Relatos de pais e análise de especialista mostram mudanças no papel masculino dentro da família e os desafios que ainda permanecem
A forma como um homem aprende a ser pai nem sempre começa quando o filho nasce. Muitas vezes, ela nasce antes: nas lembranças da própria infância, nos exemplos que recebeu, nas ausências que sentiu e nas escolhas que decide fazer quando chega a sua vez de cuidar de alguém.
Para alguns pais, a paternidade é uma continuidade daquilo que viveram. Para outros, é uma oportunidade de construir uma história diferente. Entre referências de afeto, tentativas de romper ciclos e novos modelos de cuidado, o papel paterno passa por uma transformação, ainda que essa mudança conviva com desafios antigos.
Esse movimento, porém, não significa que a presença paterna já seja uma realidade para todas as famílias. Enquanto alguns homens buscam ocupar novos espaços na criação dos filhos, muitos ainda permanecem distantes dessa responsabilidade. Em 2025, 172 mil crianças foram registradas sem o nome do pai na certidão de nascimento, segundo dados do Portal da Transparência do Registro Civil. O número representa 6,9% dos nascimentos registrados no país e revela que a ausência paterna continua sendo uma realidade presente no Brasil.
É nesse contraste entre presença e ausência que se encontram histórias como as de Jaime Gutierrez e Leonardo Rodrigues. Homens que, por caminhos diferentes, refletem uma mudança na forma de compreender o papel paterno: um deles inspirado pela relação que teve com o próprio pai; o outro tentando construir para os filhos o vínculo que não recebeu na infância.
Entre o exemplo recebido e a escolha de transformar
Para o produtor audiovisual Jaime Gutierrez, a paternidade começou a ser construída muito antes do nascimento dos filhos. Pai de Lauren, de 18 anos; Chloe, de 15; e Zion, de 8, ele conta que a principal referência para exercer esse papel veio do próprio pai, que, mesmo trabalhando durante todo o dia, encontrava espaço para participar da rotina da família.
Jaime lembra de uma figura paterna presente, que acompanhava os momentos importantes e demonstrava interesse pela vida dos filhos.
“Ele trabalhava o dia todo, chegava em casa, tomava banho e dava atenção para mim e meus irmãos. Jogávamos futebol americano no corredor da nossa casa. Ele sempre estava presente nos jogos do time da escola. A sensação que eu tenho é que ele esteve comigo em todo o tempo.”
Ao se tornar pai, Jaime percebeu que precisaria mudar algumas características pessoais. Acostumado a resolver problemas de maneira rápida e prática, ele conta que os filhos ensinaram um novo ritmo, baseado na paciência e na adaptação.
“Quando tive meus filhos, a vida se tornou imprevisível e eu me adaptei. Tive mais paciência, repetindo tudo quantas vezes fosse necessário para cuidar e ajudar eles. Eles se tornaram minha prioridade.”
A convivência com os três filhos também mostrou a ele que não existe uma única forma de educar. Cada criança possui características próprias, e o papel do pai, segundo Jaime, é compreender essas diferenças.
A experiência fez com que ele percebesse até mesmo mudanças em relação ao próprio pai. Para Jaime, uma das dificuldades que o pai teve foi lidar com as diferenças entre os filhos, especialmente com a irmã dele. Hoje, ele escolhe construir uma relação diferente com os próprios filhos.
“Eu amo e trato os três igualmente, não favoreço nenhum mais que outro, apesar dos temperamentos e das idades diferentes. Mas o resto eu faço igual ao que meu pai fez comigo: presença, clima leve e muita risada.”
Essa construção baseada no vínculo aparece também na forma como Jaime descreve a relação individual com cada filho. Para ele, ser pai não significa apenas corrigir ou ensinar, mas conhecer cada criança e entender aquilo que ela precisa.
“Meu papel em tudo isso é conhecer, aprender e ser aquilo que meu filho precisa. Não é sobre eles se adaptarem ao meu jeito. Isso não é ser pai.”
Para Jaime, a presença paterna também está nos pequenos momentos do cotidiano. A filha mais velha gosta de conversar, enquanto a filha do meio prefere atividades com mais movimento e o filho mais novo busca atenção e reconhecimento.
Segundo ele, compreender essas diferenças foi uma das maiores aprendizagens da paternidade.
“Meu papel é conhecer, aprender e ser aquilo que meu filho precisa. Não é sobre eles se adaptarem ao meu jeito. O filho precisa saber que é amado não por aquilo que pode oferecer ao pai, mas porque ele é filho.”
Construir uma história diferente
A trajetória do psicólogo e psicanalista Leonardo Rodrigues parte de uma experiência diferente. Pai de Joaquim, de 7 anos, e Cecília, de 5, ele conta que não teve uma relação próxima com o próprio pai durante a infância e que a chegada do primeiro filho trouxe também o desejo de construir uma história diferente.
