A história da educação contemporânea vive uma de suas maiores contradições: nunca se teve tanto acesso à informação, e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil formar indivíduos capazes de pensar com profundidade, com consistência e ao mesmo tempo construir um sentido para a própria vida. Vivemos o tempo do excesso.
Excesso de estímulos, de telas, de opiniões, de conteúdos fragmentados que nos chegam a uma velocidade assustadora. Não se permite mais um tempo para filtrar informações, consolidá-las, processá-las de forma a transformá-las em conhecimento e quem sabe em sabedoria. Tudo tem surgido com o rótulo de “imediato”, “descartável” e “provisório”. Tenho a sensação de que, literalmente, já estamos vivendo um tempo difícil para “separar o joio do trigo”, o real do ilusório, a verdade da mentira. A pergunta que fica é: o que de fato estamos formando?
Nosso cérebro não foi projetado para tamanha sobrecarga de estímulos. A constância diante de telas, notificações, vídeos curtos e infinitas abas abertas têm comprometido a concentração não só das crianças e adolescentes, mas também dos jovens e adultos. O foco, antes treinado e valorizado, tem se tornado obsoleto. A lógica da compreensão, da interpretação e da crítica sobre os fatos tem sido substituída pela lógica da rapidez. O resultado é um aprendizado superficial e, muitas vezes, ilusório.
A real formação do ser humano exige tempo, disciplina, foco, responsabilidade, mediação, intencionalidade e, sobretudo, esforço e profundidade. Tudo o que se sustenta tem um preço. Tudo o que é bom se constrói, se conquista com investimento, seja ele de tempo, de dinheiro, de presença, de participação.
Hoje vivemos uma total ausência de silêncio. No entanto, ele é essencial para o nosso desenvolvimento cognitivo e emocional. É no silêncio que nosso pensamento se organiza, que a experiência ganha significado. O silêncio é necessário para que haja profundidade e, sem profundidade, não há construção de conhecimento sólido. É nesse contexto que o tão sonhado pensamento crítico – presente nos discursos educacionais – torna-se cada vez mais raro e distante da prática. Nenhuma construção intelectual profunda prospera em um ambiente de excesso contínuo. Afinal, pensar criticamente exige silêncio, exige análise, confronto de ideias e elaboração interna. É necessário, para tanto, calar muitas vozes.
Certo é que o excesso de estímulos externos dificulta a organização do espaço interno de cada indivíduo, e, consequentemente, prejudica sua autonomia intelectual e o equilíbrio emocional. Daí a existência de uma geração inquieta, ansiosa, incapaz de lidar com o vazio, com a espera, com o “não” e com a reflexão. Quando tudo é estímulo, nada é prioridade; quando tudo se torna urgente, nada é essencial.
Podemos compreender esse fenômeno – sob a perspectiva de Bourdieu – como uma transformação no modo como as pessoas se relacionam com o conhecimento e com os instrumentos culturais, o que ele denomina de Capital Cultural. O processo de construção desse capital há algumas décadas era mais longo, por meio de leituras, convivência familiar, experiências formativas estruturadas, vivências culturais. Hoje enfrenta-se uma disputa com uma cultura imediatista, fragmentada, vazia de sentido e totalmente desprovida de hierarquia de valores.
Embora seja um grande desafio diante desse cenário, compreendo que um retrocesso seja possível com a participação da família e da escola de forma intencional. É necessário ensinar a desacelerar, filtrar o que se ouve, o que se vê e o que se lê.
Tanto a escola quanto as famílias podem criar espaços de silêncio, espaço de escuta, estimular leituras profundas e trocas sobre o que se compreendeu dessa leitura. Estabelecer limites para o uso de telas, promover conversas significativas. Ensinar que o mais importante que responder perguntas é aprender a pensar criticamente.
As nossas crianças, adolescentes e jovens precisam ser ensinados sobre a importância de não se queimar etapas durante o processo. Que nem tudo que é rápido é relevante, que nem tudo que é fácil é formativo e que o real aprendizado exige tempo, esforço e intencionalidade.
















