Coalizão liderada pelos Estados Unidos reúne 15 países e pretende ampliar ações contra o narcotráfico por meio da OEA
A disputa por influência entre Estados Unidos e China ganhou um novo capítulo na América Latina com a criação do Escudo das Américas, coalizão liderada por Washington e formada por outros 14 países da região. Especialistas em relações internacionais avaliam que o combate aos cartéis de drogas pode ser utilizado para ampliar a influência norte-americana e limitar a presença econômica chinesa no continente.
Criado em março deste ano, o Escudo das Américas reúne atualmente Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Nesta semana, às margens da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, os 15 países divulgaram um documento no qual informam a intenção de levar a proposta para dentro da Organização dos Estados Americanos (OEA).
No mesmo documento, as nações concordaram em classificar como “terroristas” 24 grupos narcotraficantes, entre eles o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), ambos brasileiros.
Para o professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Danilo Enrico Martuscelli, a iniciativa está relacionada à disputa comercial e tecnológica entre as duas potências.
“O Escudo das Américas é uma retomada desse processo de tentativa de anexação colonial ou imperial dos países latino-americanos em relação aos EUA dentro de uma lógica geopolítica de disputa comercial e tecnológica com a China”, disse.
Pressão sobre a América Latina
O professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Robson Valdez, avalia que o combate ao narcotráfico pode servir para legitimar uma maior atuação dos Estados Unidos na região.
“E, indiretamente, isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista e sob a perspectiva da política externa norte-americana”, comentou.
Para Valdez, a coalizão visa “principalmente, [legitimar] a presença física de tropas americanas na região a pretexto de combater o crime organizado”.
Ao anunciar a criação da coalizão, o governo de Donald Trump afirmou que a iniciativa também busca “manter as ameaças externas afastadas, incluindo as influências estrangeiras malignas provenientes de fora do Hemisfério Ocidental”.
Brasil fica fora da coalizão
O Brasil não faz parte do Escudo das Américas e não foi convocado para participar da iniciativa. O governo brasileiro acompanha a movimentação com cautela e mantém medidas de cooperação internacional no combate ao crime organizado com países da região.
A avaliação do governo brasileiro é de que a iniciativa pode ser utilizada por Washington para buscar alinhamentos econômicos entre os países participantes, inclusive com possíveis restrições à presença da China na América Latina.
Brasília aguarda a apresentação formal da proposta na OEA para avaliar se apoiará ou rejeitará uma eventual resolução do organismo internacional sobre o tema.
Proposta será levada à OEA
No documento divulgado nesta semana, os integrantes do Escudo das Américas informaram que pretendem apresentar à OEA uma proposta para ampliar a atuação conjunta contra o narcotráfico.
“Uma vez convocada a reunião formal do Órgão de Consulta [da OEA], pretendemos participar em nível ministerial para considerar a adoção de uma resolução que promova e facilite a ação coletiva contra organizações narcoterroristas, nos termos do Tratado do Rio [TIAR, Tratado Interamericano de Assistência Recíproca]”, dizem os países.
Assinado em 1947, no contexto da Guerra Fria, o TIAR estabelece que “a agressão a um Estado americano constitui uma agressão a todos os demais Estados americanos”.
Para Martuscelli, a tentativa de levar a discussão para a OEA também representa uma forma de pressionar países que não aderiram à proposta, como Brasil, México, Uruguai e Canadá.
“O recurso à OEA tem o propósito de dar alguma legitimidade institucional a essa política de pressão imperial aberta”, disse.
Drogas, economia e minerais críticos
O documento divulgado pelos 15 países não trata apenas do combate ao narcotráfico. A declaração também prevê medidas de “cooperação econômica”, incluindo a proteção das “cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis”.
Os minerais críticos são utilizados em setores como tecnologia, defesa e transição energética e estão entre os principais pontos da disputa comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China.
A declaração também menciona a adoção de regras para fornecedores de infraestrutura digital.
“[Defendemos nossas economias] promovendo regulamentações de fornecedores confiáveis para infraestrutura digital, aplicadas de forma não discriminatória”, acrescenta o documento conjunto.
Para Robson Valdez, o Escudo das Américas também pode ter reflexos na área de defesa. Segundo o professor, a coalizão pode ser utilizada para estimular a compra de equipamentos militares dos Estados Unidos.
O professor afirma que isso “tira dos países a autonomia de escolher os seus parceiros para compras de armamento”.
A iniciativa, portanto, reúne medidas de segurança e combate ao narcotráfico com propostas nas áreas econômica, tecnológica e militar. A atuação do grupo na OEA ainda depende da apresentação formal da proposta e da avaliação dos demais países do continente.
Com informações de Agência Brasil
Imagem: White House/Divulgação

















