Levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia mapeou unidades em todas as regiões; tecnologias com inteligência artificial ampliam autonomia de pessoas com baixa visão ou cegueira
Pessoas que perderam a visão parcial ou totalmente têm à disposição no Sistema Único de Saúde (SUS) uma rede especializada para ajudar na recuperação da autonomia, mas grande parte desses serviços ainda é desconhecida pela população — e até por profissionais de saúde.
Segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o Brasil possui 95 Centros Especializados em Reabilitação (CERs) voltados ao atendimento de pessoas com baixa visão ou cegueira. As unidades oferecem acompanhamento multiprofissional e podem auxiliar pacientes a desenvolver estratégias para realizar atividades cotidianas com mais independência.
O levantamento foi apresentado pelo CBO durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizado em Salvador até sábado (12). O conselho também mapeou a distribuição dos centros pelo país para facilitar o acesso de pacientes e profissionais aos serviços especializados.
A maior concentração está no Sudeste, com 39 centros. O Nordeste aparece em seguida, com 31 unidades. O levantamento registra ainda 12 centros no Norte, nove no Sul e quatro no Centro-Oeste.
Para o CBO, a falta de informação é um dos obstáculos para que a estrutura existente seja efetivamente utilizada. Segundo a entidade, muitos pacientes não sabem que podem recorrer gratuitamente aos serviços de reabilitação visual oferecidos pelo SUS.
Rede precisa funcionar de forma integrada
O acesso aos centros de reabilitação depende, segundo o conselho, de uma rede de atendimento organizada e da comunicação entre os diferentes níveis de assistência do SUS.
Na prática, o paciente pode passar por diferentes etapas do sistema de saúde até chegar ao serviço especializado. Por isso, o CBO considera necessário ampliar o conhecimento sobre os CERs não apenas entre os usuários, mas também entre os próprios profissionais de saúde.
O mapeamento conduzido pela oftalmologista Karina Eiko Yamashita foi elaborado justamente com o objetivo de facilitar essa conexão.
Segundo o conselho, a relação dos centros funciona como uma espécie de guia para pacientes e profissionais que procuram atendimento especializado em reabilitação visual.
Reabilitação vai além do diagnóstico
A perda parcial ou total da visão pode modificar a rotina e comprometer a autonomia para tarefas como locomoção, leitura e interação com o ambiente.
Nesse contexto, a reabilitação visual não se limita ao acompanhamento oftalmológico. O atendimento envolve diferentes profissionais e busca desenvolver recursos e estratégias que permitam ao paciente lidar com as limitações visuais.
O CBO destaca que o objetivo é garantir que a pessoa não fique apenas com o diagnóstico, mas também tenha orientação sobre os caminhos disponíveis para continuar suas atividades e preservar a qualidade de vida.
Inteligência artificial amplia recursos de acessibilidade
Além da estrutura de atendimento multiprofissional, novas tecnologias começam a ocupar espaço na reabilitação visual. Entre elas está a inteligência artificial (IA), que pode ser utilizada em ferramentas destinadas a ampliar a autonomia de pessoas com deficiência visual.
Um dos exemplos são as bengalas inteligentes, capazes de detectar obstáculos e orientar a locomoção por meio de comandos de voz.
Também existem sistemas de audiodescrição que analisam imagens e textos e transformam essas informações em descrições do ambiente, permitindo que o usuário tenha acesso a elementos que não consegue visualizar.
Para o CBO, recursos que até pouco tempo pareciam distantes já fazem parte das possibilidades disponíveis no mercado.
A entidade, entretanto, ressalta que a tecnologia não substitui o acompanhamento médico.
Oftalmologista continua sendo essencial
Mesmo com a evolução das tecnologias assistivas, o acompanhamento oftalmológico continua necessário. Cabe ao profissional avaliar a funcionalidade visual do paciente e orientar sobre quais recursos podem ser utilizados em cada caso.
A indicação deve levar em conta a condição ocular, sua evolução e o prognóstico do paciente. A tecnologia, portanto, deve ser integrada ao cuidado, e não utilizada de forma isolada.
O CBO também chama atenção para questões éticas relacionadas ao uso de inteligência artificial na acessibilidade. Sistemas de audiodescrição dependem de bases de dados que podem reproduzir vieses, o que exige cuidado adicional quando as ferramentas são utilizadas por pessoas que já enfrentam situações de vulnerabilidade.
Mapeamento busca aproximar pacientes dos serviços
Ao divulgar a localização dos 95 centros, o CBO pretende reduzir uma das principais barreiras apontadas pela entidade: o desconhecimento sobre a existência da rede de reabilitação visual.
A distribuição das unidades mostra que há serviços em todas as regiões brasileiras, embora em números diferentes. O Sudeste concentra pouco mais de quatro em cada dez centros mapeados, enquanto o Centro-Oeste tem quatro unidades.
Para o conselho, ampliar a divulgação desses serviços e acompanhar o desenvolvimento das tecnologias assistivas são medidas necessárias para fortalecer a reabilitação visual no país.
A proposta, segundo a entidade, é fazer com que o paciente saiba não apenas qual é seu diagnóstico, mas também onde buscar atendimento e quais recursos podem ajudá-lo a recuperar autonomia e qualidade de vida.
O tema está entre os principais assuntos discutidos no 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, que reúne especialistas em Salvador até sábado (12).
Com informações e imagem da Agência Brasil



















