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Endividamento norte-americano dobrou desde 2017, mas economistas descartam risco de insolvência

A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões. O valor, que dobrou desde 2017, reflete uma combinação de fatores, como cortes de impostos, aumento dos gastos militares, tarifas de importação e crescimento das despesas com juros.

Em apenas cinco meses, a dívida norte-americana aumentou US$ 1 trilhão, ritmo superior ao previsto por analistas. O Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos (CBO) estimava que a marca de US$ 40 trilhões seria alcançada apenas em 2027.

Apesar do tamanho do endividamento, economistas avaliam que os Estados Unidos não estão diante de um risco de insolvência. Entre os fatores que sustentam essa avaliação está a capacidade do governo de emitir a própria moeda, além do papel do dólar como principal moeda de reserva internacional.

O cenário, porém, aumenta a pressão sobre as contas públicas, principalmente por causa dos juros. As despesas com o serviço da dívida chegaram a US$ 1,1 trilhão, mais que o dobro dos US$ 419 bilhões registrados em 2021.

Os gastos militares também permanecem elevados, próximos de US$ 1 trilhão.

Por que a dívida dos EUA não significa risco de calote

Para o professor do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos, o valor de US$ 40 trilhões, isoladamente, não representa uma ameaça à capacidade de pagamento dos Estados Unidos.

“Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED [Federal Reserve, o Banco Central dos EUA] pode comprá-los. Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses. E foi o que fez entre 1942 e 1951, quando travou o juro dos títulos longos em 2,5%”, explicou.

O Tesouro dos Estados Unidos também anunciou o aumento das operações de compra de títulos no mercado. A previsão é que essas operações passem de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.

O economista e doutor em história Pedro Faria também considera que o tamanho nominal da dívida não é suficiente para avaliar a capacidade de pagamento do país.

“A gente sempre compara com o tamanho do país e com a realidade econômica ao redor. É uma realidade das principais economias desenvolvidas estarem em déficit desde 2008”, comentou Faria, associado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Juros aumentam o custo da dívida

Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos são considerados, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um dos ativos mais seguros do mercado internacional. Segundo Bastos, os investidores continuam comprando esses papéis, mas exigem uma remuneração maior.

“Os estrangeiros continuam comprando. O que subiu foi o preço cobrado, não a recusa em comprar”, pontuou.

Dois terços da dívida negociada estão nas mãos de investidores domésticos. Outros US$ 4,5 trilhões estão com o Federal Reserve. O próprio governo norte-americano possui cerca de US$ 8 trilhões, enquanto aproximadamente US$ 32 trilhões estão no mercado.

“O mercado detém cerca de 100% do PIB em dívida, similar ao recorde de 106% de 1946, ao fim da 2ª guerra”, acrescentou o especialista.

O principal risco de calote, segundo Bastos, seria político, caso o Congresso norte-americano se recuse a elevar o teto da dívida. Já a alta dos juros representa uma pressão direta sobre as contas do governo.

“O único risco ligado à dívida hoje é o de juros longos mais altos. Mas a causa imediata não é o tamanho da dívida. É a inflação, puxada pelo petróleo do conflito no Oriente Médio e pelas tarifas”, explicou.

A inflação provocada pela alta dos combustíveis, associada ao conflito no Oriente Médio, e as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump aumentam as incertezas econômicas e podem pressionar os juros cobrados pelos investidores.

Cortes de impostos aumentam o endividamento

A política de redução de impostos adotada durante os governos de Trump também é apontada como uma das causas do aumento do déficit.

Para Pedro Faria, a diminuição da tributação sobre os mais ricos reduziu a arrecadação e contribuiu para ampliar o endividamento.

“O Trump aposta nessa política característica dos republicanos, que é tirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a economia. O que se vê é um aumento do endividamento dos EUA no governo Trump 2 por conta dessa abordagem de política econômica”, explicou.

Em 2025, o governo Trump aprovou um projeto que ampliou os cortes de impostos. A medida aumentou em US$ 4,7 trilhões, em dez anos, a previsão de crescimento do déficit dos Estados Unidos. No mesmo período, o pacote previu US$ 1 trilhão em cortes na saúde pública.

Bastos afirma que a menor tributação sobre os mais ricos também contribui para a concentração de renda no país.

“A receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal. Já os juros vão para quem tem títulos: fundos, bancos e as famílias mais ricas. O 1% mais rico detém metade das ações do país”, comentou Bastos.

Na avaliação do professor da Unicamp, os Estados Unidos não gastam excessivamente, mas arrecadam menos do que poderiam. A carga tributária norte-americana equivale a cerca de 25% do PIB, enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 34%.

Tarifas e política de Trump elevam incertezas

As tarifas de importação adotadas pelo governo Trump também entram na conta. Além de afetarem os preços, as medidas comerciais aumentam a incerteza sobre a economia e podem contribuir para a pressão inflacionária.

Outro ponto de atenção é a relação dos Estados Unidos com investidores estrangeiros. Segundo Pedro Faria, alguns governos vêm reduzindo seus estoques de títulos norte-americanos, entre eles Brasil e China.

“Diversos governos têm reduzido o estoque de títulos dos EUA, como Brasil e China. Isso porque veem a política econômica da Casa Branca como errática e não muito racional. Os agentes econômicos têm medo de se expor a sanções ou ter os ativos congelados, como ocorreu diversas vezes”, comentou.

Bastos relaciona esse movimento ao chamado “risco Trump”. Para o economista, decisões do governo podem afetar a confiança nos títulos norte-americanos, tradicionalmente sustentada pela percepção de estabilidade das instituições do país.

“Por exemplo, o uso do acesso ao mercado americano como chantagem [tarifaços]. Os bancos centrais compram ouro em ritmo recorde desde 2022 por isso, não pelo tamanho da dívida. Se a dívida um dia virar problema, não será por chegar a US$ 40 trilhões ou US$ 50 trilhões. Será porque a política destruiu o que a tornava desejada”, completou.

Títulos de 30 anos atingem maior rendimento desde 2007

A preocupação com o cenário econômico também aparece no mercado de títulos de longo prazo. Os papéis de 30 anos do Tesouro dos Estados Unidos chegaram a 5,33% em 18 de agosto, maior nível desde 2007.

Juros mais altos significam maior custo para o governo refinanciar a dívida e, consequentemente, mais recursos destinados ao pagamento dos títulos.

Para Bastos, entretanto, a redução da participação de alguns países na compra de títulos norte-americanos ainda não representa uma ameaça à posição do dólar no sistema financeiro internacional.

“A China reduziu o estoque de títulos dos EUA de US$ 1,3 trilhão, em 2013, para US$ 700 bilhões, e nada aconteceu. O dólar ainda responde por 57% das reservas mundiais, o euro por 20% e o yuan por 2%”, ponderou.

Assim, o recorde de US$ 40 trilhões não é tratado pelos especialistas como sinal de uma crise de solvência iminente. A principal preocupação está no custo crescente para financiar a dívida e nos efeitos que as decisões econômicas e comerciais do governo Trump podem provocar sobre a inflação, os juros e a confiança dos investidores.

Com informações de Agência Brasil

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