Na sexta-feira, 13 de março de 2026, dentro de um salão de hotel em Austin, Texas, aconteceu um velório incomum. Amy Webb, a futurista mais influente do circuito corporativo global, fundadora do Future Today Strategy Group, consultora de empresas como Mastercard, Ford e NASA, vestiu uma capa preta, acendeu velas e conduziu um funeral. O defunto não era uma pessoa. Era o relatório anual de tendências tecnológicas que ela mesma criou em 2008 e que, por quase duas décadas, foi baixado mais de um milhão de vezes por ano. Na mesma semana, do outro lado do país, a Meta anunciou o encerramento definitivo do Horizon Worlds, o coração da sua aposta no metaverso, um projeto que consumiu mais de 70 bilhões de dólares e que, agora, tem data para sair do ar: 15 de junho de 2026.
Dois eventos aparentemente desconectados. Mas que, lidos em conjunto, dizem mais sobre o momento civilizatório que estamos vivendo do que qualquer previsão jamais conseguiu dizer.
O que morreu de verdade
O que Amy Webb enterrou no SXSW não foi um produto editorial. Foi uma forma de pensar. A lógica dos relatórios de tendências pertence a um mundo onde as mudanças chegavam em fila, uma tecnologia emergia, ganhava tração, transformava um mercado, e só então a próxima entrava na agenda. Nesse mundo, fazia sentido compilar uma lista, publicar um PDF e entregar aos executivos um cardápio organizado de “coisas para ficar de olho”.
Esse mundo já não existe.
O que Webb propôs em seu lugar é um conceito que ela chamou de Convergence Outlook, uma estrutura analítica que parte de uma premissa radicalmente diferente: as transformações mais consequentes da próxima década não virão de nenhuma tendência isolada, mas da colisão simultânea de forças tecnológicas, econômicas, geopolíticas e comportamentais que se aceleram mutuamente. Inteligência artificial, biotecnologia, fluxos de capital, pressões geopolíticas e mudanças culturais não se movem mais em sequência. Movem-se em convergência.
Nas palavras que definiriam a tônica da apresentação: tendências dizem o que está mudando; convergências dizem o que se tornará inevitável.
O metaverso como estudo de caso
A derrocada do Horizon Worlds é o exemplo mais caro e mais visível do que acontece quando se confunde uma tendência com uma convergência. Em 2021, Mark Zuckerberg apostou que o futuro da interação humana seria um mundo virtual imersivo. Renomeou a empresa. Investiu bilhões. Declarou publicamente que, em poucos anos, as pessoas veriam o Facebook como “uma empresa de metaverso”.
Quatro anos depois, o Reality Labs acumula prejuízos da ordem de 19 bilhões de dólares apenas em 2025. As vendas globais de headsets de realidade virtual caíram por três anos consecutivos. O Horizon Worlds, que deveria ser o coração pulsante da nova era, será removido dos headsets Quest em junho. O futuro que Zuckerberg imaginou com avatares toscos vagando por ambientes digitais de qualidade inferior à de qualquer jogo de videogame moderno, simplesmente não correspondeu a nenhuma necessidade real das pessoas.
O metaverso não falhou porque a tecnologia era ruim. Falhou porque era uma tendência que se apresentava como convergência. Uma visão de futuro que carecia de validação real de mercado, de demanda orgânica e de entregas concretas de experiência. Era, no fundo, uma projeção especulativa vestida de inevitabilidade.
Enquanto isso, na mesma empresa, os óculos inteligentes Ray-Ban Meta, um produto simples, tangível, que resolve problemas reais, cresceram silenciosamente até se tornarem o caso de sucesso que o metaverso jamais foi.
A falácia do futurismo espetacular
Há algo profundamente revelador no fato de que uma das maiores futuristas do mundo tenha encenado o enterro do seu próprio instrumento mais famoso. É uma admissão corajosa, e necessária, de que o formato das previsões anuais havia se tornado, ele próprio, uma espécie de teatro corporativo. Um ritual reconfortante para executivos que preferem listas organizadas a enfrentar a bagunça real da mudança simultânea.
