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márcio pereira - atualizado certo

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Quatro trilhões de dólares. Esse é o valor atual estimado da bioeconomia global, segundo o World Bioeconomy Forum. A projeção do Boston Consulting Henderson Institute é mais vertiginosa: trinta trilhões de dólares até 2050, o equivalente a cerca de um terço do PIB mundial projetado. No Brasil, a Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) calcula que a bioeconomia poderia gerar até 592,6 bilhões de dólares por ano até 2050, com potencial de reduzir 29 bilhões de toneladas de CO2 equivalente no período.

No mesmo instante em que esse mercado se estrutura, Mato Grosso do Sul detém dois terços do bioma mais preservado do Brasil, com 93,7% das espécies de sua fauna classificadas pelo ICMBio como de baixa preocupação de extinção, índice superior ao da própria Amazônia. A pergunta que precisa ser feita, com o rigor analítico que o tema exige, é desconfortável: quanto desse trilhão MS captura hoje?

A resposta honesta é: pouco. E o motivo não está na biodiversidade disponível. Está na forma como se enxerga o Pantanal.

O Pantanal como paisagem, e o que essa narrativa invisibiliza

O Pantanal é, por mérito próprio, um dos maiores cartões-postais do planeta. O Bioparque Pantanal, em Campo Grande, celebrou recentemente quatro anos de operação como o maior aquário de água doce do mundo, recebendo mais de 1,5 milhão de visitantes oriundos de mais de 140 países e constituindo o maior banco genético vivo de ictiofauna de água doce já registrado, com reprodução de mais de 100 espécies, incluindo ameaçadas como o cascudo-viola. Bonito consolidou-se como referência internacional em turismo de natureza. A Lei do Pantanal, sancionada em MS, e o programa MS Carbono Neutro 2030 posicionam o estado entre os mais avançados do país em governança ambiental.

Não há, neste texto, qualquer tese contra o turismo. A economia da contemplação gera emprego, renda, visibilidade internacional e constitui, por si, uma forma legítima e sofisticada de valoração da biodiversidade. O ponto é outro: o turismo é uma das camadas possíveis de captura de valor da biodiversidade, não a única, e certamente não a de maior densidade tecnológica. O que a narrativa dominante tende a invisibilizar é a camada científica, molecular, computacional e de propriedade intelectual. É precisamente nessa camada que se joga o trilhão.

A biodiversidade como biblioteca molecular, não apenas como paisagem

Cada hectare preservado do Pantanal contém, em termos biológicos, uma biblioteca. Microrganismos, fungos, plantas medicinais, insetos, peixes e compostos bioativos compõem um acervo genético cujo valor comercial e científico cresce exponencialmente à medida que as tecnologias de sequenciamento, bioinformática e biologia sintética se tornam mais baratas, rápidas e acessíveis.

Esse acervo não é metáfora. É matéria-prima de quatro indústrias em expansão global: a farmacêutica, que busca novos compostos bioativos para terapias; a cosmética, que incorpora princípios ativos naturais em produtos de alto valor agregado; a agricultura de precisão, que depende de microrganismos endofíticos, bioinsumos e controle biológico; e a biotecnologia industrial, que substitui insumos petroquímicos por equivalentes bio-based. Pesquisadores vinculados à UFMS catalogaram, recentemente, 123 novos registros de peixes apenas na bacia do alto rio Paraguai, com 50 espécies inéditas para a ciência. Cada uma dessas espécies é, potencialmente, uma sequência genética, um composto novo ou uma solução biotecnológica ainda não documentada.

A pergunta estrutural, portanto, deixa de ser quanto turismo o Pantanal pode gerar e passa a ser quantas moléculas, sequências genéticas e ativos de propriedade intelectual nascem do Pantanal e permanecem em MS.

