vida, complementar a renda ou resolver problemas financeiros também pode motivar a busca pelas plataformas.

“É evidente que existe a ludopatia e que ela precisa receber atenção médica e psicológica. Mas há também pessoas que não necessariamente chegam às apostas por uma dependência instalada. Elas entram porque acreditam que podem ganhar dinheiro rapidamente, melhorar de vida ou resolver uma dificuldade financeira. Essa expectativa de ganho fácil também precisa ser compreendida”, afirma.

Na avaliação do especialista, a falta de educação financeira pode aumentar a vulnerabilidade a promessas de ganhos rápidos, especialmente entre pessoas que enfrentam dificuldades para organizar o orçamento e pagar as despesas.

“Quando uma pessoa não aprendeu a diagnosticar sua situação financeira, não sabe quanto pode gastar, não construiu uma reserva estratégica e não tem clareza sobre como realizar seus sonhos por meio de planejamento, a promessa de ganhar dinheiro rápido pode parecer uma solução. A aposta passa a ser vista como uma oportunidade, quando, na realidade, envolve risco e pode comprometer recursos que deveriam atender às necessidades da família”, explica.

Pesquisa relaciona dificuldades financeiras e saúde mental

Um levantamento da ABEFIN, realizado em parceria com o Instituto Axxus, investigou a relação entre dificuldades financeiras e saúde emocional. A pesquisa ouviu mil brasileiros de todas as regiões do país com diagnóstico formal de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout.

Entre os entrevistados, 81,9% afirmaram que os problemas financeiros tiveram participação relevante no desenvolvimento ou agravamento do transtorno. Para 34,6%, as dificuldades econômicas foram apontadas como o principal gatilho, seguidas por questões relacionadas ao trabalho (20,5%), relacionamentos (11%), separação (10,9%), doenças (8,3%) e luto (5%).

O levantamento também identificou dificuldades que afetam o cotidiano dos participantes:

  • 69,4% têm dificuldade para pagar contas básicas;
  • 61,2% possuem dívidas;
  • 53,6% afirmam que a renda não cobre as necessidades do dia a dia;
  • 64,9% tiveram prejuízo no lazer;
  • 61,9% relataram piora no humor;
  • 60,1% enfrentaram conflitos familiares;
  • 56,1% tiveram problemas de sono;
  • 42,8% perceberam queda no desempenho profissional.

Além disso, 67,2% demonstraram uma visão pessimista sobre o próprio futuro financeiro, enquanto 20% acreditavam que a situação econômica iria melhorar.

“Esses números mostram que dinheiro e saúde mental não podem ser tratados como assuntos separados. Quando uma pessoa perde recursos que precisava para pagar contas, sustentar a família ou realizar seus sonhos, o impacto não fica restrito ao orçamento. Ele pode chegar ao sono, ao relacionamento, ao trabalho e à própria perspectiva de futuro”, afirma Domingos.

Tentativa de recuperar perdas pode agravar o problema

O uso das apostas como alternativa para resolver dificuldades financeiras pode levar a um ciclo de perdas. A pessoa começa com a intenção de obter uma renda extra, perde dinheiro e passa a apostar novamente na tentativa de recuperar o valor.

“O pensamento pode começar com ‘vou apostar pouco para ganhar um dinheiro a mais’. Depois vem a perda. Em seguida, aparece a ideia de recuperar o dinheiro perdido com uma nova aposta. E esse ciclo pode levar a perdas cada vez maiores. Quando a pessoa percebe, já comprometeu recursos que tinham outra finalidade”, explica Reinaldo.

O Ministério da Saúde também aponta a tentativa de recuperar o dinheiro perdido como um sinal que merece atenção. Entre os fatores de risco para o jogo problemático estão a busca por recompensas imediatas, a impulsividade e o uso das apostas como forma de lidar com problemas emocionais.

Para o especialista, a educação financeira pode ajudar a prevenir esse comportamento ao estimular o planejamento e escolhas conscientes sobre o uso dos recursos.

“Precisamos ensinar que dinheiro não deve ser conquistado pela lógica da sorte. A construção financeira acontece por meio de trabalho, planejamento, escolhas conscientes, capacidade de poupar e realização de sonhos. Quando uma pessoa passa a acreditar que uma aposta pode resolver sua vida financeira, temos um problema de comportamento que precisa ser enfrentado antes mesmo que ele se transforme em uma dependência”, afirma.

Proibição não elimina necessidade de prevenção

Além de restringir as operações, a medida provisória estabeleceu um cronograma para a retirada de valores pelos apostadores e a devolução dos saldos remanescentes, além de mecanismos de fiscalização contra ofertas ilegais.

Na avaliação de Domingos, a restrição à oferta de apostas precisa ser acompanhada de iniciativas educativas para reduzir a vulnerabilidade dos consumidores.

“Se queremos realmente enfrentar esse problema, precisamos discutir o que acontece antes de uma pessoa chegar à aposta. Por que ela acredita que precisa ganhar dinheiro rapidamente? Por que ela não enxerga outras formas de construir patrimônio? Por que uma dificuldade financeira faz com que ela procure uma solução baseada na sorte? Essas perguntas também precisam fazer parte do debate”, afirma.

O Ministério da Saúde mantém ações de orientação e prevenção para pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas. O atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) pode ocorrer nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), além de serviços de teleatendimento em saúde mental.

Educação financeira desde a infância

Domingos defende que a educação do comportamento financeiro seja trabalhada com crianças, jovens e adultos. Para ele, compreender a diferença entre investimento e aposta e aprender a planejar gastos são medidas que podem contribuir para decisões mais conscientes.

“Não basta dizer para uma pessoa não apostar. Precisamos ajudá-la a entender por que ela está procurando aquela aposta. Se o objetivo é pagar uma dívida, realizar um sonho ou melhorar a renda da família, precisamos mostrar que existem caminhos baseados em planejamento. Educação do comportamento financeiro não significa apenas aprender a fazer contas. Significa desenvolver consciência para tomar decisões melhores diante do dinheiro”, afirma.

O especialista também ressalta a importância de abordar o tema desde cedo, com orientações sobre os riscos das apostas e as diferenças entre planejamento financeiro e expectativa de ganho rápido.

“Precisamos ensinar desde cedo a diferença entre investimento e aposta, entre oportunidade e ilusão, entre construção patrimonial e ganho rápido. A proibição pode reduzir a exposição às plataformas, mas a educação é fundamental para mudar a relação das pessoas com o dinheiro. Se não fizermos isso, o problema pode encontrar outras formas de se apresentar”, conclui.

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