A retomada da pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que países árabes ampliem os chamados Acordos de Abraão reacendeu o debate sobre o futuro da causa palestina no Oriente Médio. Para especialistas em relações internacionais, a expansão dos tratados pode enfraquecer ainda mais a busca por um Estado palestino independente e ampliar a margem de ação de Israel nos territórios ocupados.
Criados durante o primeiro mandato de Trump, os Acordos de Abraão estabeleceram a normalização das relações diplomáticas entre Israel e países árabes como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão. A iniciativa rompeu décadas de consenso regional segundo o qual o reconhecimento formal de Israel deveria estar condicionado à resolução do conflito israelense-palestino.
Agora, em meio às negociações envolvendo o programa nuclear iraniano, Trump voltou a defender a adesão de novos países ao pacto. Entre os governos pressionados pela Casa Branca estão Arábia Saudita, Catar, Egito, Jordânia, Turquia e Paquistão.
A exigência gerou críticas de especialistas que veem a estratégia como um movimento capaz de reduzir ainda mais o apoio diplomático dos países árabes aos palestinos.
Segundo a professora de Relações Internacionais da PUC Minas, Rashmi Singh, os acordos alteraram profundamente a dinâmica política do Oriente Médio ao desvincular a normalização das relações com Israel da criação de um Estado palestino.
Na avaliação da pesquisadora, a ampliação do pacto pode representar um duro golpe para as aspirações nacionais palestinas, ao mesmo tempo em que fortalece a posição israelense na região.
“O processo enfraquece a principal ferramenta diplomática que os palestinos possuíam junto aos países árabes, que era justamente condicionar o reconhecimento de Israel a uma solução para o conflito”, afirma.
Para o professor Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC (UFABC), os acordos também ajudam a reduzir o isolamento internacional enfrentado por Israel desde o início da guerra em Gaza.
Segundo ele, o avanço da normalização das relações pode diminuir ainda mais a capacidade dos palestinos de mobilizar apoio regional em um momento considerado decisivo para o futuro dos territórios ocupados.
Mudança histórica na diplomacia árabe
Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, grande parte dos países árabes condicionava a normalização das relações diplomáticas à criação de um Estado palestino independente.
Essa posição foi formalizada na Iniciativa de Paz Árabe de 2002, que previa o reconhecimento de Israel em troca da retirada dos territórios ocupados desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Os Acordos de Abraão alteraram essa lógica ao permitir que países árabes estabelecessem relações diplomáticas, comerciais e de segurança com Israel sem que houvesse avanços concretos na questão palestina.
Defensores da iniciativa argumentam que os tratados ampliaram investimentos, fortaleceram o comércio regional e contribuíram para a cooperação em áreas como tecnologia, turismo e defesa.
Trump tem utilizado justamente esse argumento para convencer novos governos a aderirem ao acordo. Segundo ele, os países participantes registraram crescimento econômico e ganhos estratégicos após a assinatura dos tratados.
Conflito em Gaza amplia tensão
O debate ocorre em um momento de intensificação das tensões no Oriente Médio.
Nas últimas semanas, organizações internacionais de direitos humanos voltaram a denunciar a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e ataques promovidos por colonos contra comunidades palestinas.
Ao mesmo tempo, o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou a ampliação de sua presença militar na Faixa de Gaza, afirmando controlar atualmente cerca de 60% do território e planejando expandir essa área.
A medida provocou reações de aliados tradicionais de Israel, incluindo a Alemanha, que manifestou oposição a qualquer divisão permanente do território palestino.
Paralelamente, membros do governo israelense têm defendido publicamente a anexação de partes da Cisjordânia e a rejeição à criação de um Estado palestino soberano, proposta apoiada por boa parte da comunidade internacional.
Disputa por influência regional
Além da questão palestina, os Acordos de Abraão também estão inseridos em uma disputa mais ampla pela influência política e militar no Oriente Médio.
Analistas apontam que os tratados servem como instrumento para fortalecer a aliança entre Estados Unidos e Israel diante do crescimento da influência do Irã na região.
Ao mesmo tempo, países como Arábia Saudita, Turquia, Catar e Paquistão têm buscado ampliar sua própria articulação diplomática e militar, formando novos blocos de cooperação que podem alterar o equilíbrio de forças regional.
Nesse cenário, o futuro dos palestinos continua sendo uma das principais incógnitas. Enquanto Israel amplia sua presença nos territórios ocupados e os países árabes reavaliam suas prioridades estratégicas, cresce a preocupação de especialistas de que a perspectiva de um Estado palestino independente se torne cada vez mais distante.
Com informações e imagem da Agência Brasil






















