Levantamento aponta que 80,6% são homens, quase metade dos entrevistados não tinha documentos e 49,4% relataram violência física
A primeira contagem realizada em Campo Grande identificou 1.476 pessoas em situação de rua. O levantamento, coordenado pelo Grupo de Trabalho Intersetorial da População em Situação de Rua (GT-PSR) , foi apresentado nesta quarta-feira (19), Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, e reuniu dados sobre a distribuição territorial e o perfil das pessoas atendidas ou encontradas nas ruas.
A contagem foi realizada em 30 de setembro de 2025, por meio da metodologia Point-in-Time Count (PIT), que combina observação direta em espaços públicos com informações dos registros administrativos da rede de atendimento. Do total identificado, 842 pessoas (57%) foram encontradas em vias públicas, enquanto 634 (43%) constavam nos registros dos serviços e instituições que integram a rede.
Entre as pessoas contabilizadas, 1.190 eram homens, 234 mulheres e 52 crianças. Os homens representam 80,6% do total, enquanto as mulheres correspondem a 15,9% e as crianças a 3,5%.
Centro concentra maior número
Apesar de a região central concentrar a maior parcela, o levantamento mostra que as pessoas em situação de rua estão espalhadas por toda Campo Grande. O Centro reúne 566 pessoas, equivalente a 40% dos registros territorializados. Na sequência aparece o Anhanduizinho, com 363 pessoas, ou 25,6%.
Somadas, as duas regiões concentram 929 pessoas, ou 65,6% dos registros territorializados. Também foram identificados registros nas regiões Prosa, Lagoa, Segredo, Bandeira e Imbirussu. Outras 60 pessoas foram contabilizadas em uma comunidade terapêutica localizada na área rural.
O levantamento destaca que houve registros nas sete regiões urbanas de Campo Grande, indicando que o fenômeno não está restrito à área central.
Perfil revela falta de documentos e violência
Após a contagem, o GT-PSR realizou entrevistas para conhecer o perfil desse público. O relatório analítico reúne 257 entrevistas, sendo 193 com pessoas classificadas no grupo em rua e 64 com pessoas acolhidas. A idade média dos entrevistados é de 39,6 anos.
A maioria é masculina e parda. Entre os entrevistados, 196 são homens cis, o equivalente a 76,3%, enquanto 54 são mulheres cis, ou 21%. Pessoas pardas representam 60,3% da base, e pessoas pretas, 17,1%.
Um dos principais pontos de vulnerabilidade identificados é a falta de documentação. 120 entrevistados, ou 46,7% da base, disseram não ter nenhum documento em posse. Entre as pessoas que estavam efetivamente nas ruas, o percentual sobe para 57,5%.
O levantamento também registrou 135 pessoas inscritas no Cadastro Único e 101 que recebiam algum benefício social.
A pesquisa mostra ainda que a situação de rua é recorrente para parte significativa dos entrevistados. 166 pessoas, ou 64,6%, relataram que já haviam passado anteriormente pela mesma situação. Além disso, 190 entrevistados, ou 73,9%, afirmaram permanecer sozinhos.
Outro dado que chama atenção é a exposição à violência. A violência física foi relatada em 127 entrevistas, equivalente a 49,4% da base. Também foram registrados 121 relatos de violência psicológica ou emocional, 56 de violência institucional e 24 de violência sexual.
Trabalho informal aparece entre as alternativas de sobrevivência
O levantamento também identificou a presença de trabalho entre as pessoas entrevistadas, embora a maioria das atividades relatadas esteja na informalidade.
Apenas sete entrevistados informaram possuir trabalho formal, enquanto 94 declararam exercer trabalho informal. Entre as 193 pessoas classificadas no grupo em rua, 88, ou 45,6%, relataram trabalhar informalmente. A catação e a reciclagem aparecem em 72 registros desse grupo.
