Planejamento prévio ajuda a reduzir riscos durante chuvas intensas, quedas de energia e necessidade de deixar o imóvel
Os temporais que atingiram Mato Grosso do Sul nos últimos dias deixaram ruas bloqueadas, árvores e postes derrubados, imóveis danificados e bairros inteiros sem energia elétrica. Em alguns pontos de Campo Grande, por exemplo, o fornecimento demorou mais de 36 horas para ser restabelecido, afetando diversas residências, muitas delas com moradores idosos.
Mato Grosso do Sul tem cerca de 391 mil pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 14,18% da população do Estado, segundo dados do Censo 2022 do IBGE. O número mostra a importância de preparar a casa e a família para situações de emergência provocadas por chuvas intensas, ventos fortes e interrupções prolongadas de serviços essenciais.
Para idosos, situações como essas podem representar dificuldades adicionais. Mobilidade reduzida, uso contínuo de medicamentos, dependência de equipamentos elétricos e limitações visuais ou auditivas podem dificultar uma reação rápida diante de uma situação de risco.
Para Denis Corrêa, sócio e diretor comercial e estratégico da CoreHelp, instituição especializada na capacitação para atendimento de emergências, o planejamento deve começar antes da chegada da tempestade.
“Em uma emergência, não é o momento de descobrir quem vai ajudar o idoso, onde estão os medicamentos ou como ele poderá deixar a casa se isso for necessário. A família precisa pensar previamente nesses cenários e definir um plano simples, que todos conheçam e consigam executar”, orienta.
A atenção a esse público também está prevista no Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025/2035, que estabelece que as estratégias de prevenção e resposta a desastres devem considerar prioritariamente pessoas idosas, pessoas com deficiência e aquelas com mobilidade reduzida.
Planejamento começa antes da emergência
Denis chama esse conjunto de cuidados de plano de resposta rápida doméstico. A proposta é deixar definido, antes de qualquer problema, o que a família precisará saber e fazer diante de uma emergência. Segundo o especialista, não são necessários equipamentos caros ou conhecimento técnico, mas organização e informações acessíveis.
Um dos primeiros cuidados é deixar os números de emergência visíveis para todos os moradores da casa, como na porta da geladeira, perto do telefone fixo ou na entrada do imóvel. Entre os contatos, devem estar o SAMU (192), a Polícia Militar (190), o Corpo de Bombeiros (193) e a Defesa Civil (199), além do telefone da companhia de energia.
Também é recomendável salvar esses contatos no celular do idoso e dos familiares mais próximos.
“Na hora do susto, muita gente esquece até o número mais conhecido. Quando a informação está escrita e à vista, qualquer pessoa da casa consegue pedir ajuda, inclusive uma criança ou uma visita”, explica Denis.
A família também deve saber previamente quais hospitais da região estão preparados para atender casos de infarto e AVC. Nessas situações, o tempo pode ser determinante, e conhecer o destino com antecedência evita deslocamentos desnecessários. A orientação é confirmar essas informações com o médico que acompanha o idoso ou com a rede de saúde do município.
Outro ponto é definir qual familiar deverá ser avisado primeiro em uma emergência e estabelecer uma segunda opção caso essa pessoa não atenda. A medida evita ligações desencontradas e ajuda a garantir que alguém de confiança acompanhe a situação desde o início.
A rota de saída da residência também precisa estar definida. A família deve saber por qual porta sair, manter as chaves sempre no mesmo local, deixar corredores e passagens livres, ter uma lanterna de fácil acesso e estabelecer um ponto de encontro seguro fora do imóvel.
Medicamentos e equipamentos também entram no plano
As necessidades variam de acordo com as condições de cada idoso. Uma pessoa independente e com boa mobilidade terá demandas diferentes de alguém que precisa de auxílio para caminhar, usa cadeira de rodas, faz tratamento contínuo ou possui alguma condição que dificulte a comunicação ou a orientação.
Por isso, a família deve definir quem poderá ajudar em uma eventual saída, para onde o idoso será levado e como será feito o deslocamento. Informações sobre medicamentos, receitas, contatos de familiares, médicos e serviços de emergência também devem permanecer em local de fácil acesso.
Para quem utiliza medicamentos diariamente, a recomendação é manter as receitas organizadas e acompanhar o estoque, principalmente quando houver previsão de temporais. Em situações de chuva intensa, sair de casa para buscar medicamentos pode se tornar mais difícil.
Idosos que usam aparelhos auditivos também devem ter pilhas extras ou o carregador sempre abastecido. O objetivo é evitar que uma falha no equipamento prejudique a capacidade de ouvir alertas e orientações durante uma emergência.
A falta de energia elétrica é outro fator que precisa ser considerado. Além de deixar o ambiente escuro e aumentar o risco de quedas, uma interrupção prolongada pode afetar equipamentos utilizados nos cuidados com o idoso, a conservação de alguns medicamentos e a comunicação com familiares.
“É importante que a família saiba antecipadamente se existe algum equipamento que não pode ficar sem energia, quais são as alternativas disponíveis e para quem deve ligar. Improvisar durante o temporal aumenta muito a chance de uma decisão errada”, afirma Denis.
Retirar o idoso de casa nem sempre é a primeira medida
Em meio a uma chuva forte, a família também precisa evitar decisões precipitadas. Retirar um idoso da residência sem que exista risco imediato no imóvel pode expô-lo a outros perigos, como ruas alagadas, fios elétricos, árvores instáveis e quedas durante o deslocamento.
A decisão deve considerar as condições da casa, os alertas dos órgãos de emergência e a segurança do trajeto.
“Existe uma tendência natural de querer resolver tudo rapidamente, mas, em uma situação de emergência, a primeira análise deve ser sempre de segurança. Se há fios caídos, água subindo, estruturas comprometidas ou risco de queda de árvores, é preciso avaliar antes de colocar uma pessoa com mobilidade reduzida naquele ambiente”, explica o especialista.
Caso seja necessário deixar o imóvel, documentos pessoais, medicamentos, receitas, água e outros itens indispensáveis devem estar reunidos em uma bolsa ou mochila que possa ser transportada rapidamente.
O plano também não deve depender de uma única pessoa. Familiares, cuidadores e vizinhos de confiança podem conhecer as necessidades do idoso e saber como ajudar caso o responsável não consiga chegar.
Cuidados continuam depois da chuva
O fim do temporal não significa que todos os riscos desapareceram. Falta de energia, pisos molhados, objetos fora do lugar, telhados danificados, galhos e fios espalhados pelo terreno podem criar novos perigos dentro e fora da residência.
Para idosos com dificuldade de equilíbrio, locomoção ou visão, mudanças aparentemente pequenas no ambiente podem aumentar o risco de quedas e outros acidentes.
Antes de permitir que o idoso volte a circular normalmente pela casa, é importante verificar se há água no chão, objetos bloqueando passagens, danos na estrutura ou qualquer alteração que dificulte a locomoção.
Áreas próximas a fios, árvores caídas, postes e estruturas danificadas devem ser isoladas até que sejam avaliadas por profissionais.
A preparação antecipada ajuda a reduzir improvisos justamente no momento em que decisões rápidas podem ser necessárias. Manter os números de emergência à vista, definir hospitais de referência e contatos familiares, organizar medicamentos, estabelecer rotas de saída e considerar as necessidades específicas do idoso são medidas que podem tornar a resposta mais segura antes, durante e depois de um temporal.


















