Os cigarros eletrônicos estão se tornando mais difíceis de identificar e mais atraentes para adolescentes, acendendo um alerta entre especialistas em saúde pública. Com formatos que imitam acessórios do dia a dia, recursos tecnológicos e estratégias voltadas ao público jovem, os chamados vapes desafiam as políticas de combate ao tabagismo e podem contribuir para uma nova geração de dependentes de nicotina.
O alerta foi reforçado neste sábado (31), Dia Mundial sem Tabaco, pela Fundação do Câncer. A instituição chama atenção para o avanço de dispositivos cada vez mais sofisticados, capazes de camuflar o consumo e dificultar a fiscalização, mesmo em ambientes onde o uso é proibido.
Embora a comercialização de cigarros eletrônicos continue proibida no Brasil desde 2009 por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o acesso aos produtos permanece fácil por meio de redes sociais, sites de venda e comércio informal.
Dados da Receita Federal mostram a dimensão do mercado clandestino. Somente entre janeiro e fevereiro deste ano, foram apreendidas 238,8 mil unidades de cigarros eletrônicos no país, uma média superior a 4 mil dispositivos por dia.
Tecnologia e disfarce ampliam preocupação
Segundo o diretor executivo da Fundação do Câncer, o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, os novos dispositivos vêm sendo desenvolvidos para se integrar à rotina dos usuários sem chamar atenção.
Entre os exemplos estão equipamentos embutidos em acessórios e até mesmo em peças de roupa. Um dos modelos que mais preocupa especialistas são os chamados “vaporizer hoodies”, moletons que escondem o sistema de vaporização no cordão do capuz, permitindo o consumo de nicotina de forma discreta.
Além disso, muitos aparelhos produzem pouco odor e liberam quantidades reduzidas de vapor visível, dificultando que pais, professores ou responsáveis percebam o uso.
Para Maltoni, a estratégia da indústria contribui para estimular o consumo precoce e aumentar o risco de dependência.
“O que estamos vendo é um produto cada vez mais integrado ao cotidiano dos jovens e menos associado aos riscos do tabagismo”, afirma.
Uso entre adolescentes quase dobrou
Os números mais recentes reforçam a preocupação das autoridades de saúde.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostram que a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.
Na prática, quase três em cada dez adolescentes brasileiros dessa faixa etária já tiveram contato com os dispositivos ou fazem uso deles.
Especialistas alertam que a adolescência é um período crítico para o desenvolvimento cerebral e que a exposição à nicotina pode provocar impactos duradouros.
Riscos vão além da dependência
Além do potencial de causar dependência, os cigarros eletrônicos também estão associados a problemas respiratórios e cardiovasculares.
A consultora da Fundação do Câncer para a área de tabagismo, Milena Maciel de Carvalho, destaca que os dispositivos expõem os usuários a partículas ultrafinas, metais pesados e compostos químicos potencialmente tóxicos.
Segundo ela, o consumo frequente pode afetar áreas do cérebro ligadas à atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos, aumentando ainda o risco de dependência ao longo da vida.
Dispositivos se aproximam do universo digital
Outro fator que preocupa especialistas é a incorporação de elementos típicos do ambiente digital.
Alguns modelos mais recentes contam com telas sensíveis ao toque, reprodução de música, troca de mensagens e até jogos eletrônicos. Há ainda dispositivos programados para emitir sinais sonoros ou alertas quando ficam muito tempo sem uso.
Para a Fundação do Câncer, essa combinação cria um fenômeno que une dependência química e dependência tecnológica, tornando o vape mais presente na rotina dos usuários.
Campanha alerta para riscos
No Dia Mundial sem Tabaco, a Fundação do Câncer lançou uma nova etapa da campanha “Vape Off”, com o filme “Spoiler: ele não te ama”. A iniciativa busca conscientizar adolescentes e jovens sobre os riscos associados aos cigarros eletrônicos e combater a percepção de que os dispositivos seriam alternativas inofensivas ao cigarro convencional.
A instituição também defende medidas mais rígidas para restringir a circulação dos produtos e reduzir seu apelo entre crianças e adolescentes.
Enquanto o debate avança, especialistas alertam que o crescimento do uso dos vapes pode comprometer décadas de avanços obtidos pelo Brasil na redução do tabagismo, política que transformou o país em uma das referências mundiais no controle do consumo de produtos derivados do tabaco.
Com informações e imagem da Agência Brasil





