Leonardo tinha 22 anos quando descobriu que seria pai. Na época, ainda estava na faculdade e precisou lidar com uma mudança inesperada de prioridades.
“Era como um menino imaturo indo encarar uma responsabilidade que exigia de mim tornar um homem muito rápido.”
Com Joaquim, Leonardo também enfrentou desafios que transformaram sua maneira de exercer a paternidade. O filho recebeu o diagnóstico de autismo ainda na infância, uma descoberta que trouxe uma nova camada de inseguranças: além das dúvidas comuns da criação, ele precisou lidar com preocupações sobre desenvolvimento, inclusão e futuro.
Mesmo sendo psicólogo e estudando o desenvolvimento humano profissionalmente, Leonardo afirma que o conhecimento técnico não elimina os sentimentos de medo e incerteza.
“Não é porque eu sou psicólogo que eu não tenho inseguranças em relação ao meu filho, que eu não tenho inseguranças em relação à minha função como pai.”
Durante esse processo, ele percebeu uma dificuldade que vai além da própria família: a falta de espaços para que homens compartilhem dúvidas, medos e aprendizados sobre a criação dos filhos.
Enquanto mães de crianças neurodivergentes costumam encontrar redes de apoio mais organizadas, Leonardo conta que muitos pais ainda enfrentam o isolamento.
“Eu não achava informação, não tinha grupo de pais, não tinha roda de discussão de pais atípicos.”
Para ele, transformar a paternidade também exige repensar modelos tradicionais de masculinidade, nos quais homens foram ensinados a ocupar apenas o lugar de autoridade ou provedor.
“Nós vamos ter que criar uma nova referência, não só de paternidade, mas de masculinidade.”
A experiência com o filho também mudou a forma como Leonardo enxerga o cuidado. Para ele, ser pai envolve estar disponível e compreender que cada criança possui necessidades próprias.
Com Joaquim, ele aprendeu sobre inclusão, paciência e acolhimento. Já com Cecília, que acompanha o irmão e também constrói sua própria trajetória, ele percebeu outras formas de desenvolvimento e relacionamento dentro da família.
Uma mudança social em construção
A transformação observada nas histórias de Jaime e Leonardo também faz parte de um processo social mais amplo, segundo a pesquisadora Jacy Corrêa Curado, pós-doutora em Psicologia Social e professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Ela explica que, no modelo familiar tradicional, o pai ocupava principalmente o papel de autoridade, enquanto o cuidado diário dos filhos ficava concentrado nas mulheres.
“Se a gente voltar na linha do tempo, pensar em 100 anos atrás, a família patriarcal tradicional brasileira era composta por uma grande família, e nela o papel do patriarca era o papel de maior autoridade.”
Segundo a pesquisadora, mudanças sociais, especialmente a entrada das mulheres no mercado de trabalho, fizeram com que a divisão das responsabilidades familiares precisasse ser revista.
“Quem cuida de quem? Essa é a grande questão do momento atual. Com a mulher ocupando espaço no mercado de trabalho, esse espaço tem que ser compartilhado com o pai e com o restante da família.”
Para Jacy, a dificuldade de muitos homens em assumir esse papel não está ligada a uma questão biológica, mas a construções culturais que historicamente associaram o cuidado às mulheres.
“O que impede os homens de cuidarem das crianças não é uma questão biológica. É uma cultura nossa, patriarcal, que vincula a mulher à responsabilidade da criança.”
Apesar dos avanços, a pesquisadora destaca que a participação paterna ainda é um desafio no Brasil. Para ela, a tendência é de uma presença cada vez maior dos homens na criação dos filhos, com relações mais próximas e baseadas no vínculo.
“A transformação aponta para uma maior participação dos pais e uma relação mais forte, mais intensa e mais verdadeira com os filhos.”
Entre aqueles que tiveram exemplos de cuidado e aqueles que precisaram construir novas referências, as histórias de Jaime e Leonardo mostram que a paternidade não é uma experiência pronta, mas uma construção diária. Ela acompanha as mudanças dos filhos, atravessa diferentes fases da vida e exige dos pais a capacidade de aprender, se adaptar e estar presente.
Para Leonardo, a principal mudança na forma de exercer a paternidade passa pela disponibilidade afetiva. Mais do que cumprir uma função ou oferecer recursos materiais, ele acredita que o vínculo é construído no cotidiano, na escuta e na participação na vida dos filhos.
“Se você é pai, você só consegue ser pai estando presente. O seu filho pode até saber das coisas que você consegue fazer, mas ele só vai te reconhecer como pai se você estiver lá.”
*Foto de capa: unsplash




