A lição da Costa Rica: o pioneirismo do INBio e o aprendizado pelo seu colapso

Qualquer estratégia séria de bioeconomia tropical precisa estudar o Instituto Nacional de Biodiversidade da Costa Rica, o INBio, fundado em 1989. Foi a primeira instituição do mundo dedicada integralmente a inventariar, conhecer e utilizar comercialmente a biodiversidade de um país. Celebrizou-se, em 1991, pelo acordo histórico com a farmacêutica Merck, pelo qual recebeu um milhão de dólares adiantados, treinamento científico e promessa de royalties em troca de acesso a extratos naturais. Ao longo de mais de duas décadas, inventariou milhões de espécimes, criou o parque temático INBioparque, estabeleceu parcerias com universidades internacionais e se tornou a principal referência global em bioprospecção.

O final, porém, é pedagógico. Em 2015, o INBio foi absorvido financeiramente pelo Estado costarriquenho, após anos de insolvência crescente. O acordo com a Merck foi descontinuado sem nunca ter gerado um blockbuster farmacêutico. Os royalties prometidos não vieram. Segundo reportagens internacionais, a Costa Rica jamais capturou dos recursos genéticos mais do que uma fração modesta do que obtém com a exportação de café.

A lição não é que a bioeconomia não funciona. A lição é precisa e estrutural: bioprospecção sem ancoragem universitária estável, sem política pública sustentada e sem capacidade própria de geração de propriedade intelectual é um modelo financeiramente frágil. Contratos com farmacêuticas globais são longos, incertos e dependem de capacidade técnica que o país hospedeiro precisa acumular internamente. Sem essa espinha dorsal científica local, o valor escorre para fora. O conhecimento nasce no território e é convertido em produto, patente e receita em outro continente.

Essa é, reconheça-se, a armadilha clássica do ciclo extrativo que já atravessou a história econômica brasileira: exportar matéria-prima, seja uma tonelada de celulose, um quilo de minério de terra rara, uma saca de soja ou uma amostra de princípio ativo tropical, e importar de volta o conhecimento agregado na forma de produto final, com margem capturada fora do país.

O novo tabuleiro global: o Fundo Cali e a precificação da informação genética digital

Em 25 de fevereiro de 2025, em Roma, foi lançado o Fundo Cali, instrumento financeiro multilateral derivado da COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica. Pela primeira vez na história da CDB, empresas de setores que utilizam comercialmente informações de sequência digital de recursos genéticos (DSI, na sigla em inglês) passam a ser chamadas a contribuir com 1% de seus lucros ou 0,1% de sua receita para um mecanismo multilateral de repartição de benefícios. Pelo menos 50% desses recursos serão direcionados a povos indígenas e comunidades locais, reconhecidos como guardiães da biodiversidade.

Os setores diretamente afetados incluem o farmacêutico, o cosmético, a biotecnologia agrícola e a biotecnologia industrial. O Fundo Cali marca uma mudança de paradigma de grande magnitude: a biodiversidade deixa de ser tratada como recurso de acesso aberto sem contrapartida e passa a ter fluxo financeiro institucionalizado vinculado ao seu uso digital. Países, estados e regiões que estruturarem capacidade de gerar, analisar, armazenar e rastrear DSI terão acesso diferenciado a financiamento internacional, parcerias científicas e mecanismos de repartição de benefícios.

É aqui que a biodiversidade do Pantanal deixa de ser passivo ambiental e assume seu lugar verdadeiro: ativo estratégico mensurável, rastreável e financiável dentro da arquitetura global de biodiversidade instituída em 2024 e 2025. Mas acessar esse tabuleiro exige infraestrutura científica e institucional que MS ainda não construiu.

O que MS já tem, e o que ainda falta

O estado parte de uma base real e não desprezível. A Lei do Pantanal institui pagamento por serviços ambientais e organiza a governança em sete áreas temáticas, entre elas a conservação e valorização da biodiversidade. O Bioparque Pantanal já detém o maior banco genético vivo de água doce do mundo e mantém cooperações com universidades e centros de pesquisa. A Pré-COP30 e COP15, realizadas em Campo Grande, colocaram MS no centro do debate subnacional sobre clima e biodiversidade. O inventário estadual de gases de efeito estufa foi um dos primeiros concluídos no país. O Fundo Clima Pantanal opera com recursos vinculados.

