Fraudadores procuram pessoas fisicamente semelhantes para tentar passar por validações biométricas; Serasa identificou 2,86 milhões de tentativas de fraude no primeiro semestre
Uma nova modalidade de fraude de identidade usa tecnologia de comparação facial para tentar driblar sistemas de reconhecimento biométrico. Batizado de “golpe do sósia”, o método parte do rosto do próprio criminoso para encontrar pessoas com características físicas semelhantes e, a partir daí, tentar assumir a identidade delas.
A estratégia foi identificada pela equipe de inteligência analítica da Serasa Experian e descrita na edição do Mapa da Fraude referente ao primeiro semestre de 2026.
O golpe explora sistemas de reconhecimento facial usados em processos como abertura de contas, cadastros e validação de identidade. A ideia é encontrar uma pessoa cuja aparência tenha alto grau de similaridade com a do fraudador, aumentando a possibilidade de que a tentativa de autenticação seja aceita.
Segundo a Serasa Experian, os criminosos podem recorrer a ferramentas de comparação facial para procurar pessoas semelhantes em diferentes bases de dados, inclusive informações obtidas de maneira ilícita.
A partir do resultado, o fraudador seleciona uma identidade que considera mais vulnerável à tentativa de falsificação e passa a utilizar os dados da possível vítima.
Estratégia inverte lógica tradicional
O chamado golpe do sósia se diferencia de modalidades mais tradicionais de fraude de identidade pela ordem em que o criminoso procura a vítima.
Em golpes convencionais, o fraudador geralmente começa com os dados de uma pessoa específica — como nome, CPF ou documentos — e tenta encontrar uma maneira de se passar por ela.
Na nova estratégia, o processo começa pelo próprio criminoso. Ele utiliza seu rosto como ponto de partida, procura pessoas com características físicas semelhantes, identifica uma possível vítima e tenta utilizar os dados dessa pessoa para concluir uma operação.
A mudança explora uma limitação dos sistemas que dependem excessivamente da análise facial: uma correspondência visual elevada não significa, necessariamente, que todos os demais elementos relacionados à identidade sejam legítimos.
Biometria não deve ser usada sozinha
Para Leandro Bartolassi, diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa Experian, o caso mostra que ferramentas criadas para aumentar a segurança também podem ser exploradas por criminosos.
A empresa recomenda que o reconhecimento facial seja utilizado como uma das etapas de autenticação, e não como o único mecanismo para confirmar a identidade de uma pessoa.
A análise pode ser reforçada pela combinação de diferentes informações, como documentos, prova de vida, dados cadastrais, características do dispositivo utilizado e comportamento durante a jornada digital.
O objetivo é identificar contradições que poderiam passar despercebidas quando a decisão é baseada apenas na semelhança entre dois rostos.
Fraudes barradas
O Mapa da Fraude da Serasa Experian aponta que suas soluções antifraude identificaram e impediram 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade no primeiro semestre de 2026.
O número representa aumento de 32,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo a empresa, o volume corresponde à identificação de uma tentativa de alto risco a cada 5,5 segundos.
As fraudes bloqueadas estavam relacionadas a um prejuízo estimado em R$ 3,77 bilhões que, segundo a Serasa, teria sido evitado.
Os números consideram tentativas identificadas pelos mecanismos de prevenção da empresa e não representam necessariamente o total de fraudes ocorridas no país.
Como evitar o golpe
A exposição de fotografias, documentos e dados pessoais pode aumentar os riscos de fraude de identidade. Por isso, a Serasa Experian recomenda que consumidores tenham cuidado ao fornecer essas informações.
Uma das orientações é evitar publicar fotos de documentos ou imagens em que a pessoa apareça segurando documentos. Também é recomendável fornecer dados pessoais e biométricos somente em sites e aplicativos oficiais.
Pedidos inesperados de reconhecimento facial recebidos por links, e-mails, mensagens ou códigos QR devem ser tratados com desconfiança, principalmente quando não houver uma operação iniciada pelo próprio consumidor.
Também é importante impedir que desconhecidos tenham acesso a fotografias do rosto ou de documentos e evitar o compartilhamento de imagens de documentos, mesmo quando parte das informações estiver escondida.
A proteção do celular e dos aplicativos com senhas fortes e autenticação em dois fatores é outra medida recomendada. Sistemas operacionais e aplicativos devem ser mantidos atualizados.
O consumidor também pode monitorar regularmente o CPF e procurar os canais oficiais das empresas caso identifique movimentações ou solicitações que não reconheça.
Empresas devem adotar várias camadas de segurança
A ameaça também exige mudanças nos mecanismos utilizados por empresas para confirmar a identidade de clientes.
A recomendação da Serasa Experian é que instituições adotem sistemas de prevenção em camadas, evitando que uma única fotografia ou informação seja suficiente para concluir um cadastro ou liberar uma operação.
Entre as medidas estão a combinação de biometria facial e prova de vida, análise documental, cruzamento de dados cadastrais, avaliação do dispositivo utilizado, monitoramento de tentativas repetidas e identificação de padrões considerados suspeitos.
A análise da jornada digital também pode ajudar a identificar comportamentos incompatíveis com o histórico ou com os demais dados apresentados pelo usuário.
Nesse modelo, a semelhança facial passa a ser apenas uma das informações analisadas. Mesmo quando o rosto do fraudador apresenta elevada similaridade com o de uma pessoa legítima, inconsistências em documentos, dados cadastrais, dispositivo ou comportamento podem indicar uma tentativa de fraude.
Com informações e imagem da Agência Brasil



















