Infecção pode causar síndrome respiratória grave, tem alta taxa de mortalidade e voltou a chamar atenção após mortes registradas em navio no Atlântico Sul
Uma doença rara, de rápida evolução e com alta taxa de mortalidade voltou a chamar atenção das autoridades sanitárias internacionais nas últimas semanas. A Organização Mundial da Saúde investiga a possível transmissão de hantavírus entre passageiros do navio holandês MV Hondius, após três mortes registradas durante uma viagem pelo Atlântico Sul.
Apesar de considerada incomum, a hantavirose preocupa especialistas devido à gravidade dos casos e à dificuldade de diagnóstico inicial, já que os sintomas podem ser confundidos com gripe, dengue, leptospirose, covid-19 e outras doenças respiratórias.
No Brasil, a doença é monitorada pelo Ministério da Saúde desde os anos 1990 e possui maior concentração de casos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul.
A hantavirose é uma zoonose viral aguda causada por vírus da família Hantaviridae, transmitidos principalmente por roedores silvestres infectados. Esses animais eliminam o vírus por meio da urina, saliva e fezes, sem desenvolver a doença.
A infecção humana ocorre, na maior parte das vezes, pela inalação de partículas contaminadas suspensas no ar. Isso pode acontecer durante a limpeza de locais fechados, galpões, depósitos, celeiros, casas abandonadas ou ambientes com presença de fezes de roedores.
O Ministério da Saúde alerta que o risco aumenta em áreas rurais, regiões de desmatamento e locais próximos a plantações, onde há maior circulação desses animais.
Embora rara, a transmissão também pode ocorrer por mordidas de roedores ou pelo contato das mãos contaminadas com olhos, nariz e boca. Casos de transmissão entre pessoas foram registrados apenas de forma esporádica na Argentina e no Chile, associados ao hantavírus Andes.
No Brasil, a forma mais grave da doença é chamada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), quadro que pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória severa e choque cardiovascular.
Os primeiros sintomas costumam surgir entre uma e cinco semanas após a infecção, mas o período pode variar de três a 60 dias.
Na fase inicial, os sinais se parecem com os de uma virose comum: febre alta, dores musculares, dor nas articulações, dor de cabeça, mal-estar intenso, dores abdominais e sintomas gastrointestinais.
O problema é que a doença pode avançar rapidamente.
Na fase cardiopulmonar, o paciente passa a apresentar dificuldade para respirar, respiração acelerada, tosse seca, queda de pressão arterial e aumento dos batimentos cardíacos.
Em casos graves, ocorre acúmulo de líquido nos pulmões, insuficiência respiratória aguda e necessidade imediata de internação em terapia intensiva.
Segundo o Ministério da Saúde, a taxa média de letalidade da hantavirose no Brasil é de aproximadamente 46,5%, uma das mais altas entre doenças infecciosas monitoradas no país.
A maioria dos pacientes precisa de hospitalização e suporte intensivo.
Não existe tratamento específico contra o hantavírus. O atendimento é baseado em medidas de suporte clínico para estabilizar a respiração, a circulação sanguínea e o funcionamento dos órgãos.
Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, maiores são as chances de sobrevivência.
O transporte de pacientes graves exige monitoramento médico contínuo, controle cardiovascular e suporte ventilatório adequado, já que a evolução da doença costuma ser rápida.
O diagnóstico laboratorial é realizado em centros de referência da rede pública de saúde. Os exames incluem sorologia, testes moleculares e análise de tecidos em casos de óbito.
Como os sintomas podem ser confundidos com outras doenças, médicos também fazem diagnóstico diferencial com dengue, leptospirose, influenza, febre amarela, pneumonias, malária e covid-19.
As autoridades de saúde reforçam que a principal forma de prevenção é evitar contato com roedores silvestres e seus excrementos.
A recomendação é manter terrenos limpos, armazenar alimentos em recipientes fechados, evitar acúmulo de lixo, vedar frestas em casas e galpões e eliminar locais que possam servir de abrigo para os animais.
Em locais fechados por muito tempo, como sítios, cabanas e depósitos, a orientação é abrir portas e janelas antes da limpeza e utilizar equipamentos de proteção individual, como máscaras e luvas.
Varrer fezes secas ou poeira sem proteção pode espalhar partículas contaminadas pelo ar e aumentar o risco de infecção.
Trabalhadores rurais, profissionais da saúde e equipes de investigação epidemiológica estão entre os grupos mais expostos ao vírus.
O Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras PFF3, luvas, aventais e óculos de proteção em situações de possível contato com ambientes contaminados.
A doença é de notificação compulsória imediata no Brasil. Isso significa que qualquer caso suspeito deve ser comunicado às autoridades de saúde em até 24 horas.
Especialistas alertam que as mudanças ambientais também têm influência direta no aumento dos casos. O avanço do desmatamento, a expansão urbana sobre áreas rurais e o crescimento agrícola aproximam humanos dos habitats naturais dos roedores silvestres.
Apesar da preocupação internacional após os casos registrados no navio MV Hondius, a Organização Mundial da Saúde afirma que o risco para a população geral permanece baixo e, até o momento, não há recomendação de restrição de viagens.
Foto: CDC/Cynthia Goldsmith























