Em entrevista à Total News, Thiago Rodrigues explicou como o fenômeno altera a circulação atmosférica e pode afetar chuvas, temperaturas, agricultura e saúde no estado
O retorno do El Niño deve aumentar a ocorrência de eventos climáticos extremos em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul, com possibilidade de mais ondas de calor, períodos de estiagem e chuvas intensas. A avaliação é do professor Thiago Rodrigues, do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), pesquisador na área de Física Ambiental.
Em entrevista à Total News, o pesquisador explicou como o fenômeno, que ocorre no Oceano Pacífico, consegue interferir no comportamento da atmosfera em diferentes partes do planeta. Segundo ele, a intensidade prevista para o atual episódio chama atenção e pode favorecer mudanças no padrão de temperaturas e chuvas em Mato Grosso do Sul.
Para Rodrigues, o El Niño não provoca sozinho cada evento extremo registrado no estado, mas aumenta a probabilidade de determinadas condições climáticas.
Como o El Niño consegue influenciar o clima de MS
O El Niño ocorre quando as águas do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. O professor explica que, em condições normais, os ventos alísios empurram a água quente da superfície do oceano em direção à região da Austrália.
Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem e permitem que a água quente se acumule próximo à costa da América do Sul. O aquecimento altera a circulação da atmosfera e interfere na formação de nuvens, chuvas e sistemas de pressão. “Muda-se toda a dinâmica dos ventos, que influencia a formação de nuvens, que influencia a formação de chuvas.”
De acordo com o pesquisador, a intensidade do fenômeno é definida pela temperatura do oceano em relação à média. O episódio atual pode chegar a uma condição considerada muito forte, com temperaturas mais de 2°C acima da média no Pacífico Equatorial.
MS pode ter comportamentos diferentes entre as regiões
Os efeitos do El Niño não devem ser iguais em todo o estado. Segundo Rodrigues, a região sul de Mato Grosso do Sul tende a apresentar um comportamento mais próximo ao dos estados do Sul do país, com maior ocorrência de chuvas.
Já a região central e o Pantanal podem enfrentar maior frequência de ondas de calor. O pesquisador também aponta tendência de períodos mais secos na parte norte do estado. “A tendência é que tenha um pouco mais de chuvas no sul do estado. Na região central e no Pantanal, a tendência é que aumente a ocorrência de ondas de calor.”
Essa diferença regional pode trazer impactos distintos para a população e para as atividades econômicas. Enquanto o excesso de chuva pode provocar alagamentos e danos à infraestrutura, períodos prolongados de calor e estiagem aumentam a preocupação com queimadas e problemas relacionados à baixa umidade.
Chuva concentrada também preocupa agricultura
Para um estado com forte participação da agricultura, a irregularidade das chuvas é um dos pontos de atenção.
Rodrigues explica que o problema não está apenas no volume total de chuva, mas também na forma como ela é distribuída ao longo do tempo. Um período prolongado de estiagem seguido por grandes volumes em poucos dias pode prejudicar a produção. “Às vezes, ele precisa de lá 200 milímetros de chuva, mas ele prefere esses 200 milímetros de chuva espalhado ao longo de duas, três semanas.”
Segundo o professor, quando o mesmo volume ocorre em apenas dois dias, o produtor pode enfrentar excesso de água em um primeiro momento e passar o restante do mês novamente sem chuva.
Calor e baixa umidade também afetam a saúde
As ondas de calor são outro ponto de atenção, principalmente para grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos.
O pesquisador explica que uma onda de calor é caracterizada por temperaturas cerca de 5°C acima da média durante um período de três a cinco dias. Em situações assim, a combinação entre temperaturas elevadas e baixa umidade pode aumentar os problemas respiratórios. “Quando você está fazendo atividade ao ar livre, tem que evitar atividade ao ar livre nesses períodos.”
A atmosfera mais seca e quente também pode favorecer a ocorrência de queimadas, o que agrava os impactos sobre a qualidade do ar e a saúde da população.
Eventos extremos exigem preparação
Apesar da influência do El Niño, Rodrigues ressalta que não é possível atribuir diretamente cada tempestade, onda de calor ou período de estiagem ao fenômeno.
Segundo ele, a ocorrência de eventos extremos depende da combinação de diferentes fatores atmosféricos. O El Niño, nesse contexto, aumenta a probabilidade de determinadas condições.
Por isso, a população deve acompanhar as previsões meteorológicas de curto prazo e evitar exposição desnecessária durante eventos extremos.
O pesquisador também defende uma atuação conjunta entre órgãos públicos, Defesa Civil, meteorologistas e pesquisadores para identificar áreas de risco e comunicar a população com antecedência. “É preciso um trabalho conjunto e contínuo.”
Para Rodrigues, o monitoramento pode ajudar municípios e moradores a se prepararem para situações como alagamentos, deslizamentos e tempestades, reduzindo os impactos sobre a população.
Mudanças climáticas já fazem parte da realidade
O professor também relacionou o debate sobre o El Niño às mudanças climáticas e ao aumento da frequência de eventos extremos.
Segundo ele, discussões que durante décadas foram tratadas como uma possibilidade futura já fazem parte da realidade atual. “Nós já estamos nesse futuro. Antes era assim, se nós fizermos alguma coisa agora, talvez não aconteça. Agora já está acontecendo.”
Na avaliação do pesquisador, a tendência é que eventos extremos se tornem cada vez mais frequentes, o que reforça a necessidade de preparação por parte da população e do poder público.
Confira a entrevista completa:
















