Estudo identificou 40 conteúdos sintéticos sobre política no primeiro semestre; testes mostram que ferramentas gratuitas têm dificuldade para reconhecer falsificações feitas por IA
O uso da inteligência artificial para criar conteúdos sobre as eleições de outubro começou antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral. Um levantamento do Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, em parceria com estudantes da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), identificou ao menos 40 conteúdos sintéticos relacionados à política que circularam nas redes sociais entre fevereiro e junho deste ano.
A campanha eleitoral começa oficialmente no próximo domingo (16), quando passam a valer as regras específicas para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. Ainda assim, o estudo encontrou deepfakes com pedidos de voto, avatares divulgando pesquisas eleitorais falsas e vídeos que retratavam políticos de forma satírica.
O relatório inédito “A IA do Nosso Feed” também aponta outro desafio: as principais ferramentas gratuitas usadas para detectar conteúdos criados por IA ainda apresentam resultados inconsistentes e podem falhar justamente quando a identificação rápida se torna mais necessária.
Mais de dois casos por semana
Durante quase 18 semanas, especialistas da Lupa e 13 estudantes da FAAP monitoraram, de forma espontânea, os próprios feeds no Instagram, Facebook, X, TikTok e WhatsApp. Sempre que um conteúdo parecia ter sido criado ou manipulado por inteligência artificial, ele era armazenado para análise posterior.
Ao todo, foram registradas 226 ocorrências suspeitas. Desse universo, 101 tiveram o uso de IA confirmado, e 40% delas tratavam de política. Os vídeos dominaram esse cenário: representaram 91% dos conteúdos comprovadamente sintéticos. Apenas nove casos eram imagens estáticas.
Entre os materiais políticos identificados estavam deepfakes de figuras públicas declarando apoio ou pedindo votos para candidatos, conteúdos de humor com sarcasmo e pesquisas eleitorais falsas apresentadas por avatares gerados por IA.
“Ainda estávamos no primeiro semestre deste ano eleitoral e já havia muita IA sendo usada para produzir conteúdo político e eleitoral. Isso mostra que a disputa informacional de 2026, com uso de materiais sintéticos, começou muito antes das urnas. E, à medida que a eleição se aproxima, cresce a preocupação não só com o volume desses conteúdos, mas também com a capacidade do eleitor de distinguir o que é autêntico do que é artificial”, destaca Beatriz Farrugia, analista de pesquisa da Lupa e responsável pela pesquisa. “Testamos diversas ferramentas de detecção e nos surpreendemos com a pobreza e a falta de precisão dos resultados delas”.
Segundo os pesquisadores, o objetivo não era medir toda a circulação de conteúdos sintéticos nas redes brasileiras, mas retratar o ambiente informacional ao qual usuários comuns estão expostos diariamente.
Lula foi a figura mais retratada
Entre os conteúdos com uso de IA confirmado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu em 17 ocorrências, liderando a lista de figuras públicas retratadas. Na sequência aparecem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com 16, e o ex-presidente Jair Bolsonaro, com oito.
Lula foi alvo tanto de peças políticas quanto de conteúdos humorísticos, incluindo vídeos falsos nos quais supostamente prometia cortar aposentadorias ou prender críticos.
Bolsonaro apareceu em materiais que promoviam a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. Flávio foi citado em quatro conteúdos sintéticos comprovados, todos com caráter eleitoral. Entre eles estava um deepfake do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) divulgando uma pesquisa falsa que colocava o senador à frente de Lula no primeiro turno.
Ferramentas apresentam resultados contraditórios
O estudo também testou a eficácia das ferramentas gratuitas mais populares de detecção de conteúdo sintético. Os resultados mostraram limitações importantes.
Em 20 casos analisados, a mesma imagem ou vídeo recebeu diagnósticos diferentes conforme a ferramenta utilizada. Enquanto uma apontava indícios de inteligência artificial, outra classificava o material como autêntico.
Além disso, dos 226 conteúdos inicialmente considerados suspeitos, 125 permaneceram inconclusivos porque não foi possível confirmar nem descartar o uso da tecnologia.
Um dos exemplos citados foi um vídeo produzido por IA que mostrava Lula e Jair Bolsonaro dançando juntos vestidos como líderes de torcida. Mesmo com sinais evidentes de manipulação, algumas ferramentas indicaram que o conteúdo provavelmente seria verdadeiro.
Diante das divergências, os 20 casos foram encaminhados ao laboratório Recod.ai, da Unicamp, que realizou análises utilizando tecnologia própria para detecção de conteúdos sintéticos.
“Hoje existe um descompasso entre a velocidade com que as ferramentas de geração de IA avançam e a capacidade de detectar aquilo que elas produzem. Não existe uma solução simples que permita ao cidadão colocar um vídeo em uma ferramenta e confiar plenamente na resposta. Em uma eleição, quando um conteúdo falso pode viralizar rapidamente, essa fragilidade é ainda mais preocupante”, afirma Farrugia.
Presença de IA cresce na desinformação
Os resultados reforçam uma tendência já observada pelo Observatório Lupa. No Panorama da Desinformação, publicado em fevereiro, a participação de conteúdos produzidos com inteligência artificial entre os materiais falsos analisados pela Agência Lupa passou de 4,65% para 25,77% em um ano.
Pela primeira vez, os conteúdos sintéticos relacionados à desinformação eleitoral superaram aqueles ligados a golpes e fraudes financeiras.



