Quando questionados sobre o que mais precisam, os entrevistados apontaram principalmente trabalho e renda, moradia, alimentação e saúde. Trabalho e renda apareceram em 110 registros; moradia, em 108; alimentação, em 107; saúde, em 100; documentação, em 91; e tratamento para uso de substâncias, em 77.
Entre as pessoas que estavam nas ruas, alimentação foi a necessidade mais citada. Já entre os acolhidos, trabalho, renda e moradia ficaram entre as principais demandas.
Prefeitura promete revisão de plano e novas ações
A vice-prefeita e secretária municipal de Assistência Social e Cidadania, Camilla Nascimento, afirmou que a contagem representa o primeiro diagnóstico sobre a população em situação de rua de Campo Grande e deverá servir de base para a revisão do Plano Municipal.
“A gente vem em evolução nessa política pública, e essa contagem, esse perfil que agora foi divulgado é o primeiro grande passo, é o primeiro da história de Campo Grande. A partir daí nós temos uma base de dados para poder começar a trabalhar iniciando com a revisão do nosso plano municipal”.
Apesar dos dados apresentados, a prefeitura ainda não tem um plano de ação e prazo estipulado para iniciar essas políticas públicas. “A solução dessa questão é um termo muito forte, para isso existe uma política pública que precisa ser trabalhada, desenvolvida e evoluída e a gente começa a partir daqui com uma maior efetividade”, ressalta Camilla.

Segundo Camilla, a prefeitura pretende ampliar a atuação em diferentes áreas, incluindo habitação, emprego, saúde e tratamento.
“Nós iniciamos com essa revisão do plano municipal, teremos o novo Centro Pop, um novo formato de trabalhar, temos os nossos acolhimentos, reforma de estrutura, um plano de trabalho em equipe e uma equipe muito unida”.
A vice-prefeita também defendeu uma atuação integrada entre diferentes áreas do poder público, incluindo segurança. “A segurança pública sabendo como lidar, como distinguir o que é a população em situação de rua, o que é a parte de criminalidade, enfim a prefeitura tem um trabalho muito amplo em todas as partes em todos os setores”.
Novo Centro Pop deve começar a funcionar em setembro
Entre as medidas anunciadas pela prefeitura está a implantação de um novo formato do Centro Pop. Segundo Camilla, a estrutura deve começar a funcionar em setembro.
A vice-prefeita explicou que o equipamento não será um espaço de acolhimento, mas um serviço de referência para a população em situação de rua.
“O centro pop não é um acolhimento, ele é um serviço de referência para essa população em situação de rua. Então a gente vai ter uma estrutura muito melhor do que a estrutura que já existe hoje. Uma equipe mais preparada e os serviços com muito mais efetividade.”
Dados devem orientar políticas públicas
Para a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, que coordenou os trabalhos do GT-PSR por meio do Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), os dados permitem que o poder público tenha uma base mais precisa para definir estratégias.
A defensora pública Thaisa Raquel Medeiros de Albuquerque Defante afirmou que o relatório já foi encaminhado aos órgãos responsáveis pelo acompanhamento das políticas destinadas à população em situação de rua.
“O relatório já foi encaminhado aos órgãos que trabalham com esses dados para o monitoramento e o acompanhamento das políticas aplicáveis. O documento também deve servir de base para que o Poder Público elabore políticas públicas a partir das informações levantadas”.

O relatório defende a articulação de ações de documentação, trabalho, renda, moradia, saúde, acolhimento e reconstrução de vínculos. Também aponta a necessidade de medidas específicas para mulheres, pessoas trans, famílias, casais, pessoas com deficiência, migrantes e idosos.
O levantamento foi realizado por uma articulação que reúne Defensoria Pública, órgãos estaduais e municipais, Ministério Público, IBGE e sociedade civil. O objetivo é manter uma base de informações que permita acompanhar mudanças na quantidade, distribuição e perfil da população em situação de rua ao longo do tempo.
*Em colaboração Sandy Ruiz


















