De uma infância marcada pela pobreza à liderança de uma pasta estadual dedicada às políticas de cidadania, a trajetória da secretária de Estado de Cidadania de Mato Grosso do Sul, Viviane Luiza da Silva, é atravessada por desafios pessoais, acadêmicos e profissionais. Em entrevista à Total News, concedida na sede da secretaria, ela falou sobre origem, formação, experiências de violência de gênero e as políticas públicas voltadas às mulheres e grupos sociais no estado.
Filha de mineiros e criada em situação de vulnerabilidade social, Viviane conta que chegou a Mato Grosso do Sul ainda criança, após a transferência do pai para trabalhar no banco. A família se estabeleceu na periferia de Campo Grande.
“Eu vim de uma família extremamente pobre. A minha mãe cozinhava em latas de sardinha porque ela não tinha fogão e nem gás”, relatou.
Segundo ela, as dificuldades marcaram a infância e adolescência. Moradora do Conjunto Rouxinol por mais de duas décadas, a secretária diz que desde cedo teve contato com a ausência de políticas públicas em regiões periféricas.
“Eu sempre vivenciei essa dificuldade de chegar às políticas públicas para as pessoas que mais precisavam”, afirmou.
Viviane começou a trabalhar aos 14 anos e, aos 18, foi emancipada. A educação, segundo ela, apareceu como o principal caminho de transformação. Formada em História pela Universidade Católica Dom Bosco, ela seguiu carreira acadêmica na área de cultura e povos tradicionais.
“Eu entendi que era através da educação que eu poderia acessar outras oportunidades”, disse.
Durante a graduação, conseguiu uma bolsa de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e passou a atuar no Museu Dom Bosco, inicialmente na área de arqueologia e depois na etnografia.
Posteriormente, encontrou na etnografia o campo que despertou seu interesse profissional. “Foi onde o meu coração falou: ‘É aqui que você deveria trabalhar’.”
A atuação com povos indígenas marcou sua trajetória acadêmica. Anos depois, ela foi convidada para colaborar com um projeto no museu de Viena voltado à catalogação de objetos indígenas brasileiros. Também cursou mestrado em desenvolvimento local e iniciou um doutorado em antropologia na Universidade de Manitoba, no Canadá.
Viviane afirma que o percurso acadêmico foi marcado por dificuldades financeiras e momentos de dúvida. Em uma dessas ocasiões, pensou em abandonar a faculdade, mas recebeu um conselho da mãe que considera decisivo.
“Ela falou: ‘O carro vermelho é como se fosse uma oportunidade que às vezes você deixa passar e não está vendo. E a faculdade é o seu carro vermelho. Não desista’.”
Após dez anos vivendo no exterior, entre Canadá e Estados Unidos, ela retornou ao Brasil em dezembro de 2022, após convite do governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP).
Inicialmente, a Cidadania fazia parte de uma secretaria mais ampla, que reunia também Turismo, Cultura e Esporte. Em 2024, a pasta foi reestruturada e passou a funcionar de forma independente.
Segundo Viviane, a criação da secretaria exclusiva representou um avanço institucional. “Foi quando nós viemos como uma secretaria de dedicação exclusiva, a primeira do país, para os cidadãos e cidadãs sul-mato-grossenses”.
Ela afirma que assumir o cargo trouxe um sentimento de responsabilidade social. “Eu vivo esse sentimento até hoje de que estou no lugar onde é possível mudar pelo menos um pouquinho a vida de algumas pessoas”.
Mãe solo de um menino de 12 anos, a secretária relata que fez questão de levar o filho na cerimônia de posse. “Eu fiz questão de levar meu filho porque ali estavam as minhas raízes, o meu fruto”.
Ao falar sobre os desafios enfrentados pelas mulheres, Viviane destacou que a desigualdade de gênero ainda se manifesta em diferentes espaços sociais, como família, trabalho e política. “Eu gostaria de entender qual foi a mulher que nunca sofreu nenhum tipo de violência no mundo”, afirmou.
A secretária também citou dados que apontam desigualdades estruturais. Segundo ela, as mulheres estudam mais que os homens, mas continuam recebendo salários menores. “Nós mulheres precisamos sempre mostrar que somos competentes. A gente trabalha mais, estuda mais”.
Na secretaria, as políticas públicas são estruturadas a partir de diferentes recortes sociais. Segundo Viviane, a pasta atua em oito áreas principais: mulheres, igualdade racial, povos originários, população LGBTQIA+, pessoas com deficiência, idosos, juventude e comunidades periféricas.
Entre as iniciativas citadas está o programa Protege, voltado à prevenção e ao enfrentamento da violência contra mulheres. A proposta envolve ações nas áreas de segurança, autonomia e educação.
“O programa Protege vem para estruturar esse sistema de governança”, explicou.
A iniciativa prevê a adesão de municípios e a elaboração de planos de metas locais para o enfrentamento da violência. De acordo com a secretária, mais de 40 cidades já aderiram ao programa.
Outro projeto destacado é a formação de grêmios estudantis com foco na prevenção da violência de gênero. A proposta envolve capacitação de estudantes e repasse de recursos para projetos nas escolas.
“Muitas meninas identificaram que os seus namorados estavam sendo violentos com elas ou que a mãe estava sofrendo violência”, afirmou.
A secretaria também desenvolve programas voltados à inclusão digital de idosos e ações de combate ao racismo, como o programa MS Sem Racismo, que inclui pela primeira vez políticas específicas para comunidades ciganas no estado.
Para Viviane, a Cidadania envolve a construção coletiva de uma sociedade baseada em direitos e respeito.
Ao final da entrevista, a secretária deixou uma mensagem para as mulheres no contexto do Dia Internacional da Mulher.
“‘O lugar da mulher é onde ela quiser’, mas para ela estar nesse lugar é preciso que a sociedade garanta o respeito e os direitos de todas as mulheres”.
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