Pesquisa desenvolvida na UNESP busca entender por que algumas crianças continuam com dificuldade para respirar durante o sono mesmo depois da retirada das amígdalas e adenoide
Uma pesquisa desenvolvida pelo médico e doutorando Neemias Santos Carneiro, de Campo Grande, busca entender por que algumas crianças continuam apresentando apneia do sono mesmo depois de passar por uma cirurgia para retirar as amígdalas e a adenoide. O estudo, desenvolvido na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB/UNESP), foi premiado internacionalmente em 2026.
A apneia obstrutiva do sono acontece quando a passagem de ar fica parcialmente ou totalmente bloqueada enquanto a pessoa dorme. Em crianças, um dos tratamentos mais comuns é a retirada das amígdalas e da adenoide, estruturas que ficam na região da garganta e podem dificultar a passagem do ar.
O problema é que a cirurgia nem sempre resolve completamente a apneia. É justamente nesse ponto que a pesquisa de Neemias se concentra: encontrar formas de identificar, antes ou depois do procedimento, quais crianças têm maior chance de continuar apresentando o problema.
O trabalho recebeu o “New Investigator Award 2026”, concedido pela International Pediatric Sleep Association (IPSA), entidade dedicada aos distúrbios do sono na infância. Neemias conquistou o primeiro lugar na categoria de pesquisa clínica. Em 2026, apenas três trabalhos foram selecionados para o prêmio, nas categorias de pesquisa básica, clínica e o prêmio nominal da Fundação Guilleminault.
A pesquisa foi apresentada durante o IPSA 2026, realizado entre 8 e 11 de abril, em Florença, na Itália. O congresso reuniu especialistas de diferentes países para discutir pesquisas e tratamentos relacionados aos distúrbios do sono infantil.
O que a pesquisa quer descobrir?
O estudo compara duas escalas, chamadas Chan-Parikh e IPSES. De forma simplificada, elas funcionam como ferramentas de avaliação que podem ajudar os médicos a estimar quais crianças têm maior possibilidade de continuar com apneia depois da cirurgia.
Essa informação é importante porque, quando a cirurgia não resolve totalmente o problema, a criança pode precisar de uma nova avaliação para descobrir onde e por que a passagem de ar continua sendo prejudicada durante o sono.
Segundo Neemias, o estudo é resultado de uma linha de pesquisa desenvolvida pela equipe de sono da UNESP desde 2017.
“Foi a concretização de vários fatores. Dei continuidade a um estudo que a equipe de sono da UNESP desenvolve desde 2017. A polissonografia ainda é algo muito difícil de se conseguir no Brasil, pela necessidade de laboratório do sono e de profissionais especializados. Precisávamos encontrar uma outra forma de avaliar essas crianças, e a sonoendoscopia já era uma realidade, apesar de ainda ser algo muito incipiente no mundo inteiro.”
A polissonografia é um dos principais exames usados para investigar problemas relacionados ao sono. Durante o procedimento, o paciente passa a noite em um laboratório especializado, onde são acompanhados diferentes sinais do corpo enquanto dorme.
Como o acesso a esse tipo de exame ainda pode ser difícil no Brasil, os pesquisadores também estudam outras maneiras de avaliar as vias respiratórias das crianças.
Exame mostra onde o ar está sendo bloqueado
Uma dessas ferramentas é a sonoendoscopia. O nome pode parecer complicado, mas a ideia é relativamente simples: o médico utiliza uma pequena câmera para observar por onde o ar está passando enquanto a criança está sedada em uma condição que simula o sono.
Com isso, é possível observar se existe algum ponto da garganta ou das vias respiratórias que continua fechando e dificultando a passagem do ar.
“Os anestésicos simulam a forma como dormimos, sem precisar de anestesia geral. É uma ferramenta melhor para avaliar aquelas crianças sobre as quais não tínhamos certeza de um resultado ótimo com a cirurgia de amídala e adenoide, muitas não estavam melhorando mesmo depois de operadas.”
A avaliação pode ajudar a entender por que determinada criança não apresentou a melhora esperada depois da cirurgia e, a partir disso, orientar os próximos passos do tratamento.
Para o pesquisador, a técnica exige profissionais capacitados e ainda está em desenvolvimento em diferentes centros de pesquisa.
“Nosso artigo trouxe uma explicação muito importante para o sono das crianças. No congresso mundial de sono pediátrico, tive a oportunidade de discutir com profissionais do mundo inteiro como isso vem sendo feito em diferentes centros.”
O trabalho faz parte do doutorado de Neemias no Programa de Cirurgia e Medicina Translacional da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB/UNESP), sob orientação da professora titular Silke Anna Theresa Weber.
Pesquisa começou há sete anos
Apesar de o prêmio ter sido conquistado em 2026, a pesquisa faz parte de um trabalho desenvolvido pela equipe de sono da UNESP desde 2017. Ao longo dos anos, os pesquisadores passaram a estudar diferentes formas de avaliar crianças com dificuldades para respirar durante o sono.
A ideia é melhorar a identificação dos casos em que a cirurgia não é suficiente e entender melhor o que acontece com essas crianças.
Para Neemias, além do reconhecimento, a participação no congresso internacional trouxe conhecimentos que já passaram a fazer parte de sua atuação profissional.
“Além do prêmio, foi um grande aprendizado. Trouxe para minha prática clínica coisas que eu ainda não fazia e que hoje já aplico. Pude entender muito mais sobre o processo da sonoendoscopia, sobre a síndrome de Down e outros aspectos do sono infantil, tudo isso faz parte do meu doutorado. O prêmio foi muito importante porque é um assunto difícil de pesquisar, de difícil acesso, e isso pesa muito para a carreira acadêmica.”
O pesquisador atua com foco nos distúrbios respiratórios do sono na infância, principalmente na apneia obstrutiva do sono e na utilização da sonoendoscopia pediátrica.
A pesquisa coloca Campo Grande no cenário internacional de estudos sobre o sono infantil e mostra como uma investigação desenvolvida por pesquisadores brasileiros pode contribuir para melhorar a avaliação e o tratamento de crianças que continuam apresentando dificuldades para respirar durante o sono mesmo após a cirurgia.



















