Hoje desejo compartilhar um pequeno recorte de minha dissertação do mestrado em educação defendida em 2011 na UFMS. Trata-se sobre a arte e o valor das narrativas. A origem do termo está no verbo “narrar”, que etimologicamente vem do latim narrare, significando expor um fato, uma história, relatar, ato de contar. Vou me pautar nas ideias do filósofo alemão, Walter Benjamin.
Para Benjamin (1992, p. 197), a arte de narrar tem se tornado escassa. É como se as pessoas estivessem perdendo uma faculdade que antes parecia segura e inalienável: “[…] a faculdade de intercambiar experiências […] a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente […].” De acordo com o autor, ao ser retirada essa capacidade do ser humano, estabeleceu-se uma “incapacidade” de trocar experiências.
A forma de narrativa discutida por Walter Benjamin possui um caráter artesanal. Ele afirma: “[…] Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso […].” (BENJAMIN, 1992, p. 205).
Desse modo, vale destacar que esse trabalho de oleiro é permeado por desprendimento de tempo, de atenção e de reflexão, além de uma visão clara daquilo que se deseja construir a partir dessa argila que aqui denomino de narrativa. A fertilidade das narrativas requer, além do tempo, outra ferramenta insubstituível, esquecida pela sociedade contemporânea: o “ouvido dos homens”.
Sabe-se que essa incapacidade de saber ouvir o outro é fruto de uma sociedade cada vez mais focada no individual, no descartável/supérfluo. Hoje todos querem respostas, informações “a um clic”. O que se ouve é “pressa”, “falta de tempo”. No entanto, tecer uma história retirando dela todos os ingredientes que a compõem requerem tempo, disponibilidade e sensibilidade. Benjamin (1992, p. 206) afirma ainda que: “O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado. Com efeito, o homem conseguiu abreviar até a narrativa.”
Existe um valor silencioso – e profundamente formador – que tem sido diluído no dia a dia frenético de nossa sociedade: o tempo dedicado ao encontro genuíno entre as pessoas.
Houve um tempo em que as narrativas faziam parte dos encontros em família. As narrativas familiares compartilhadas muitas vezes à mesa, nas varandas, nos quintais das casas não eram simples relatos. Eram ferramentas poderosas de formação moral, afetiva e social. Nesse tempo do encontro “olho no olho” transmitiam-se princípios, ensinavam-se limites, cultivava-se o respeito e, sobretudo, formava-se o caráter.
O habitus de olhar nos olhos, de ouvir sem interrupções, de argumentar com respeito e de sustentar diálogos mais longos e profundo não era casual – era aprendido, vivenciado e naturalizado no seio familiar e social. Esse habitus (essas práticas) relacional contribuíam para a formação de sujeitos mais conscientes, respeitosos e preparados para uma convivência mais saudável em sociedade.
Nesse contexto de narrativas marcantes, a educação não se restringia aos muros da escola. Ao contrário, ela era amplamente compartilhada entre famílias, vizinhança, amigos mais próximos e a comunidade. Havia uma corresponsabilidade implícita. As crianças, os adolescentes e jovens cresciam cercados por referências que, reforçavam valores como responsabilidade, disciplina, empatia, respeito à autoridade, etc.
Ao refletirmos sobre os desafios atuais da educação – seja por questões de indisciplina, fragilidade emocional ou dificuldade relacional – torna-se inevitável reconhecer que a ausência das narrativas profundas em família tem um custo muito alto não só para o ambiente familiar como para toda a sociedade. Essa comunicação rápida, rasa, fragmentada e muitas vezes superficial no âmbito da família, não substitui a densidade formativa das conversas presenciais, intencionais e cheias de significados.
Pessoas que convivem em ambientes onde as narrativas e os diálogos são prioridades, tornam-se adultos com capacidade de dialogar de forma madura, equilibrada. Tendem a desenvolver maior capacidade de escuta, argumentação e convivência social saudável. Vale lembrar que estas são competências indispensáveis ao mundo contemporâneo.
Quando penso no valor formador das narrativas, reporto-me a meu tempo de criança e adolescência na fazenda de meus pais. Esse habitus foi marcante no cotidiano de minha família, amigos, vizinhos e comunidade. Naquele tempo, as férias eram mais longas, principalmente no final de ano e, muitos primos, tios e amigos de minha família passavam férias conosco. Aí sim, as nossas manhãs, tardes e noites eram recheadas de ricas e preciosas narrativas. Como essas práticas contribuíram positivamente para minha trajetória pessoal, familiar e profissional.
Não se trata de saudosismo. É mais do que doces lembranças de tempos passados. O que me proponho aqui é levar você a uma autoanálise sobre quais práticas têm feito parte da formação familiar e educacional de seus filhos. Afinal, a sociedade contemporânea é reflexo do aprendido no meio familiar. Desejo que em sua família haja menos ruído, mais presença; menos pressa, mais escuta; menos tela, mais “olho no olho”; menos superficialidade, mais profundidade. Que Deus abençoe a sua, a minha, as nossas famílias!
