E aqui está o ponto que precisa ser dito com clareza: prever o futuro é, em última análise, um exercício de vaidade intelectual, seja na astrologia, seja no futurismo de palco. A diferença entre um astrólogo e um futurista corporativo é, muitas vezes, apenas o preço do ingresso. Ambos oferecem narrativas sedutoras sobre o que virá. Ambos são, na essência, inócuos diante da complexidade real dos sistemas que pretendem decifrar.
Isso não significa que projetar cenários futuros seja inútil. Significa que projeções sérias exigem metodologias e modelos que vão muito além da imaginação alucinogênica de quem sobe ao palco. Exigem dados. Exigem equivalências factíveis, não meramente factuais, mas logicamente sustentáveis. Exigem a humildade de reconhecer que o futuro não é um destino a ser revelado, mas um campo de possibilidades a ser mapeado com rigor.
De tendências a convergências: o que muda na prática
O que Amy Webb propôs como substituto não é apenas uma mudança de vocabulário. É uma mudança epistemológica. As dez convergências que ela mapeou, Compute Shock, Programmable Biology, Polycompute, Emotional Outsourcing, Autonomous Care, The Corporate Panopticon, The New Labor Equation, Human Augmentation, Agentic Economy e Living Intelligence, não são previsões. São diagnósticos de colisões já em curso.
Tomemos o exemplo da Human Augmentation: interfaces cérebro-computador, edição genética, próteses cognitivas. Nenhuma dessas tecnologias é nova isoladamente. O que é novo é sua convergência simultânea com sistemas de inteligência artificial, com pressões de mercado de trabalho, com políticas públicas de saúde e com questões éticas que os marcos legais existentes sequer começaram a endereçar. A questão já não é “quando isso vai acontecer”. A questão é: quando essas forças se encontrarem — e elas já estão se encontrando —, quem estará preparado para as consequências?
Ou tomemos a Emotional Outsourcing: a solidão transformada em mercado. A infraestrutura que define como as pessoas sentem antes mesmo de pensar está sendo, silenciosamente, privatizada. Não é uma tendência que se possa colocar numa lista. É um processo sistêmico que só se torna visível quando se olha para a interseção entre tecnologia, saúde mental, modelos de negócio e economia da atenção.
O que isso significa para o Brasil, e para quem faz CT&I
Para quem acompanha políticas de ciência, tecnologia e inovação no Brasil, esses dois eventos oferecem uma lição que deveria ser lida como urgente.
Nosso ecossistema de CT&I ainda opera, em grande medida, na lógica das tendências: editais temáticos para tecnologias da moda, políticas reativas a ciclos de hype, e uma fascinação persistente por rótulos, “a era da IA”, “a revolução 4.0”, “o metaverso educacional”, que frequentemente se esgotam antes de produzirem resultados tangíveis.
A mudança de paradigma que Webb propõe, e que a própria realidade já impôs à Meta, deveria nos fazer repensar como formulamos políticas públicas de inovação. Não se trata mais de apostar em qual será “a próxima grande tecnologia”. Trata-se de construir capacidades institucionais para navegar ambientes de mudança simultânea. Trata-se de formar pessoas que pensem em sistemas, não em modismos. E, sobretudo, trata-se de exigir, de quem toma decisões e de quem as assessora, menos futurologia e mais método.
A tecnologia que importa não se mede mais por tendências. Mede-se por convergências. Não se mede por promessas, mas por entregas concretas de experiência com impacto na vida das pessoas. E a diferença entre quem entende isso e quem ainda está folheando relatórios de tendências em PDF é, cada vez mais, a diferença entre quem lidera e quem assiste.
O enterro em Austin foi simbólico. O enterro de 70 bilhões de dólares em Menlo Park foi literal. Juntos, eles nos dizem que o tempo das tendências acabou. O tempo das convergências já começou. E quem não ajustar a lente vai continuar enxergando o futuro com a nitidez de quem lê horóscopo.
















