Carregando…

Compartilhe

Ruptura com Portugal envolveu disputas políticas, guerras e participação de diferentes grupos; Bahia foi palco de confrontos decisivos para consolidar a separação

A Independência do Brasil, celebrada nesta segunda-feira (7), não aconteceu de uma só vez nem pode ser resumida ao famoso grito atribuído a Dom Pedro às margens do Riacho do Ipiranga, em São Paulo. A ruptura com Portugal foi resultado de um processo político e militar que começou anos antes de 1822 e se prolongou até 1823, quando as últimas forças portuguesas foram derrotadas em importantes regiões do país.

O episódio de 7 de setembro tornou-se o principal símbolo da separação, mas a construção do Brasil independente envolveu a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, mudanças na relação entre Brasil e Portugal, disputas entre as Cortes portuguesas e o príncipe regente Dom Pedro, além de conflitos armados em diferentes províncias.

A trajetória também contou com a atuação de personagens que ficaram em segundo plano na representação tradicional da Independência, como Maria Leopoldina e José Bonifácio, além da participação de soldados, mulheres, negros, indígenas e outros grupos envolvidos nos conflitos que ocorreram principalmente no Norte e no Nordeste.

A chegada da corte portuguesa

O processo que levaria à Independência ganhou força a partir de 1807, quando as tropas de Napoleão Bonaparte avançavam sobre a Península Ibérica. Diante da ameaça de invasão de Portugal, o príncipe regente Dom João decidiu transferir a corte portuguesa para o Brasil.

A família real chegou ao Rio de Janeiro em 1808 acompanhada por integrantes da corte e funcionários da administração portuguesa. A mudança alterou profundamente a estrutura política e econômica da colônia.

Com a presença da monarquia no Rio, instituições que antes estavam concentradas em Lisboa passaram a funcionar no Brasil. Portos foram abertos ao comércio com outras nações e a cidade se transformou no centro das decisões do Império português.

A permanência da corte também contribuiu para mudar a posição do Brasil dentro do sistema colonial. Em 1815, Dom João elevou o território à condição de Reino do Brasil, que passou a integrar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

A medida retirou formalmente o Brasil da condição de colônia, mas não eliminou as tensões entre interesses brasileiros e portugueses.

A Revolução Liberal do Porto muda o cenário

A situação começou a mudar novamente em 1820, quando uma revolução liberal eclodiu na cidade do Porto, em Portugal. Os revolucionários defendiam, entre outras medidas, o retorno do rei e a convocação de Cortes para elaborar uma Constituição.

Dom João VI, que havia sucedido a própria mãe, Dona Maria I, decidiu retornar a Portugal em 1821. Antes de partir, deixou no Brasil o filho, Dom Pedro, como príncipe regente.

As Cortes portuguesas passaram então a exigir o retorno de Dom Pedro e a adoção de medidas que, aos olhos de setores políticos brasileiros, representavam uma tentativa de reduzir a autonomia adquirida pelo Brasil desde a chegada da corte.

O confronto político se intensificou.

O Dia do Fico

Em janeiro de 1822, Dom Pedro recebeu ordens para retornar a Portugal. A permanência do príncipe no Brasil passou a ser defendida por grupos que temiam a perda da autonomia conquistada nos anos anteriores.

Em 9 de janeiro, Dom Pedro anunciou que permaneceria no país. O episódio ficou conhecido como Dia do Fico.

A decisão foi um dos principais marcos do processo de ruptura. Pouco depois, José Bonifácio de Andrada e Silva assumiu papel central no governo e passou a atuar na articulação política que levaria à Independência.

Segundo registros da cronologia oficial do governo federal, Dom Pedro recebeu apoio de milhares de pessoas que pediam sua permanência e, posteriormente, assumiu o título de defensor perpétuo e protetor do Brasil.

A relação com Portugal, porém, continuava se deteriorando.

José Bonifácio e Maria Leopoldina

A narrativa tradicional costuma colocar Dom Pedro como protagonista quase exclusivo da Independência. A historiografia, entretanto, mostra que a ruptura foi construída por diferentes atores.

José Bonifácio teve papel importante na organização política do movimento. Ministro do príncipe regente, ele defendia a manutenção da unidade territorial do Brasil e trabalhou para consolidar o apoio das províncias ao governo instalado no Rio de Janeiro.

Maria Leopoldina, esposa de Dom Pedro, também desempenhou papel relevante. Em setembro de 1822, enquanto o príncipe estava em viagem a São Paulo, ela presidiu uma reunião do Conselho de Estado no Rio de Janeiro diante do agravamento da crise com Portugal.

Na ocasião, foram analisadas as novas determinações das Cortes portuguesas. A situação indicava que uma ruptura definitiva estava próxima.

Documentos oficiais preservados pelo governo federal registram que, em 2 de setembro de 1822, Leopoldina participou das decisões políticas tomadas no Rio enquanto Dom Pedro estava em São Paulo.

O 7 de setembro

Dias depois, Dom Pedro recebeu as notícias enquanto retornava de São Paulo para o Rio de Janeiro.

Em 7 de setembro de 1822, às margens do Riacho do Ipiranga, o príncipe declarou a separação do Brasil de Portugal. O episódio ficou conhecido como o Grito do Ipiranga, associado à frase “Independência ou Morte”.