O que falta, entretanto, é a camada científica estruturada e com governança própria. MS ainda não possui um instituto de biodiversidade ancorado formalmente em governança universitária, com mandato explícito para inventariar em escala genômica, sequenciar, gerar DSI pantaneira, registrar propriedade intelectual e negociar contratos de acesso com empresas nacionais e internacionais dentro dos marcos do Protocolo de Nagoya e da Lei 13.123 de 2015. Falta, igualmente, capacidade instalada dedicada em bioinformática, infraestrutura de criopreservação ampliada para além da ictiofauna do Bioparque, plataforma de repositório DSI soberana e articulação formal do estado com o Fundo Cali e o Global Biodiversity Framework Fund.

Em síntese: MS dispõe do acervo biológico. Ainda não dispõe da infraestrutura de conhecimento que transforma acervo em ativo capitalizável. Espera-se que o futuro INCT – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – do Pantanal, aprovado na Chamada o CNPQ, contribua para esta infraestrutura. 

Também é hora de MS constituir um Instituto Pantanal de Biodiversidade, de natureza pública, permanente e com ancoragem formal em governança universitária. UFMS, UEMS, Embrapa Pantanal e Fiocruz Mato Grosso do Sul já reúnem massa crítica de pesquisadores, programas de pós-graduação consolidados em ecologia, biotecnologia e ciências ambientais, e capacidade experimental suficiente para formar o núcleo científico desse instituto.

Já há o importante INPP – Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal, Unidade de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), sediado em Cuiabá-MT, focado na conservação e uso sustentável da biodiversidade do Pantanal. Entretanto, um instituto ancorado em uma instituição de ciência, tecnologia e inovação de MS dialogaria com identidade pantaneira sul-mato-grossense e estaria conectada com as demandas de pesquisas locais.

Um instituto desse porte converteria o Pantanal, sem prejuízo algum do turismo existente, em algo estruturalmente mais poderoso: o maior laboratório vivo de bioprospecção tropical alagável do planeta. Vale recordar a singularidade biogeográfica que pesquisadores atribuem ao bioma: o Pantanal é descrito como um grande espaço de confraternização da biodiversidade brasileira, com espécies da Amazônia, do Cerrado, do Chaco boliviano e paraguaio e da Mata Atlântica convergindo para a maior planície inundável do mundo. Essa convergência biogeográfica não tem equivalente em nenhum outro bioma do hemisfério. Não explorá-la cientificamente é uma escolha política, não um destino geográfico.

A escolha que está posta

Mato Grosso do Sul chega a esta década em posição rara. Tem ativo biológico incomparável, com dois terços do Pantanal em seu território. Tem legislação ambiental entre as mais avançadas do país. Tem cadeia de turismo consolidada, com Bonito e o Bioparque Pantanal como referências internacionais. Tem capacidade universitária instalada. Tem visibilidade internacional crescente, ampliada pela Pré-COP30, pela COP15, e pelo protagonismo brasileiro na agenda climática global.

Tem também, e isso precisa ser dito com clareza, uma janela temporal estreita. A arquitetura global de financiamento da biodiversidade se consolida neste biênio de 2025 e 2026, entre o lançamento operacional do Fundo Cali, a COP30 em Belém, a COP15 em Campo Grande, e a progressiva regulamentação da Lei brasileira da Bioeconomia. Estados que não se institucionalizarem para jogar nesse tabuleiro vão observar, novamente, o conhecimento nascer de seu território e ser capturado, patenteado e rentabilizado em outro lugar.

O turismo continuará sendo um vetor importante e deve seguir sendo valorizado e ampliado. Mas há um degrau acima, e é ele que distingue ecossistemas de inovação maduros de territórios que apenas hospedam biodiversidade. O Pantanal pode e deve continuar sendo cartão-postal. Precisa, porém, ser também laboratório, base de dados genômica, ativo de propriedade intelectual, instrumento de política industrial e infraestrutura de soberania científica brasileira.

A diferença entre as duas coisas não está na natureza. A natureza já está posta. A diferença está na governança que a estrutura. E governança de bioeconomia, como a experiência internacional repete de Costa Rica à Finlândia, só se sustenta quando a universidade está no centro dela.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

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