A data se tornou o principal símbolo da Independência brasileira.

Mas a cena reproduzida durante décadas em livros escolares e obras de arte não corresponde necessariamente à realidade cotidiana daquele momento.

O quadro Independência ou Morte, pintado por Pedro Américo décadas depois, em 1888, apresenta Dom Pedro em um cavalo imponente, cercado por soldados em uma composição grandiosa. A imagem ajudou a consolidar uma representação heroica do episódio.

A realidade teria sido bem menos cinematográfica.

A viagem de Dom Pedro ocorreu em condições difíceis, por caminhos precários. A tradição histórica que contesta a representação de Pedro Américo aponta que o príncipe teria viajado em uma mula, e não no cavalo retratado na pintura.

A obra, portanto, deve ser entendida também como uma representação artística e política construída posteriormente, e não como uma fotografia do momento da Independência.

O Brasil ainda não estava completamente independente

A declaração feita por Dom Pedro em setembro de 1822 não significou que todas as regiões brasileiras passaram imediatamente a reconhecer o novo governo.

Em diferentes províncias, tropas portuguesas permaneceram mobilizadas e houve confrontos entre grupos favoráveis a Portugal e defensores da separação.

A situação foi especialmente grave na Bahia, onde os conflitos começaram antes mesmo do 7 de setembro e continuaram por meses.

O Arquivo Nacional destaca que o processo ocorreu de maneiras diferentes em cada província. Enquanto algumas regiões aderiram rapidamente ao governo de Dom Pedro, outras enfrentaram guerras prolongadas e só reconheceram a autoridade do novo Império posteriormente.

A guerra na Bahia

A Bahia se tornou um dos principais campos de batalha da Independência.

Em fevereiro de 1822, a nomeação do general português Inácio Luís Madeira de Melo para comandar as tropas em Salvador provocou resistência. A tensão cresceu e parte da população e das tropas brasileiras deixou a capital em direção ao Recôncavo.

Os conflitos se intensificaram nos meses seguintes.

Em 25 de junho de 1822, a Vila de Cachoeira declarou apoio à causa de Dom Pedro. A partir dali, a região se tornou um dos centros da resistência às forças portuguesas.

A guerra envolveu Salvador, o Recôncavo e outras áreas da província e reuniu diferentes grupos sociais. Entre os personagens associados à luta estão Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa, além de militares como Pedro Labatut e Joaquim José de Lima e Silva.

Os combates prosseguiram durante meses.

Em 2 de julho de 1823, as tropas portuguesas comandadas por Madeira de Melo deixaram Salvador. A data passou a representar, na Bahia, a consolidação da Independência e permanece celebrada todos os anos.

O governo federal registra que, além da Bahia, os conflitos continuaram em outras regiões. As tropas portuguesas se renderam no Maranhão em julho de 1823, enquanto o Pará teve sua adesão ao governo imperial consolidada em agosto daquele ano.

Uma independência com diferentes interesses

A Independência não foi um movimento uniforme. Diferentes grupos tinham interesses distintos sobre o futuro do território.

Parte das elites econômicas defendia a ruptura com Portugal para ampliar a autonomia política e econômica do Brasil. Outros grupos buscavam preservar estruturas sociais existentes, inclusive a escravidão.

Na Bahia, documentos históricos mostram que a guerra envolveu uma sociedade marcada pela presença de escravizados, libertos, pessoas livres pobres e diferentes grupos políticos. A preocupação das elites com possíveis revoltas sociais esteve presente durante o conflito.

Por isso, a separação política de Portugal não significou uma transformação imediata da estrutura social brasileira.

O novo país manteve a monarquia e preservou a escravidão, que continuaria existindo por mais de seis décadas, até a abolição em 1888.

O nascimento do Império

Depois da declaração de Independência, Dom Pedro foi aclamado imperador do Brasil em 12 de outubro de 1822 e coroado em dezembro daquele ano.

O novo país ainda precisava consolidar sua autoridade sobre o território e organizar suas instituições.

As guerras continuaram em diferentes regiões ao longo de 1823. Por isso, historiadores tratam a Independência como um processo, e não como um acontecimento encerrado no dia 7 de setembro.

O próprio governo brasileiro registra, em sua cronologia oficial, acontecimentos militares posteriores à proclamação, como a retirada das tropas portuguesas da Bahia em 2 de julho, a rendição no Maranhão em 28 de julho e a capitulação das forças portuguesas no Pará em agosto de 1823.

Por que o 7 de setembro se tornou a principal data?

A escolha do 7 de setembro como símbolo nacional está relacionada à construção da memória da Independência ao longo do século 19.

O episódio do Ipiranga oferecia uma narrativa simples e poderosa: um príncipe que rompe com Portugal e proclama a liberdade do Brasil.

A imagem foi reforçada pela pintura de Pedro Américo, produzida décadas depois, e por outras representações que ajudaram a transformar Dom Pedro em personagem central da memória nacional.

Isso não significa, porém, que a data não tenha importância histórica. O 7 de setembro marcou uma decisão política fundamental e acelerou a ruptura com Portugal

Os comentários a seguir não representam a opinião do Portal Total News

Deixe um comentário